Por José de Alencar (1870)
Amélia compreendera que tudo acabara entre Horácio e ela. Desde o dia do jantar receara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança. Naquela noite a esperança murchara, se não foi ela própria, Amélia, quem a desfolhara.
Agora na calada da noite, em sua alcova que lhe parecia um ermo, ela tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma sentia-se como que asfixiada pelo silêncio e pela treva que a submergiam.
CAPÍTULO XVII
Como dissera a Amélia, na sua última visita, Horácio não tinha perdido a esperança de encontrar o que ele chamava a realidade de seu amor: o pezinho gentil e mimoso do qual ele possuía a botina.
Iludira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar.
Tal era o pensamento que preocupava o leão, recostado naquela mesma poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos de fumaça do puro havana, rasteava nas espirais diáfanas a imagem confusa de seus pensamentos.
Tinham decorrido três dias depois do seu rompimento com Amélia. Logo na seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça, escreveu uma carta ao Sales, manifestando seu receio de que a antipatia de gênios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente desejavam.
O negociante mostrou a carta à filha, que lhe disse com um sorriso forçado:
— Ele tem razão!
A carta de Horácio teve resposta no mesmo dia. O Sales encontrando-o na Rua do Ouvidor recusou-lhe o cumprimento.
O leão, satisfeito com esse pronto desenlace que evitava longas explicações, achou-se a poucos passos de distância em frente de Leopoldo.
— Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão. Sempre que nos encontramos, ou está para acontecer ou já tem acontecido alguma coisa de bom para mim.
— Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma espécie de astro propício, sob cuja influência nasceste.
— Queres ver? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.
— Ah! e sob o meu influxo benéfico?
— Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos os sacrifícios até o do casamento para possuir aquele pezinho!...
— Lembro-me.
— O único obstáculo era uma espécie de promessa ou arranjo de família. Felizmente a menina, a tal Amélia, compreendeu que perdia seu tempo, e arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto; escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo ele me acaba de responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sai do colégio.
— Neste caso dou-te meus parabéns.
— E tu como vais com o sorriso?
— Sem novidade.
— Dize-me uma coisa, no dia em que a viste pela primeira vez, ela estava só ou com outra moça? Faço-te esta pergunta porque foi na Rua da Quitanda e quase pelo mesmo tempo que eu achei a botina.
— Eram duas, respondeu Leopoldo sorrindo.
— Em uma vitória?
— Sim.
— A outra era mais baixa?
— Não afirmo. — Adeus.
O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua conversa com Amélia perto do bastidor e no dia do jantar, começou a combiná-las com as informações de Leopoldo e com as circunstâncias do encontro no Passeio Público, onde vira o sinal impresso na areia pelo mimoso pezinho.
Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as suas reflexões, e chegava a este resultado:
— Decididamente o pezinho é de uma moça que ia com Amélia, no dia em que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no Passeio Público. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura. Aquele pudor feroz era um indício infalível. Amélia procurava imitá-lo por motivo bem diverso: mas não o conseguiu.
O moço chegou-se à banquinha onde estava o cofre de pau-rosa e contemplou a botina.
À noite, o leão foi a uma partida. Sua estrela o favorecia. Laura lá estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ela a princípio recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez.
Horácio compreendia a razão do procedimento da moça. Para tranqüilizá-la, teve o cuidado de nunca abaixar a vista à fímbria do vestido, e mostrar-se enlevado pelo colo gracioso da gentil senhora. A lição que recebera anteriormente, o tornou de uma prudência consumada.
No fim da noite o leão conseguira restabelecer a confiança no espírito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela cena do teatro. Era o essencial; com os meios de sedução de que dispunha, e a inclinação que a moça revelava por ele, contava certa a conquista. A questão era de tempo.
Antes de quinze dias freqüentava a casa da moça e estava na intimidade da família.
Laura perdera o marido aos 17 anos, pouco tempo depois de casada. Era rica; não lhe faltavam pretendentes atraídos pelo dote e pela beleza; mas ela não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade conjugal, embora não tivesse passado da lua-de-mel. É natural que o desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando os apaixonados que a cercavam.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.