Por José de Alencar (1875)
— Eu, menina, não sabia o que fizesse de contente e ao mesmo tempo acanhada que fiquei, vendo todos os olhos fitos em mim. Foi minha tia D. Catarina, que recebendo o listão o passou pelo meu ombro, com o que redobraram os aplausos à proeza do desconhecido. E acabou-se a história; que eu não vi mais nada, nem dei por mim dêsse momento em diante até que tornámos à casa.
— E o desconhecido?
— Ouví depois que desaparecera assim como viera, de repente, antes que o pudessem descobrir; e não se soube mais dele.
— Mas você não desconfiou quem seria? Pois pelo modo parece que era pessoa conhecida.
— Quem podia ser, menina? E como havia eu de suspeitar?
— Pela voz. Êle não lhe falou?
— Três palavras.
— Pelo jeito do corpo, e modo por que montava a cavalo. Não reparou?
— Naquele instante, entretida como estava com a festa, não me lembrava de mais nada.
Alina calou-se um instante sob a preocupação da idéia que lhe acudira ao espírito, e depois inclinou-se para falar à companheira com a voz submissa e tímida expressão.
— Não se parecia com Arnaldo?
— Quem, Alina? O embuçado?
Alina confirmou com um gesto.
— Que lembrança! tornou D. Flor com surpresa.
— É porque você não sabe que Arnaldo desapareceu da fazenda no mesmo dia em que o senhor capitão-mór partiu.
— Sei, que já me contou mamãe Justa. Arnaldo foi à Serra Grande atrás de uns barbatões.
— Isto é o que êle diz.
— Mas, menina, que razão tinha êle para esconder-se?
— Não sei, Flor, respondeu Alina esquivamente.
A filha do capitão-mór não insistiu, e divagando os olhos pela floresta, ficou pensativa,
enquanto Alina inclinando a fronte absorvia-se também de seu lado em íntimas reflexões.
XVI – O vizinho
Um tropel de animais que ressoou perto de casa tirou as duas meninas de sua distração.
Ambas, impelidas por igual movimento de curiosidade, debruçaram-se à janela e retrairemse tomadas de surpresa pelo que viram.
Luzida quadrilha de cavaleiros acompanhados de seus pagens acabava de parar no terreiro. Eram todos mancebos, bem parecidos e trajados com o apuro e gala que então usavam, ainda mesmo no sertão, as pessoas de grandes posses.
O Agrela, que fôra prevenido da aproximação dos forasteiros desde que de longe os tinham avistado, saíra a recebê-los.
— Olhe, Alina, aquele mais alto, que tem a casaca de sêda açafroada. Sabe quem é?
— O Fragosos, de quem você falava pouco há?
— Êle mesmo.
— É um galante fidalgo.
Nesse momento o mancebo avistando as moças fez com o chapéu profunda saudação a D. Flor, que respondeu confusa e recolhendo-se da janela.
— Que virá êle fazer à Oiticica? perguntou ingenuamente a filha do fazendeiro à sua camarada.
— Não adivinha, Flor? disse Alina sorrindo.
— Eu não, menina.
— Dí-lo a cantiga.
Saudades que me deixaste,
Saudades me levarão.
Aonde foram-se os olhos,
Vai após meu coração.
D. Flor ouvindo a copla que Alina cantarolou à meia voz com ar malicioso, correu a ela para fazer-lhe cócegas, e retribuindo-lhe a amiga, desataram ambas a rir da mútua travessura.
Entretanto o capitão-mór Campelo, saindo ao patamar, convidava os hóspedes a entrarem. Adiantou-se o mancebo, que vestia casaca de sêda côr de açafrão, e saudou o fazendeiro com estas palavras:
— O capitão Marcos Fragoso, de jornada para sua fazenda do Bargado com êrstes amigos que lhe fizeram o obséquio de sua companhia, não podia, passando a primeira vez pela Oiticica, faltar à cortesia de saudar o sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, como vizinho, e ainda mais como filho de um velho amigo seu, o coronel Fragoso.
— O capitão Marcos Fragoso e seus amigos serão sempre bem vindos à nossa casa, e nos darão prazer se quiserem receber o agasalho que lhe oferecemos de boa vontade.
— Era nossa intenção pedí-lo, para refrescar da calma; epois do que seguiremos para o Bargado, onde já deve estar a nossa comitiva, da qual nos separámos pouco há na encruzilhada.
Entrados na sala, o Marcos Fragosodesignou ao capitão-mór seus amigos cada um por seu nome e indicações:
— Êste amigo é o capitão João Correia, do têrço do Recife; estoutro é o licenciado Manuel da Ailva Ourém, de Lisboa, que veio visitar e conhecer nossos sertões; aquele é o alferes Daniel Ferro, filho do dono das Flechas nos Inhamuns, ambos meus parentes e vizinhos.
— Estão todos em sua casa, disse o capitão-mór, convidando-os a sentarem-se.
Depois de alguns cumprimentos dos recém-chegados e encarecimentos das excelências,
granjeio das terras e boa casaria, o capitão-mór disse, retribuindo a cortesia:
— Vão os senhores ver também a fazenda do Bargado que é das mais belas dêste Quixeramobim. No tempo em que alí morava o finado coronel Fragoso, poucos podiam competir com ela; mas depois que êle morreu tem estado ao desamparo. O sr. capitão Marcos não quis ser nosso vizinho como foi seu pai; os mancebos gostam mais da praça; não há que estranhar.
— Costumo demorar-me no Recife, é certo, senhor capitão-mór; mas tenho minha casa nas Araras, onde fico mais perto de meus parentes, que são todos de Inhamuns. Meu pai gostava mais do Bargado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.