Por Domingos Olímpio (1903)
— Está bom; está bom!... Não vale se zangar por tão pouco. Nada tenho com isso. Você mesmo é quem está puxando conversa... Arrume-se com a sua donzela, ruim de amansar, e seja muito feliz. Faça-lhe bom proveito aquela jóia.
— Também maldei que aquilo tudo era soberba, luxo ou aleijão da natureza, mas entrei a especular a vida, os particulares dela, e, verifiquei que é mesmo dura como pedra. Quanto mais certeza tenho, de ser ela bem procedida, mais o diacho da rapariga se me encravilha na cabeça. Eu não gosto de mulher que me azucrine, mas também refugar como aquela é da gente desesperar.
— Por que não lhe prometes casamento?
— Se ela não me quer ver nem pintado... Além disso, por mal dos meus pecados, sou casado.
— E a mulher?...
— Sei lá. Não combinava com o meu gênio, nem pegava do meu jeito... Era um demônio em figura de gente, rezinguenta e respondona. Um dia, brigamos mesmo de verdade: dei-lhe uns pescoções, e o diabinho anoiteceu e não amanheceu. Levantei as mãos para o céu. Boi solto, lambe-se todo...
— Por essas e outras, é que nunca fiz semelhante asneira. Para peso, basta a granadeira e a mochila.
— Deixe lá... Sempre é bom ter quem pregue botões na farda, engome as calças, a tempo e à hora.
— Se contas com aquela, ficas desabotoado toda a vida. Tome o meu conselho, seu Crapiúna. Quem me avisa, meu amigo é. Deixe a Luzia de mão. Olhe que lhe acontece desgraça, quando menos pensar. Você tem sangue na guelra e o coração perto da goela. Tome cuidado.
— Sei o que hei de fazer, e ando de rédeas tesas. Quando a vejo, ardo por dentro; dá-me vontade de reinar, mas fico quieto e mudo como cascavel de tocaia, esperando a minha vez para dar bote certo. Então nem reza de cigano, nem oração de padre velho a livra de mim. Eu cá sou homem de tenência. Quando viro a cabeça para uma banda, nem o diabo a endireita...
Crapiúna sacou da ilharga uma grande faca, fina e pontiaguda, e pôs-se a cortar um pedaço de fumo mapinguim para fazer um cigarro.
— Que bonita faca! – observou Cabecinha.
— Pasmado verdadeiro. Traspassa uma moeda de dois vinténs – disse Crapiúna, fazendo vibrar com a unha o gume afiado. – Ah! se este ferro falasse!...
— Vamos ali, ao Antônio Benvindo, tomar uma terça?
— Vamos lá, mas só tomo zinebra. — Está feito.
Os dois soldados se dirigiram para a bodega, continuando a conversar.
O sol dardejava, a pino, intensa luz sobre o largo da feira, coalhado de gente. Redemoinhos intermitentes revolviam o pó cálido, que se elevava em espirais, envolvendo retirantes e mercadores em bulcões amarelados e sufocantes.
CAPÍTULO XVI
Desde esse dia, cessaram as visitas de Luzia à cadeia. Teresinha tomou a si, com prazer, a piedosa incumbência de levar comida ao prisioneiro, que a recusou tenazmente.
— Deixe-se de asneiras, seu Alexandre – disse-lhe ela – Isto até parece desfeita. A Luzia não vem afetiva como dantes, porque não pode mais faltar ao serviço; e, agora, que a tia Zefinha vai melhor, não há mais desculpa para estar recebendo a ração sem trabalhar. Poderia vir à tarde, mas você sabe que, depois das quatro horas, não deixam mais falar com os presos.
— Não me iludo – respondeu-lhe o moço, em tom de funda tristeza – Luzia desconfiou de mim. Acreditou, talvez, na história da Gabrina, ou supõe que tenho alguma coisa com aquela grande mal-agradecida.
— Não suponha que ela esteja amuada... Qual o quê!... Aquela não se afoga em poucas águas, e a prova é que continua a fazer o possível para obter a sua soltura...
— Sei; mas somente para mostrar agradecimento e não por merecimento meu. Sinto que está tudo acabado entre nós. Luzia é decidida, e bem percebi que não tinha mais nada que esperar quando me disse, francamente, aí, nesse lugar em que você está agora: - quando for solto, cada um de nós tomará o seu rumo.
— Mas, por isso, não deve recusar o de-comer, que ela mesma preparou com tanto gosto.
— Não há mais razão para repartir comigo a porção, que mal chega para ela e a mãe.
— Pensei que só nós, mulheres, éramos caprichosas.
Desenganada de vencer a formal recusa de Alexandre, Teresinha distribuiu a comida pelos meninos, que estavam ali de visita aos pais presos, generosidade que lhe valeu agradecimentos de uns e, de outros.
Luzia voltara, com efeito, a trabalhar na penitenciária do morro do Curral do Açougue.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.