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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Luís Furtado entendeu que melhor seria assistir ao embarque no Arsenal de Marinha com D. Branca e os Holanda. Mas Evaristo foi dizendo logo que "só costumava ir ao embarque dos seus amigos e que não transigia com as suas convicções..."

— Não se trata aqui de convicções, nem de idéias políticas — fez o secretário. — É um dever de todo o brasileiro levar as suas despedidas ao imperador, ao homem que nos governa há quase cinqüenta anos e cujas virtudes o mundo inteiro admira...

— Nesse caso vai tu, eu não. O meu dever, como republicano, é não ir, é ficar em casa ou à minha banca de trabalho. Nunca recebi favor do Sr. D. Pedro II, nem ele me deve coisíssima alguma.

— Queres, então, privar D. Adelaide.

— Não senhor, não senhor, Adelaide irá se quiser, eu não proíbo...

— Sempre a mesma veleidade republicana; sempre a mesma tolice! — exclamou Furtado. — Hás de lucrar muito com essas idéias!

— Não é questão de lucro, é questão de consciência. Tenho o direito de pensar e de agir como entender.

— Bem; fica-te lá com a tua consciência, meu Camilo Desmoulins, e depois não te arrependas... Então, D. Adelaide vai conosco? — Pode ir...

A jovem esposa do bacharel tinha, com efeito, muita vontade de ver o imperador, cujas barbas brancas ela nunca vira senão em retratos; mas o marido era homem esquisito, inimigo figadal da monarquia, cheio de escrúpulos, timbrando em continuar na Corte a mesma vida aperreada da província — um incorrigível — e ela respeitava as idéias dele como se fossem as suas próprias idéias. Resignou-se com um suspiro. O mundo não se acabava; quando o imperador voltasse da Europa, iria vê-lo...

Furtado, porém, renovou o seu pedido a Evaristo, obtendo dele uma resposta que trouxe aos lábios da esposa o mais adorável dos sorrisos. — Que sim — que Adelaide não devia perder o embarque espetaculoso do Sr. D. Pedro II... ao menos por curiosidade, por desfastio...

— Muito bem, muitíssimo bem! — aplaudiu o secretário, risonho, batendo as mãos. Gosto de ver um republicano de idéias largas como o Evaristo. D. Adelaide agora não tem mais do que ir preparando a toilette..

E no dia anunciado pelos jornais, todos, menos o bacharel que os acompanhou somente até à cidade, dirigiram-se ao Arsenal de Marinha, ponto de embarque do imperador.

A galeota imperial, encostada ao cais, fumegava, toda pintada de verde e ouro, fria como uma baleia, crivada de olhares que a contemplavam num êxtase selvagem. Dentro dos muros do Arsenal passeavam oficiais de Marinha e do Exército, em grande gala, arrastando as espadas com ar marcial. Viam-se também altos funcionários à paisana, de casaca e luva, e senhoras em trajo de baile, exibindo o colo num decote pomposo de rainhas, vestido de cauda, brilhantes no cabelo.

Era intensa a luz do sol, mas o povo afluía, na rua, dominado pela irresistível curiosidade de assistir à passagem da família imperial.

Uns queriam ver o próprio monarca, outros, que o conheciam, não ocultavam o desejo de "reparar bem" na herdeira do trono, outros nada mais queriam senão lançar os olhos à imperatriz. O trecho entre o morro de São Bento e a Secretaria da Marinha estava repleto de curiosos — operários do Arsenal, ganhadores, catraieiros, no meio dos quais sobressaíam altos chapéus de forma de um ou outro personagem desconhecido que também se abalava a ver o embarque.

De vez em quando parava um carro e o povo abria alas, num movimento de exército em revista. Chegavam Ministros e diplomatas cujos nomes corriam de boca em boca.

Eram já onze horas da manhã e nada do imperador, nem sinal do augusto viajante.

A essa hora precisamente uma carruagem estacou no portão do Arsenal e logo apeou o secretário do Banco Industrial; em seguida apearam duas senhoras: D. Branca e Adelaide.

Furtado ouviu uma voz no meio do povo: — Mulherão! e, teso, ereto, numa pose de verdadeiro diplomata, disse qualquer coisa ao porteiro e entrou. As duas senhoras iam na frente com o ar compungido, silenciosas, lado a lado.

Quase no mesmo instante o povo agitou-se e mais de duas mil cabeças volveram-se para o extremo oposto da rua. Vozes exclamaram: — É ele! é ele!

Houve, então, uma balbúrdia, um atropelo, uma ânsia fenomenal. Cometas estrugiram ao longe e ouviu-se um estrépito de cavalhada em correria.

Com efeito, era o imperador que chegava. A multidão abriu caminho, tal as águas do mar vermelho para deixar passar os hebreus, e uma exclamação uníssona, estrepitosa e límpida, vibrou no espaço:

— Viva Sua Majestade o Imperador do Brasil! — Vi... ôôôô!

Dentro no Arsenal, uma música militar rompeu o hino com entusiasmo belicoso enquanto os vivas continuavam, fora. — Vi... ôôô! Vi... ôôô!... sucessivamente.

O carro imperial estacou, seguido de outros carros, e o velho monarca, cumprimentando à direita e à esquerda, surgiu trêmulo, incrivelmente pálido, os olhos fundos, a barba longa como a de um profeta da antigüidade.

(continua...)

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