Por Lima Barreto (1922)
Continuemos a demonstração. Creio que as aranhas, tanto as daqui como as da Bruzundanga, não têm em grande conta o cargo de Ministro de Estado. É de lastimar que insetos de tanto talento desconheçam a importância de tão sublimado bímano; entretanto, não está nos poderes humanos obrigá-las a respeitar o que respeitamos, senão devíamos fazê-lo, para que tais aracnídeos não procedessem como um deles procedeu irreverentemente com um ministro da Bruzundanga.
Caso foi que uma aranha comum, totalmente despida de qualquer notoriedade entre as aranhas, completamente sem destaque entre as suas iguais, teve o desaforo de pôr-se a tecer a sua teia no próprio teto do gabinete de um Ministro da Bruzundanga e bem por cima de sua majestosa cadeira.
Houve, quando o trabalho ia adiantado, não sei que espécie de cataclismo, próprio ao universo das aranhas; e, tão forte foi ele, que um bom pedaço de labor do engenhoso articulado veio a cair em cima da sobrecasaca da poderosa autoridade da República da Bruzundanga.
Apesar do seu imenso poder e da sua forte visão de seguro guia de povos, o grave Ministro não deu conta do desrespeito — involuntário, é verdade, mas desrespeito — de que acabava de ser objeto, por parte de uma miserável aranha, hedionda e minúscula.
Mas, não dando pelo fato, tratou de tomar o coupé para ir ao despacho coletivo, levando tão estranha condecoração(?) nas costas, quando o secretário, chapéu na mão, todo mesuroso, pedindo licença, tirou a prova da indignidade do bichinho das vestes do seu amo. E ele já entrava no carro!...
Suponhamos que tal não se tivesse dado, isto é, que o ministro entrasse para o alto sínodo cuja presidência competia ao Mandachuva, com aquele evidente atestado de relaxamento.
Que pensaria o Supremo da Bruzundanga? Naturalmente, penso eu, que os negócios da pasta que lhe havia confiado, mereciam-lhe o mesmo cuidado que a sua sobrecasaca.
Ah!, Os secretários de Ministro! Como são úteis!
Além desses préstimos tão relevantes de que eles não se poupam, ainda por cima são às vezes mártires. Duvidam? Pois vou provar-lhes como é verdade. O deputado Fur-hi-Bhundo tinha um pedido a outro Ministro da Bruzundanga. Este por qualquer motivo não lhe pôde servir e atendeu a outro "pistolão". Sabedor da coisa, Fur-hi-Bhundo voou que nem uma frecha para a respectiva Secretaria de Estado.
Arrebatadamente entra pelo gabinete ministerial adentro e, dando com o secretário, pois o Ministro não estava, desanda no dedicado serventuário uma feroz descompostura em que o chama de lacaio, de capacho, de toma-larguras, de lavador de tinteiros, etc., etc.
Entretanto, o secretário não merecia tão feroz objurgatória, pois, em geral, esses abnegados serventuários da Bruzundanga são pessoas ternas, meigas, de bom coração, especialmente com os filhos dos Ministros.
Em dias de festas, das festas familiares dos Ministros, é de ver como tratam os pimpolhos ministeriais; é de ver como suportam resignadamente o peso de um nas costas, o de um outro nos joelhos, além do incômodo de um terceiro que lhe passou um barbante na boca e simula guiá-lo como cavalo de tílburi. Não vão para a copa; mas — coitados! — aturam coisas muito piores. Disse, no começo desta "nota", que o secretário de Ministro era indispensável ao complexo funcionamento do aparelho governamental da Bruzundanga.
Pelos fatos que expus, estou certo de que provei esta asserção; e posso concluir com orgulho, com aquele orgulho de um jovem estudante, quando acaba de demonstrar com segurança um teorema de geometria e dizer, como ele ou como o velho compêndio de Euclides, que demonstrei o que era preciso demonstrar — quod erat demonstradum, Q. E. D. como abreviam os compêndios.
CAPÍTULO XX
UMA PROVÍNCIA
As províncias da República da Bruzundanga, que são dezoito ou vinte, gozam, de acordo com a Carta Constitucional daquele país, da mais ampla autonomia, até ao ponto de serem, sob certos aspectos, quase como países independentes.
Seria enfastiar o leitor querer dar detalhes das prerrogativas que usufruem as províncias. Com isto, faria obra de estudioso de cousas legislativas e não de viajante curioso que quer transmitir aos seus concidadãos detalhes de costumes, que mais o feriram em terras estranhas. Faço trabalho de touriste superficial e não de erudito que não sou.
Das províncias da Bruzundanga, aquela que é tida por modelar, por exemplar, é a província do Kaphet. Não há viajante que lá aporte, a quem logo não digam: vá ver Kaphet, aquilo sim! Aquilo é a jóia da Bruzundanga.
A mim — é bem de ver-se — os magnatas de lá não me fizeram semelhante convite; mas à tal província fui por minha própria iniciativa e sem os tropeços de cicerones oficiais que me impedissem de ver e examinar tudo com a máxima liberdade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.