Por Inglês de Sousa (1891)
Primeiro passaram as bandejas de chá, em alvas xícaras de porcelana lisa. Vieram depois os bons-bocados e os pastéis de nata em grandes pratos de louça azul, e os sequilhos espalhados no fundo da bandeja, sobre um leito de papel corde-rosa, recortado em tufos elegantes. Um pão-de-ló de duas libras, corado e fofo, refestelava-se comodamente numa grande salva de prata, riqueza de família, preciosa e rara, e vinha carregado por uma mulatinha de estimação, de alva camisinha rendada e cabelos cheirosos. Seguia-se o pão quente, em pratos, modesto e sólido, cheirando a manteiga derretida, que era uma consolação; e fechava o cortejo o Bernardino Santana, descoberto, com a grande calva reluzente banhada de suor, a sobrecasaca branca caindo em pregas direitas, e nas mãos, apoiada no abdome, para que fascinasse todos os olhares e provocasse todos os apetites, a rica bandeja nova, imitando charão, e contendo seis grandes pratos de fatias-de-parida, apetitosas e louras.
O Neves já estava na posse feliz duma chávena de chá, duma maça de pãode-ló e de duas fatias douradas, e pondo toda a provisão num prato, sobre a mesa em que jogara o pacau, sorvia uma grande pitada de Paulo-Cordeiro, e dizia para o Mendes da Fonseca:
— Aqui é que eu queria viver. Isto aqui sempre é outra coisa. Há recursos, passa-se bem, goza-se. Ora fosse o Bernardino arranjar estes requintes de civilização lá no sitio do Urubus!
Fonseca, mordendo num bom-bocado, concordava em que estava tudo bemfeito. Fora a D. Cirila quem se encarregara dos doces, a pedido do Bernardino, gastara-se muito açúcar, mas ao menos o Bernardino não se envergonhava. Bernardino passou dizendo:
— Quem, perde é o tolo do Valadão, forte besta!
As danças interromperam-se por causa do chá. As senhoras retomavam os seus lugares na sala, em linha, nas cadeiras. Os rapazes, amáveis, carregavam xícaras e tomavam as bandejas aos criados para servirem às senhoras. Os músicos, felizes do descanso, bebiam cerveja.
Macário serviu-se de dois bons-bocados, dois pastéis, uma fatia e alguns sequilhos. Não gostava de chá, guardava-se para o chocolate e cogitava no maquiavelismo com que apanharia ao Bernardino mais uma fatia-de-parida, essa coisa fina que lhe proporcionava delicias incomparáveis.
Passou uma criada, o sacristão perguntou-lhe, a meia voz, pelo chocolate.
—Tem, é depois, respondeu, sem parar, a rapariga.
Depois! teria de esperar, e já onze e meia! Paciência, já agora não ia sem tomar o chocolate que lhe prometera o Bernardino, à entrada.
Ouviu-se a voz do Cazuza Bernardino que gritava na sala:
— Quadrilha, meus senhores.
Mas o Mapa-Múndi e a irmã despediam-se, seguidos do Felício boticário que lhes rogava que ficassem, para lhe não fazer perder a quadrilha.
— Não pode ser, dizia o Mapa-Múndi, apertando a mão a toda a gente; seguimos depois de amanhã para os castanhais. É preciso descansar e preparar os arranjos.
Então, na sala de jantar, generalizou-se a conversação sobre os castanhais. Toda a gente queria ir aquele ano às praias. Chico Fidêncio, chupando o cigarro apagado, dissera que tolo seria quem não fosse à colheita das castanhas.
— Eu por mim não ia, disse o coletor, mas a pobre da D. Cirila quer por força passar o S. João nas praias, e eu desejo fazer-lhe a vontade. Depois, francamente, a coletoria mata-me. Estou cansado, preciso de algum fôlego, e bem contra a minha vontade, é provável que lá vá ter. Já mandei pedir licença.
— E quem fica na coletoria, senhor capitão? perguntou o Costa e Silva.
— O meu escrivão. É um moço de muito bons costumes em quem deposito a maior confiança. Espero que Silves não sofrerá muito com a minha falta.
E sorriu amável para o José Antônio Pereira, que, todo curvado, fechava os olhos, agradecia, comovido:
— Oh, senhor capitão, oh! senhor capitão. V. S.a confunde-me... — É justiça, moço, atalhou o Neves.
Todos apoiaram. Era justiça e não favor, porque o José Antônio Pereira era um moço de muito bons costumes.
— Então você não vai aos castanhais, este ano, disse-lhe o Mapa-Múndi, pois olhe, tenho pena.
— Eu sim, vou, afirmou o Bernardino passando com a bandeja das suspiradas fatias. O rapazinho quer passar a lua-de-mel nas praias, e convidou-me.
Há de ser muito divertido, acrescentou afastando-se.
E Macário, seguindo com os olhos a bandeja, pensava no sermão pregado aquela manhã pelo santo padre Antônio de Morais. A inconstância daquela gente esquecera, mal salda da igreja, os momentos de terror incutido pelas eloqüentes palavras do padre vigário, e, à luz dum claro dia de maio, em pleno ar, em face das águas límpidas do lago e das eternas verduras das suas margens, ouvindo o ruído alegre do canto dos passarinhos que volitavam pelos cimos das laranjeiras, perdido o receio das trevas do inferno, tivera saudades da natureza virgem dos castanhais, e sonhara com as festas costumeiras à sombra das árvores, nas lindas praias de areia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.