Por Bernardo Guimarães (1872)
Entretanto, a ausência, o decurso dos anos, a falta absoluta de relações e mesmo de notícias da mulher amada eram circunstâncias que não podiam deixar de influir poderosamente em desvantagem da paixão profana, que insensivelmente se ia arrefecendo como lâmpada velada, que se consome a si mesma e fenece à míngua de alimento. Outro tanto não acontecia ao misticismo, que alimentado por contínuas práticas de devoção, exaltado por eloqüentes e calorosas exortações e conselhos, cada dia ia ganhando terreno, e contava com todos os elementos da vitória.
Duas circunstâncias vieram contribuir poderosamente para acelerar o triunfo das idéias teocráticas e fazer paliar a estrela do amor no horizonte da vida do mancebo.
Era um domingo. Celebrava-se missa solene por ocasião de uma festividade da igreja.
Por esse tempo o padre missionário Jerônimo Gonçalves de Macedo, o digno e venerável companheiro de Viçosa e de Leandro, achava-se em Congonhas do Campo de passagem para o sertão da Farinha Podre, onde por sua grande ilustração e virtudes apostólicas era chamado para lançar as bases de um novo colégio na extremidade ocidental da província de Minas — o seminário de Campo Belo.
Jerônimo foi convidado a pregar o sermão desse dia.
Possuía ele em alto grau os mais eminentes predicados de orador sagrado. A uma bela e imponente figura, a um acionado largo e majestoso, a uma voz cheia, vibrante e sonora reunia a palavra ardente e repassada de unção, a eloqüência que se inspira em sua verdadeira fonte, na abundância do coração. O rico e formoso templo do Bom Jesus regurgitava de povo que acudira ansioso para ouvir a palavra do santo e eloqüente missionário.
Quando assomou no púlpito aquela nobre e veneranda figura, aquele busto, cujas linhas corretas e harmoniosas podiam servir de modelo ao escultor de gosto o mais severo para a imagem de um santo, possuído de respeito e admiração, cuidaríeis ver surgir do interior do templo o vulto do santo seu homônimo, do austero cenobita dos desertos da Calcida.
Era uma santa virgem e mártir que a igreja comemorava nesse dia. O elogio da castidade formou naturalmente o tema principal do sermão.
O orador depois de ter feito um brilhante panegírico da vida da santa, passou no epílogo a fulminar com os raios de sua eloqüência a moleza, o apetite sensual e os desvarios das paixões mundanas, e divinizou a castidade — a mais excelsa entre todas as virtudes, esse lírio puro e peregrino, cuja fragrância é mais grata ao Senhor do que os cânticos dos anjos, e do que todo o incenso que se queima em seus altares.
Para dar maior realce ao painel, traçou com mão de mestre uma viva pintura da sedução de Eva tentada pela serpente no paraíso.
— A concupiscência — dizia ele — é a serpente, que destila dos lábios enganosos o veneno que nos dá morte à alma e nos faz perder para sempre as delicias da celeste Jerusalém. Feliz aquele que? como a virgem mártir cujas virtudes hoje a igreja comemora, pode esmagar aos pés a cabeça da serpente maldita, e exclamar triunfante, enquanto ela se estorce moribunda no chão — "Afasta-te, Satanás!..."
Inspirando-se nas páginas ardentes e sublimes do santo de seu nome, exclamava com ele:
"Soldado efeminado, que fazes tu sentado à sombra do lar paterno? tu repousas, e a trombeta divina enche o espaço dos seus clangores! O divino combatente aparece sobre as nuvens; uma espada de dois gumes sai de sua boca. Ele corre, derriba e despedaça; e tu não queres deixar o teu leito pelo campo de batalha, a escuridão em que jazes pelo esplendor do sol! levanta-te! a coragem te dará força."
"Visses embora teu pai, tua mãe ou tua amante atravessada à soleira de tua porta para impedir-te a passagem, passa sem derramar lágrimas; passa, tu és soldado; lá está o teu estandarte; é a cruz!
"Deserto esmaltado de flores de Cristo!... solidão, onde se engendram as pedras de que é construída a Sion celestial! santos eremitérios, em que se conversa familiarmente com Deus, infeliz daquele que vos desconhece, e mais infeliz ainda aquele que, vos conhecendo, vos foge e vos evita!"
Fazendo aquela, viva e eloqüente apologia da vida casta e solitária, Jerônimo procedia por pedido especial e recomendação de seus colegas de Congonhas, que o tinham inteirado da situação de Eugênio, e assim todas aquelas calorosas e veementes apóstrofes iam com direção calculada ao espírito do mancebo, o qual sem nada suspeitar as escutava absorto, e sentia a palavra santa penetrar-lhe como lâmina ardente até o âmago do coração.
A pintura da serpente rastejando aos pés de Eva no paraíso para seduzi-la e arrastá-la à perdição, fez a mais viva impressão, e trouxe-lhe à memória a aventura da infância de Margarida, enleada e afagada por uma cobra, aventura que tão funesta apreensão deixara no espírito de sua mãe. Encontrando a mais exata e palpitante analogia entre o episódio do Gênesis, e aquele incidente de sua infância, Eugênio estremeceu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.