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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Bateu as portas, mais cautelosa que nunca, revistou o quintal, e foi deitar muito cedo, pensando em Bom-Crioulo, no Aleixo e nas loucuras da humanidade. Quase toda a noite ouviu rodarem os bondes. Fazia um grande calor abafado de estufa, e ela não podia conciliar o sono, adormecer tranqüilamente; fechava os olhos em vão, para tornar a abrir, no mesmo instante, sufocada, agitada por um nervoso ridículo de mulherzinha histérica, ela, um mulherão daquele, gorda, forte e sadia!

Nenhuma posição lhe agradava na cama: um mal estar, uma asma, que lhe tirava o fôlego e o sono. Era a primeira vez que tal cousa lhe sucedia. Debalde escancarou as portas da alcova — a que dizia para a sala de jantar e a do corredor. Qual! A mesma falta de ar, o mesmo inferno. E sempre a lembrança do negro e do outro atormentado-a como um pesadelo cruel. Via Bom-Crioulo entrar pela casa bêbedo, os olhos em chama, segurando uma navalha de marinheiro, brandindo a arma, cheio de ódio feroz, terrível, hediondo, e, de repente, cair sobre o grumete, espumando ciúme, cortando-lhe de navalhadas; e parecia-lhe estar vendo o outro rolar no chão sem fala, num rio de sangue, morto!... E depois a polícia, gritos de socorro, vergonhas, curiosos que vinham ver...

Bateu duas horas da madrugada. Já se não ouviam os bondes. Um silêncio absoluto na rua, e, dentro, no sobrado, a mesma quietação dormente e abafada — uma calma infinita de subterrâneo.

Mais um quarto de hora e portuguesa caiu no sono profundamente — um sono de pedra, inabalável como o sono eterno...

Como de costume, Aleixo “folgou” no dia seguinte, e, como de costume, veio direto à casa, muito leve, muito desobrigado, no seu uniforme azul, capa branca no boné, oloroso e risonho. D. Carolina estava para dentro, às voltas com a cozinha. Eram três horas da tarde. O grumete estranhou que a porta da rua estivesse fechada àquela hora, e bateu com força. — Oh! isso era novidade!...

A mulher correu logo a ver da janela: — Seria o bonitinho?

Houve um pequeno rebuliço na vizinhança. Embaixo, na loja, apareceu uma cabeça negra, toda curiosa, fingindo que chegava ao postigo naturalmente, por acaso... O caixeiro da padaria estirou o pescoço, de dentro do balcão.

D. Carolina, mal reconheceu o marinheiro, veio abrir logo com uma exclamação de surpresa: — Oh! não o esperava tão cedo!

— Tão cedo? Pois ainda achava cedo? É boa: quase noite!

— Oh! filho são duas horas...

— Duas não senhora: já vai para as quatro.

E foram subindo a escada, ela com o braço no ombro do rapazinho, ele muito sério, muito desconfiado, os olhos baixos, uma expressão melancólica no rosto púbere. — Que lembrança fechar a porta da rua àquela hora!.. E a portuguesa beijando-o na face:

— Não te zangues, meu jasmim, não te zangues. Porta fechada livra de tentações... Deu-me uma cousa, um medo...

— Qual tentações, qual medo! Você já não é criança para andar se escondendo... Isso até faz a gente desconfiar.

Mas D. Carolina não queria dizer a verdade, os seus escrúpulos com relação à Bom-Crioulo, o caso do bilhete. Para que sobressaltar Aleixo? Ele bem sabia que o outro não o abandonava facilmente: negro é raça do diabo, raça maldita, que não sabe perdoar, que não sabe esquecer... Aleixo bem conhecia o gênio de BomCrioulo. De resto, o caso do bilhete era uma tolice em que ninguém devia pensar: — Cousas de negro...

— Olha, ó pequenino, juro-te que não fecharei mais a porta da rua. Sossega, ouviste? sossega...

Estavam na alcova. O grumete corria o olhar nos móveis, na cama, pelo quarto e pela sala, como quem procurava descobrir vestígios de infidelidade. A mulher ajudava-o a se despir, tomando-lhe a roupa úmida de suor, toda cheia de cautelas para que ele não se constipasse. — Olha, muda a camisa; olha, toma um o pouquinho de aguardente; olha, cuidado com o vento; olha os chinelos...

Nunca vira tanto carinho, zelo tanto. A portuguesa multiplicava-se em dedicações, em ternuras quase infantis, desejando até que ele a maltratasse, que ele a espezinhasse. O olhar azul de Aleixo tinha sobre ela um poder maravilhoso, uma fascinação irresistível: penetrava o fundo de sua alma, dominando-a, transformando-a num pobre animal sem vontade, queimando-a como uma brasa ardente, impelindo-a para todos os sacrifícios... Perto dele, fugiam-lhe todos os receios, todas as dívidas: era capaz de atirar-se a um homem, de morrer na ponta de uma faca, de assassinar, de fazer loucuras!

Nesse dia principalmente, ao contrário da véspera, em que ela, no meio de seus temores, desejava ver-se longe do rapazinho, nesse dia principalmente achava-se de uma bondade maternal: a amizade convertera-se-lhe numa espécie de fanatismo, numa adoração religiosa. Beijava-o a cada instante, meiga, cariciosa e feliz, como se todas as virtudes estivessem reunidas ali, no olhar de Aleixo, nesse olhar ideal, de uma doçura infinita.

— Tu és o meu santo, ó pequenino, dizia ela; tu és a minha única felicidade neste velho mundo tão cheio de misérias...

(continua...)

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