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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

E Gaspar, muito comovido, tirou do fundo de uma gaveta da secretária um estojo, que passou ao filho de Violante.

— Um punhal?! exclamou este ao abri­lo.

Foi de tua mãe e pertenceu igualmente a teus avós. É objeto de família, que tem passado de pais a filhos. Guarde­o como sagrada relíquia daquele anjo que consigo me levou para sempre toda a minha esperança de felicidade.

Gaspar enxugou os olhos e prosseguiu, enquanto o outro examinava o punhal:

— Esse sangue que enferrujou a lâmina, é sangue de tua mãe. Violante matou­se com uma punhalada. Tinha um temperamento de leoa e uma alma de arcanjo; matou­se, porque eu lhe supliquei que não assassinasse meu cunhado Paulo Mostella...

Gabriel ficou pensativo, Gaspar foi buscar um retrato de Violante e colocou­o defronte de ambos.

Houve um grande silêncio, respeitoso e, profundo, como se os dois se preparassem para receber, com aquela visita do passado, uma visita da própria morta. Só se ouvia, além do palpitar da pêndula suspensa da parede, o zumbido das asas de uma mariposa, que gravitava freneticamente em torno do globo aceso.

Afinal, Gaspar, com a voz enfraquecida pela comoção, narrou circunstanciadamente a Gabriel tudo o que sabia a respeito de Violante.

O moço ouvia­o sereno e contrito. No seu bizarro temperamento, a história romântica de sua mãe produzia um conjunto de orgulho e mágoa. Sentia que o seu sangue era ainda o mesmo, vermelho e quente, que tingira a lâmina daquele punhal; compreendeu que em sua alma dormiam também grandes vendavais e tempestades. Ouviu falar da própria raça, sem o mais passageiro vestígio de sobressalto. A sua pálida fronte conservava­se límpida, e seus olhos dormiam no fundo do seu olhar, como dois diamantes esquecidos na areia de um lago cristalino e plácido.

Quando Gaspar terminou, ele abraçou­o com toda a calma, e guardou junto do coração o seu punhal de família.

O relógio marcava meia­noite. Já era tempo de recolherem. E os dois encaminharam­se para os aposentos do coronel.

Mas Gaspar, ao entrar no quarto do pai, estremeceu, assustado pela escuridão e pelo completo silêncio que ali reinavam. Acendeu uma vela e penetrou na alcova; estava vazio o leito.

Possuído de mil receios e cuidados, correu toda a casa. O coronel tinha desaparecido.

— Ah! Já sei! exclamou, sobressaltado por uma idéia. Meu pai foi à casa do comendador! Depressa Corramos a encontrá­lo!

E os dois lançaram­se para fora.

Na rua tomaram um carro e mandaram tocar à disparada para o Caminho Velho de Botafogo, que era onde Moscoso tinha a sua residência na cidade.

As janelas do palacete do comendador mostravam­se iluminadas. Defronte do portão do jardim havia urna enorme fila de carruagens.

O palacete estava em baile.

Enquanto Gaspar e Gabriel confidenciavam tristemente essa noite encerrados no gabinete do médico, fervia o prazer e reinava a alegria em casa do próspero comendador.

As suas salas, regurgitantes de convivas, fremiam ao som da orquestra e ao quente rumor das danças. Por todas elas palpitava o gozo; por todas elas riso, jogos, libações e amor.

Em breve a festa chegava ao seu momento de delírio, a esse momento apogístico do baile em que a alma parece derreter­se na saturação dos vapores do prazer, em que as luzes, os vinhos, os perfumes das toilettes e das flores, o ansioso respirar na vertigem da valsa, se vaporizam pelo ambiente, despertando os sentidos e entontecendo o espírito; instante feliz em que mais deliciosamente gemem os violinos, em que cintilam com mais luz os diamantes e os olhos das mulheres, e os colos arfam, e o corpo cede de todo à volúpia, e o sangue se embriaga e vem até aos lábios reclamando beijos.

— De repente, porém, uma voz rude e áspera, voz de batalha, retumbou pelas salas, bramindo:

Silêncio!

Todos pasmaram. A orquestra emudeceu e os pares estacaram tolhidos de surpresa.

Ao fundo do salão, no meio da inconsciência do prazer, assomara o vulto venerando do coronel.

Seu porte, alto e alquebrado, destacava­se imponente; o longo capote aumentava­lhe a estatura, dando­lhe proporções naturais. O gás mordia­lhe asperamente a aridez da fronte, que faiscava como a ponta calva de um rochedo aos raios do sol; os seus olhos fundos e ardentes, chispavam de cólera, os cabelos, brancos e assanhados, davam­lhe à cabeça um terrível aspecto de loucura.

Todos o olhavam com assombro. As mulheres empalideciam desmaiadas.

O coronel, espectral e imóvel, permanecia ao fundo do salão.

Ninguém se animava a proferir palavra.

O comendador acudiu em sobressalto; mas, ao dar com o veterano, soltou um grito e estacou petrificado defronte daquela fantástica e ameaçadora figura, que o fitava sem pestanejar.

(continua...)

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