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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

Rosalina lá estava resplandecente, como alvo brilhante de todos aqueles faustos e grandezas; via-se cercada de aduladores, que a crivavam de galanteios e lisonjas; e assim festejada, querida, requestada, adulada, tinha-se ela por feliz no meio desse círculo de ferro dourado, que o dinheiro traça incomodo na sociedade.

A festa crescia e redobrava de entusiasmo com o progredir tenebroso da noite; regorjeavam frenéticos os instrumentos; pulsava doido o sangue com o ansiar nervoso da valsa; a embriaguez familiarizara-se e gritava a bel-prazer, rindo a desvergonhada, com a boca aberta e o gesto descomposto.

CAPÍTULO X

Todavia, enquanto tão ruidosamente crepitava o baile, Miguel, ignorado e só, nos fundos trevosos do jardim, espiava afoitamente a turbulência da festa, escondido como um réptil nos grutescos de uma fonte artificial.

Quem de perto pudesse lhe observar a figura, notar-lhe-ia no olhar desvairado e redondo, um impaciência feliz, um raio de sinistro contentamento, que lhe iluminava a fisionomia com o mesmo luzir fúnebre da lâmina da guilhotina no rosto do condenado.

Subitamente, o escondido endireitou-se, colou cuidadosamente o ouvido à parede e pôs-se a escutar silenciosamente, sentiu passos.

Era alguém que, fugindo à agitação das salas, procurava refugiar-se no jardim e descansar o seu aborrecimento, sozinho e tranqüilo nos bancos de pedra, que pitorescamente guarneciam um aprazível chafariz de jaspe.

Miguel viu chegar um vulto e estremeceu reconhecendo-o; os seus olhos reverberavam com mais vermelhidão; os seus lábios semi-abertos sussurraram alguns sons confusos e ásperos, enquanto o recém-chegado, satisfeito de si, esfregava as mãos, saboreando o aspecto festivo e luxuoso do edifício; depois, o vulto sentou-se meditativo no banco de pedra e permaneceu algum tempo de cabeça baixa e gesto concentrado.

Profundo devia ser esse meditar que não dava de perceber os passos abafados de Miguel, que, como uma pantera, se encaminhava das sombras da gruta para ele, sem lhe arredar de cima os olhos ardentes e raiados.

O artista, ao chegar às costas do velho, estacou e entrou consigo a contemplá-lo em atencioso silêncio, indicando, com um movimento afirmativo de cabeça, o bom resultado de suas observações; alguns segundos depois, chegou-se mais dele e de rijo tocou-lhe com a mão no ombro.

O vulto voltou-se de súbito e, encarando o rosto transformado do artista, desviava vagarosamente o seu, aterrado pela fixidez sinistra dos olhos cavos e luzentes, que pareciam querer devorá-lo; Miguel inclinou-se para ele a rir-se surdamente, com esse rir que exprime o contentamento da vingança que se vai fartar, o rir do faminto que depois de longa viagem descobre o que comer.

O vulto, segurando-se com a mão fria na pedra ainda mais fria do banco, continuava a retrair-se, como atacado de cólicas horríveis; torpor aviltante corria-lhe pelos membros frouxos e enervados e transpirava-lhe no gesto suarento o medo com todas as suas cores mais vergonhosas.

Contemplavam-se os dois, trêmulos... um de raiva, o outro de medo.

CAPÍTULO XI

O que tremia de medo era Maffei.

O conforto da riqueza e o roçar áspero dos anos poiram-lhe o vigor primitivo; o remorso, colaborando nessa obra de destruição, acaba por extinguir-lhe a força moral, que dantes lhe luzia feroz no olhar. Sentia-se apequenado em presença de Miguel a quem tinha por morto.

O vulto transformado da sua vítima, que já em sonhos o houvera perseguido, aparecia-lhe agora, real, palpável, como se fora a própria imagem do remorso; afigurava-se-lhe Miguel salvo naquele instante, saindo do mar; parecia-lhe até ver a umidade do cabelo e sentir-lhe o cheiro de sangue.

O olhar fixo e desvairado do moço refletia-se-lhe na consciência, como uma luz condenatória e daí persistia a fitá-lo; o sorrir cadavérico de Miguel derramava-se como um filtro de ironias pelos membros lassos do velho e o fazia estremecer; era um sorrir trágico de caveira a fitá-lo com os dentes ameaçadores e ferozes.

A imobilidade do moço impunha ao outro a mesma imobilidade, e no entanto a arrogância daquele não incutia neste o mesmo sentimento; Maffei, ao contrário, cada vez mais se desapercebia de ânimo e forças.

Enquanto isto sucedia no jardim, o baile continuava a folgar indiferente.

Miguel, afinal, chegando à cara pálida de Maffei a boca arreganhada, rebentou medonha e cavernosamente:

— Velho amaldiçoado! mau! ambicioso! és o único obstáculo de minha ventura! és a minha asa negra! o meu pesadelo! a minha raiva! a minha desgraça! o meu ódio! o meu mal! o meu crime! Queres, bruto, regenerar-te? queres por uma vez abaixar este braço, que a tua maldade levantou sobre a tua cabeça, velho estúpido?! dá-me a mão de tua filha. Já! Peço-ta de joelhos, cão! Responde!... Queres?!...

Maffei estremeceu como se fora acordado de um sonho mau por uma chuva de pedras. As palavras de Miguel despertaram-no, chamando-lhe o sangue à cabeça com o efeito de um aluvião desencontrada de bofetadas, voltou a si e fez um movimento para erguer-se.

(continua...)

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