Por Franklin Távora (1879)
— Não! O meu coração não está morto! - disse ela de si para si. Por desgraça minha, não posso esquecer-me desse homem, ainda quando a descrença invade a minha alma, como agora, e vejo diante dos olhos o espectro da morte. Ao lado dele, a mocidade me voltaria, e com ela todos os meus sorrisos que se mudaram em lágrimas em companhia do meu cruel marido. Meu Deus, meu Deus, não há maior tormento do que este - sofrer assim, amar assim, sofrer sem tréguas e amar sem tréguas ao mesmo tempo, sofrer daquele a que se aborrece, e amar aquele de quem não se possui senão a efígie querida no seio da fantasia, e cujo nome nem ao menos é lícito proferir de modo que os ouvidos o ouçam!
Maurícia sentou-se a modo de desalentada ao pé do espelho. Após as primeiras, vieram novas lágrimas porventura mais abrasadoras. Dava pena daquela silenciosa aflição.
Uma discórdia entre Faustino e Brígida, cujas vozes, alteando-se gradativamente, vieram ressoar, no ambiente da alcova, arrancou Maurícia da prostração mental em que a tinham deixado os encontrados pensamentos do seu último solilóquio.
Levantando-se, disse:
— Deus há de ajudar-me a levar sem covardia ao Calvário a minha cruz. Façamos de conta uma vez por todas que está para sempre acabado tudo que se passou entre mim e esse homem. Sejamos de ora em diante exclusivamente a mulher casada, escrava de seu dever.
Aproximando-se de uma cadeira para apanhar um lenço que aí deixara, suas vistas caíram casualmente na parte da cama, que ficava do lado da parede. Sobre o alvo lençol, neste ponto não revolvido, viam-se marcas de pés grosseiros, que indicavam pelos traços negros, terem andado em chão imundo.
Maurícia mal pode descobrir esta indigna visão, sem cair ferida de vergonha e dor. Compreendeu toda a infâmia de Bezerra. Diante de tal testemunho de insólita baixeza, nenhuma mulher se conservaria dentro dos limites da discrição. Abriu a porta arrebatadamente e correu para a cozinha. Que ia fazer? Ela mesma não podia saber. A verdade, porém, é que ela estava desvairada. Chegando ali encontrou Faustino.
— Vosmecê vem ralhar comigo, sinhá Dona Maurícia, por eu estar brigando com Brígida? — perguntou o moleque tanto que reconheceu pelo semblante de Maurícia a cólera que lhe ia na alma.
Maurícia nada disse. Não podia falar. Tinha a voz presa por oculta garra.
— Vosmecê me perdoe — continuou o moleque em tom de humildade despeitosa. Eu queria muito bem a essa negra, mas ele me fez ontem uma só me deu a vontade de a matar. Vosmecê sabe que minha senhora prometeu que Brígida havia de casar comigo. Mas de que serviu esta promessa? A negra botou as mangas de fora, e tem andado solta como as bestas do engenho, Ontem de noite, quando eu cheguei do Recife, onde tinha ido de tarde, por mandado de meu senhor, não achei Brígida aqui. A porta do corredor, que vosmecê costuma fechar todas as noites, estava aberta, Há muitos dias que eu andava suspeitando uma coisa muito feira. Por isso, deixei-me ficar na sala. De uma vez, ouvi abrir a porta do gabinete e apontar um vulto branco; fugi para o corredor para esperar por ele, supondo que era Brígida; mas assim que fugi, o vulto foi outra vez meter-se no gabinete. Não pude ter-me e corri até lá a ver se dava com a negra; mas achei a porta trancada. Não pude sair da sala. Estive aí até amanhecer. Quando seu Bezerra abriu a porta da rua e saiu, eu, que estava detrás da porta do corredor, via negra tomar da sala para a cozinha. É por isso que eu estava ralhando com Brígida. — E onde está ela? - perguntou Maurícia
— Fugiu com medo de mim para a casa-grande.
Não havia que duvidar. Os indícios acabavam de ter a mais cabal confirmação. O torpe segredo estava já nos domínios da cozinha. Se houvesse encontrado a negra, Maurícia teria talvez praticado um desatino que não se compadecia com a sua índole e educação; mas, na ausência do objeto do seu ódio, do seu desprezo e da sua vingança, ela não pode suster o pranto. Nunca se vira tão aviltada aos seus olhos.
— Vosmecê não chore, que aquela negra não há de voltar mais aqui - disse o moleque.
— E que tem que ela volte ou não, se já aqui deixou a sua infâmia? — respondeu Maurícia. Não te entristeças, Faustino. Vou contar tudo a D. Carolina, a fim de ver se ela põe cobro à ousadia de Brígida.
— Vosmecê pode contar à minha senhora o que se passou, mas eu nada tenho com isso, porque eu não quero mais saber de Brígida. Ela para mim está cortada.
— Que está dizendo?
— É o que digo a vosmecê. Deus me livre de casar com uma negra tão ruim. Não faltam negras boas no engenho de meu senhor. Eu para mim não a quero nem de graça.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.