Por José de Alencar (1875)
— E tinha razão.
— Não digo o contrário; foi êle de natural reconcentrado e amigo da solidão.
— Isso era. Em tantos anos que tivemos de vizinhança receberíamos dele três visitas, se tantas, observou Campelo.
— Eu que alí me criei nunca vim a Oiticica, porque êle não gostava de trato e comunicações que o tirassem de seus hábitos sertanejos.
— E como consumia o tempo neste deserto? perguntou o licenciado Ourém.
— Quanto a isto não falta em que ocupar-se um homem ativo, acudiu o Daniel Ferro.
— Basta a labutação da fazenda, acrescentou o capitão Fragoso. Se não acredita, Ourém, eu o emprazo para Bargado.
Voltando-se depois para o capitão-mór prosseguiu:
— Sabendo do desamparo em que vai a minha fazenda resolví passar aí o inverno e vim com êstes amigos assistir às vaquejadas. Durante a minha estada conto prover o necessário, para tornar o Bargado ao estado próspero em que o deixou meu pai, que não é de razão se perca tão rica herdade.
Na continuação da prática veio a falar-se do Recife e das festas que houve pela chegada do Conde de Vila Flor:
— Nunca mais se descobriu quem foi aquele embuçado que se intrometeu no jôgo da argolinha? perguntou o capitão-mór.
— Oh! Êle terá o cuidado de sumir-se de minha vista, pois sabe quanto lhe sairia cara a graça! redarguiu Marcos Fragoso com arrogância de voz que mal encobria o vexame produzido pela alusão.
— Aquilo foi uma surpresa vil, acudiu o Ourém em abono do amigo. Se não fosse o imprevisto do ataque, nunca lograria o intruso arrebatar o argolão ao nosso Marcos Fragoso, que é campeão para maiores façanhas.
— Todos nós sabemos que é; mas também que o outro, o embuçado, não lhe fica após disso, não há quem possa duvidar. O mesmo repente do assalto, como êle o praticou, surdindo num relance não se sabe donde, e arremetendo como um raio, não é proeza para qualquer.
Esta observação partiu do alferes Daniel Ferro, que a-pesar-de amigo e parente, não deixava de ter sua ponta de rivalidade com o Marcos Fragoso.
— Todos os dias a estão fazendo nossos vaqueiros, Daniel Ferro, sem que lhe mereçam nota, quanto mais os gabos que lhe dá agora.
— E que pensa, Fragoso, que nossos vaqueiros não seriam homens para medir peças em jogos de destreza aos mais esforçados paladinos de outras eras? Por mim tenho que nunca Roldão, Lançarote, ou algum outro dos doze pares de França, estacou na ponta de sua lança um cavalheiro à disparada com tanta bizarria, como tenho visto topar um touro bravo na ponta da aguilhada.
— Lá isso é verdade, acudiu o João Correia.
— Certo que é; mas não se medem proezas de cavalheiros com agilidades de peôes, tornou o Fragoso, e continuou voltando-se para o capitão-mór com ar prazenteiro. O atrevimento do vilão não causou nenhum mal em suma, pois restituiu a prenda à pessoa a quem a destinei desde o princípio da cavalhada; e não foi senão o mêdo do castigo que o moveu a amparar-se com a boa sombra da sra. D. Flor, que mais santa guarda não podia dar-lhe sua estrêla.
Marcos Fragoso ao entrar na sala, relanceara disfarçadamente a vista para as portas interiores, com o sentido de surpreender por alguma fresta os olhos curiosos que porventura dalí estivessem espreitando.
Havia no fundo da sala, entre as portas do serviço, duas janelas gradeadas como o locutório dos conventos, e de que ainda se encontraram amostras nas casas construídas pela gente abastada até princípios dêste século.
Êsse crivo miudíssimo, tecido de rótulas delgadas, servia para esclarecer o corredor de passagem, vedando ao olhar curioso do hóspede a vista do interior, mas permitindo às pessoas da casa esmerilhar o que ia pela sala.
Nem é de admirar se encontrasse na morada de nossos antepassados essa semelhança com os conventos, quando o teor da vida íntima tanto se parecia com a regra monástica, e as mulheres tinham no seio da família o mesmo recato das freiras.
Pareceu a Marcos Fragoso que por detrás da primeira das rótulas se haviam condensado umas sombras vagas, as quais ao proferir êle as últimas palavras se agitaram para logo dissiparemse.
Suspeitara o mancebo que uma daquelas sombras era de D. Flor e porisso lhe dirigira com um olhar o galanteio, que afugentou por momentos o vulto curioso.
Não se enganara Marcos Fragoso. Eram efetivamente D. Flor e Alina que tinham vindo espreitar os hóspedes pela rótula, não sótrazidas de impulso próprio, como também a recado de D. Genoveva, que as mandara escutar quem eram os forasteiros e qual o motivo os trazia à Oiticica.
Era costume de casa, e não só desta como de todas as grandes fazendas, não deixar partir os hóspedes sem os regalar; e isso usavam os ricaços, não tanto por obséquio e satisfação dos estranhos, como principalmente por ostentação do fausto com que se tratavam.
Não perdiam ocasião de fazer alarde da suntuosa baixela de ouro e prata, de que especialmente se ufanavam, e na qual fundiam tal quantidade de metal precioso que chegaria em nossos tempos para levantar um palácio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.