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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Por sua vez o Zuza elevava o presidente aos cornos da lua. A sua opinião resumida era a seguinte: “Todos os cearenses juntos, trepados uns sobre os outros, não chegavam aos pés do fidalgo paulista.”

A Lídia achava os olhos do presidente “simplesmente adoráveis”.

— Eu o que mais admiro nele é o pescoço, a brancura escultural do pescoço, disse Maria.

O presidente foi analisado escrupulosamente da cabeça aos pés, como uma estátua grega, ao sabor da cerveja Carls Berg.

Já não havia quase ninguém no Passeio, quieto agora, sem o ruído tumultuoso dos passeantes, sem música, todo iluminado pela claridade branda e melancólica do luar. Apenas se ouvia o grasnar áspero dos gansos nos reservatórios, a grita estridente das marrequinhas e a toada dos soldados no quartel, rezando.

José Pereira tinha pedido mais uma garrafa de cerveja e instava para que Maria do Carmo tomasse “um bocadinho só”. A normalista, porém, cobria o copo com a mão, recusando. Que não: estava muito cheia, sentia uma pontinha de dor de cabeça. Botasse para a Lídia...

Ora, fizesse favor, aceitasse, por vida de seus magníficos olhinhos de princesa encantada, suplicou o redator da Província fixando os olhos em Maria que esperava o assentimento do Zuza.

— Por que não toma, D. Maria? perguntou este num tom quase imperativo. O José Pereira pede-lhe com tão bons modos...

Maria aceitou com um gesto de repugnância.

— À sua saúde, fez José Pereira tocando o copo no da normalista.

Houve um tilintar de cristais chocando-se de leve, e todos beberam ruidosamente.

— Agora vamo-nos chegando que se faz tarde, propôs Lídia levantando-se.

Mal sustinha-se em pé. José Pereira ofereceu-lhe o braço.

Uma languidez extrema tinha-se apoderado de Maria, cujas pálpebras pesavam como chumbo. Foi preciso amparar-se ao estudante para não cair redondamente.

— Uma tonteira! queixou-se ela fechando os olhos.

Não era nada, disse o outro passando-lhe o braço pela cintura; e enquanto o redator seguia pela avenida com Lídia, deixavam-se ficar naquela posição, em pé ambos e quase abraçados.

— Olhe, D. Maria...

A rapariga tentou abrir os olhos, e nesse momento, naquele silencioso recanto do Passeio estalou um beijo. Depois seguiram também, e, juntos, todos quatro foram tomar café no Restaurante Tristão.

CAPÍTULO VIII

Maria do Carmo chegou à casa ofegante, esfalfada, com a cabeça a arder, muito corada e alegre, o olhar cheio de meiguice, transfigurada pelos efeitos da cerveja, rindo por dá cá aquela palha. Atirou-se com todo o peso do corpo nos braços de João da Mata, fazendo-lhe festa, muito amorosa, como uma cadelinha de estima depois de uma ausência. No seu olhar aveludado e submisso havia uma súplica irresistível.

— Cheguei um bocadinho tarde, não é assim, padrinho? perguntou cosendose ao amanuense, a cabeça derreada para trás.

João olhou-a, olhou-a, hesitante, com um ar de extrema bonomia no rosto ainda há pouco carrancudo.

Tinha acabado de ralhar pela demora da afilhada e agora achava-se sem ânimo para dizer uma só palavra áspera à rapariga, cujo olhar fascina-va-o como um abismo. Ali estava ela a seus pés, submissa e mais bela do que nunca, acariciandolhe a barba, toda sua, como uma escrava.

— Sim, senhora, chegou um bocadinho tarde. Isto não são horas de uma moça estar passeando...

Afetava um tom repreensivo e ao mesmo tempo paternal.

Quase dez horas! Não era bonito aquilo, tivesse mais juizinho. Enfim, por aquela vez, o dito por não dito, mas por amor de Deus, não fizesse outra, senão, senão...

— Mas padrinho...

— Não tem padrinho, não tem nada. Pode ir ao Passeio, mas, por favor, não me volte a estas horas...

E afagava os cabelos de Maria, passava-lhe a mão nas faces, atoleimado, imbecil como um velho impotente, o olhar aceso através dos óculos escuros, a calva reluzente como uma grande bola de bilhar.

— Tu bebeste cerveja, aposto, tornou tomando entre as mãos a cabeça da rapariga e cheirando-lhe a boca. Ora se tomou...

— Tomei, sim, padrinho, tomei um copo assim. E indicou o tamanho do copo.

Mas não estou tonta, não, padrinhozinho... Olhe, foi só um copo.

— E quem to pagou?

— Quem pagou?... Ora, quem pagou...

— Sim, quero saber quem te pagou a cerveja. Tu não levaste dinheiro...

— Quem pagou foi o Sr. José Pereira...

— Eu logo vi! Aposto em como o tal Sr. Zuza também entrou na festa.

Maria fez-se desentendida, e agarrando-se ao pescoço do amanuense, com um pulo, plantou-lhe um beijo na testa. João da Mata desequilibrou-se.

— Ora, ora, ora, esta menina!...

Não sabia o que fizesse. Ralhar? Não. Maria estava encantadora e pagavalhe com beijos as recriminações. Calar? Também não. A rapariga era capaz de reincidir na falta. O verdadeiro era não falar mais no Zuza. E João da Mata rematou a conversa:

— Vá, minha filha, vá dormir, que você não está boa...

Maria beijou, como de costume, a mão descarnada do padrinho, e, de um salto, recolheu-se ao seu querido quarto do meio, caindo pesadamente na rede, vestida como estava, sem ao menos lembrar-se de soltar os cabelos, tendo apenas tirado os sapatinhos e desabotoado o corpete.

(continua...)

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