Por Franklin Távora (1876)
Em menos de um instante acharam-se montados no cavalo que o bandido pôs a galope em direitura ao rio.
Para onde vamos nós ? — perguntou Luísa, agarrando-se, sobressaltada, ao destemido matador.
— Aonde me leva você, José ?
— Não fale, Luisinha, não fale, que pelas suas palavras podem vir sobre nós.
Nesse momento a detonação de alguns tiros e as vozes de um clarim, pregoeiro de não sei que operação militar, indicaram que a força tinha dado com os bandidos, e que qualquer aviso para que fugissem seria inútil.
— É tarde — disse o Cabeleira. — Já não é possível a salvação. Mas hão de Ter-me ao pé de si na sua derradeira — exclamou, saltando do cavalo abaixo e dando mostras de querer correr ao lugar do perigo.
— Cabeleira ! — exclamou Luísa penetrada de terror. — Você terá animo de desamparar-me neste deserto ? Não, não há de fazer isso comigo. Veja que eu sou hoje só no mundo.
O bandido parou incontinente. Estas palavras foram grilhões que o prenderam aos pôs da adolescente.
— Tem razão, Luisinha.
— Fujamos sem perda de tempo — acrescentou ela.
Nesse momento uma das escoltas saía da mata.
Grande vitória tinha sido ganha pelas armas reais contra os destruidores da propriedade, honra e vida de inofensivas povoações.
Inúmeras partidas militares já tinham sido expedidas contra os malfeitores sem resultado.
Pouco depois do canibalismo perpetrado no primeiro domingo de dezembro de 1773 na ponte do Recife, o governador Manuel da Cunha de Meneses fizera seguir contra eles uma força considerável.
Esta força chegou a Afogados alguns minutos depois da retirada dos autores da desordem; e daí não passou, por não ter sido possível, apesar das mais minuciosas indagações, saber o rumo que haviam tomado os criminosos.
O Timóteo, cuja taverna foi varejada, declarou unicamente que eles tinham de feito estanciado aí, mas que se haviam retirado sem lhe dizerem para onde. Não houve promessas nem ameaças bastantes a obter dele declaração mais formal e menos lacônica do que esta.
Tempos depois novas partidas foram mandadas a ver se conseguia o fim desejado.
Tanto a que seguiu ao norte, como a que seguiu ao sul, bateram matos, atravessaram rios cheios, empregaram enfim os maiores esforços inutilmente. Em mais de um lugar, ou de um pouso encontraram vestígios da recente passagem dos bandidos, ou da sua ação destruidora e fatal, mas nunca lhes foi possível dar com os três personagem, tipos legendários que todos conheciam pelos seus tristes feitos, que todos tinham visto, a quem quase todos tinham pago pesado tributo, mas que iludiam a vigilância e zombavam dos esforços de todos, sem exceção do poder público. Nuvem miraculosa envolvia-os, ocultava-os, aos olhos da justiça e da lei, que tem em toda parte vistas penetrantes e perscrutadoras a que ninguém se encobre por muito tempo. Nos seus tenebrosos antros saboreavam o corrosivo prazer que proporciona o roubo e a impunidade. Esta animava-os à prática de novos crimes, e expunha ao público descrédito à administração menos digna de temer-se, ao parecer deles, do que o particular que muitas vezes resistia, defendendo a sua propriedade, e na defesa e resistência os feria, embora tivesse de cair aos golpes descarregados por eles com tal firmeza, que nunca deixou de ser fatal.
Cunha de Meneses, convicto da ineficácia dos seus esforços contra os quais se levantava, além da audácia e cinismo dos malfeitores, um tríplice embaraço que mais do que estes contrastava aqueles esforços — a falta de população, de tropas e de estradas — , embaraço que era favorecido indiretamente pela indiferença dos mais fortes, e diretamente pelo temor da maior parte dos moradores, renunciou ao empenho, que por muito tempo alimentou de reivindicar os foros da administração assim afrontados diária e ostensivamente pelos sobreditos malfeitores.
Com esta mudança de resolução coincidiu a sua promoção ao lugar de governador da Bahia. Em 31 de agosto de 1774 entregava ele a José César de Meneses, a quem já nos referimos, as rédeas do governo de Pernambuco, então, como ainda hoje, difíceis de sopesar.
José César teve de voltar a sua atenção para a guerra com a Espanha; e quatro meses depois de haver tomado conta do governo, fez partir para a Colônia do Sacramento, então novamente no poder dos espanhóis, bem como os fortes brasileiros de S. Miguel, Santa Teresa e S. Pedro do Rio Grande do Sul, um regimento de infantaria.
Em 1776 tinham seguido do Recife para aquela colônia cerca de 1100 pernambucanos.
A guerra seguiu-se a peste, e à peste a fome como vimos.
Quando se achava assim a braços com este tríplice flagelo, teve ciência de que diferentes ambulâncias que, em parte às custas do régio erário, e em parte às custas dos negociantes mais ricos da vila haviam sido expedidas por ordem sua para os pontos onde o mal se manifestava com maior intensidade, tinham caído nas mãos dos salteadores.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.