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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Haverá coisa mais repugnante e mais estúpida do que esse velho costume de preparar a cama dos noivos? e cobri-la de flores, e cercá-la de obscenos cuidados? E mais: depois de um baile, depois de escandalosas fórmulas e cerimônias, em que entram véus brancos e grinaldas de flores simbólicas e depois da vexatória exposição das duas vítimas a todos os olhares e íntimos juízos dos convidados, conduzir a pobre noiva, toda paramentada, para o quarto que lhes destinam, para o toro do defloramento, no meio de um cerimonial de palavras e gestos, trocados entre madrinhas e padrinhos; e depois — abandoná-la ao noivo, de quem se presume não haja nunca recebido uma carícia sensual; e deixá-los a sós, presos na mesma alcova, forçosamente distraídos do seu desejo, a olharem-se um para o outro, sem ter nenhum o que dizer, que não seja afetado e banal; ela a tremer, intimidada pelo desconhecido e pelo terror do que a espera; ele constrangido e aflito, por sentir-se fora de seus hábitos regulares e longe do seu bem-estar, e tendo de despir-se ali mesmo, defronte de uma virgem, e deitar-se com ela na mesma cama, e, afinal, tomá-la convencionalmente nos braços, enquanto a paciente, com toda a lucidez do seu espírito, entanguida e sarapantada de susto, em vez de pensamento de amor, em vez do apócrifo “Enfin seuls”, só rumina e babuja entredentes esta frase ridícula e medrosa: “É agora!”.

Então, haverá coisa mais repulsiva e mais bárbara do que isto?

Ainda hoje me doem amargamente no coração as angústias que sofri na minha primeira noite de casamento, e juro, não obstante, que amava muito meu marido, e que, muito e muito, o desejei antes, nos meus enganosos sonhos de felicidade. Mas, quando me vi a sós com ele, fechada no mesmo quarto, o meu desejo único foi fugir e pedir socorro.

Toda aquela indecorosa encenação de amor; todo aquele cerimonial de que cercaram o meu tálamo; todo aquele desusado e insociável luxo de que sobrecarregaram o aposento, iluminado por uma lâmpada de vidro azul; e o luxo afetado e espetaculoso da cama, e o luxo intencional de rendas e fitas na camisa que me vestiram, e os calculados perfumes que me puseram no corpo; tudo isso, tudo me sobressaltava e me fazia nervosa. Demais, o ar de Virgílio também me constrangia; ele não tinha nessa ocasião as suas maneiras simples, o seu ar franco e simpático de bom rapaz; estava até esquerdo, desajeitado, procurando disfarçar o seu invencível embaraço.

A verdade é que nos sentíamos corridos e vexados, comparecendo assim, um defronte do outro, naquele isolamento de alcova, mais que os dois criminosos do paraíso, no momento do pecado capital. Prenderam-nos ali dentro, para quê? Para uma coisa inconfessável e ridícula, desde que não era naturalmente provocada pelos transportes da nossa mocidade, posta em jogo pelo amor. Não tínhamos palavras um para o outro. Virgílio, todavia, caiu-me aos pés, beijou-me as mãos e agradeceu-me com bonitos termos — aquela felicidade — que lhe era, afinal, concedida, depois de tanto desejada.

Aquela felicidade! mas eu sentia perfeitamente que tudo isso, afirmado por ele nessa ocasião, não era sincero; dizia-o para dizer alguma coisa, para dar qualquer solução àquela cena difícil; e o que eu lhe respondi foi tão falso como o que ele me mentiu. Se eu lhe pudesse falar com franqueza, se não fosse ofendê-lo confessarlhe a verdade, dir-lhe-ia que, naquele momento, o meu desejo era só, e só, que ele se retirasse da minha presença; dir-lhe-ia que, naquele instante, tudo desejaria, menos fazer a consumação carnal do amor que eu lhe dedicava.

E percebi claramente que Virgílio ia lançar-se nos meus braços, não por impulso do seu amor, aliás forte e verdadeiro, mas porque era essa a sua obrigação de noivo; percebi claramente, e afianço, que, se ele pudesse saltar por cima dessa noite difícil, sem tocar-me no corpo, e acordar no dia seguinte já familiarizado comigo, e já desoprimido do constrangimento que a nós ambos vexava — aceitaria essa graça como um presente do céu. E, no entanto, ia se despindo, afetando um grande empenho em achar-se ao meu lado, na cama...

Pobre de nós! começamos a mentir um para o outro desde o primeiro dia do nosso consórcio!

E eu já não tremia; sentia-me agora revoltada, sentia raiva! contra quem, não sei; mas sentia ódio, sentia cólera. Não que me repugnasse a idéia do primeiro contacto com um homem; não que tanto me apavorasse o segredo nupcial; mas porque não caminhara até ali arrebatada pelas garras do meu desejo; arrastada pelos impulsos do meu sexo, e porque tudo aquilo grosseiramente desrespeitava o meu direito de vontade, rebaixava o meu caráter e ofendia o meu pudor.

A minha noite de núpcias foi, pois, uma noite de sacrifícios, nem só para mim, como sem dúvida para meu marido. Não lhe compensara, decerto, tamanho constrangimento o complicado prazer, que porventura lhe proporcionou o nosso primeiro contacto, no formal desempenho daquele grosseiro enlace.

(continua...)

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