Por Lima Barreto (1922)
A aula de jornalismo (venda ambulante das gazetas) ia ser instalada em frente do popularíssimo quotidiano de lá — Bosomsy-Gazetto; e tencionavam os fundadores da Academia realizá-lo de madrugada, admitindo um número restricto de alunos, sendo-lhe exigida a apresentação de atestados valiosos de que sabiam tomar bondes em movimento.
Os cocheiros de bondes (ainda eram de tracção animal), os respectivos recebedores e os baleiros eram pessoas idôneas para passar o atestado.
A aula de "frege" cuja sede seria uma espécie de Largo da Sé de lá, ficará dividida em duas partes: cantata da lista e encomenda de pratos à cozinha.
Os discípulos serão obrigados a repetir em coro e na toada de uso, todo um pantagruélico e imaginário menu: "seca desfiada, caldo à portuguesa, arroz com repolho, feijoada Camões, tripas à portuense, bifes à Itália", etc., etc...
O lente, um exemplar de homem assim como um gordo proprietário de casa de pasto da Rua da Misericórdia, sentado a uma mesinha, coberta com uma toalha eloqüentemente imunda, dirá subitamente a um dos alunos:
— Traga-me um arroz e um bacalhau, "Seu" Manuel.
O discípulo correrá até ao fundo da sala e, com a voz clássica do ofício, gritará para a fantástica cozinha:
— Salta um "chim" e um bacalhau.
O tirocínio acadêmico durará um ano, conferindo o título de bacharel em lista cantada e dando direito ao uso de um anel simbólico.
Afora estes, haverá o curso de barbeiro, de botequim, de compra de ferro velho, e outros. O mais difícil, porém, há de ser o de armarinho, cujas aulas funcionarão em uma rua principal da cidade, em uma rua como a nossa do Ouvidor, e terão lugar em grandes salas, guarnecidas de assentos em anfiteatro, como nas grandes escolas superiores.
Alguma dama facilmente adaptável figurará como freguesa atendida, pelo professor, que perpetrará os lânguidos olhares de uso nesse tráfico, ajudando-a na escolha das fazendas, cortando o padrão com elegância e dizendo as frases amáveis, espirituosas e adequadas a tão alto comércio: "em si, toda a fazenda vai bem; quem quer cassa, caça", etc., etc.
Durará dous anos este curso e conferirá, ao aluno que o terminar, o grau de doutor em artigos de armarinho e boas maneiras.
Semanalmente, haverá duas aulas gerais, cuja freqüência será obrigatória aos alunos de todas as aulas; a de dança e a de coisas de carnaval.
Eis aí como, em linhas gerais, iria ser, conforme me disseram, a Academia Comercial da Bruzundanga.
CAPÍTULO XVIII
A RELIGIÃO
Segundo afirmam os compêndios de geografia do país, tanto os nacionais como os estrangeiros, a religião dominante é a católica apostólica romana; entretanto, é de admirar que, sendo assim, a sua população, atualmente já considerável, não seja capaz de fornecer os sacerdotes, quer regulares, quer seculares, exigidos pelas necessidades do seu culto.
Há muitas igrejas e muitos conventos de frades e monjas que, em geral, são estrangeiros.
Não há mais que dizer sobre tão relevante assunto.
CAPÍTULO XIX
Q. E. D.
Animado pela alta e dignificadora curiosidade de estudar o mecanismo administrativo da República da Bruzundanga, voltei, em certa ocasião, as minhas vistas para o exame das funções, de secretário de Ministro, cujas responsabilidades sempre me disseram ser grandes e que, de longe, parece ser de importância transcendente. Dou aqui o resultado parcial dos meus estudos, observando-lhe o serviço sobre-humano, e por demais intelectual, nas passagens mais características do exercício do seu cargo.
O secretário, como verão, é um funcionário indispensável ao complexo funcionamento do aparelho governamental da Bruzundanga. Imaginem só o seguinte caso que prova a contento do mais exigente o que afirmo.
Um dia, ao gabinete de um tal Ministro da Bruzundanga, foi ter um industrial, pedindo-lhe que fosse visitar a sua fábrica que estava inaugurando uma nova indústria no país.
Ficava longe, cinco léguas de Bosomsy; e, para se ir ter lá, era preciso tomar a barca muito cedo, muito mesmo, às seis horas, ou antes, da manhã.
O ministro tinha já concordado em ir, quando, da sua mesa respeitosamente pequena, o secretário ergueu-se e lembrou:
— Vossa Excelência não pode apanhar o orvalho da manhã.
— Homem, é verdade! fez o ministro.
Se não fosse a memória pronta do secretário e a sua dedicação à causa pública quantas ocorrências graves não iriam perturbar a marcha das cousas governamentais, se o ministro, com a imprudência que ia fazer, apanhasse um resfriado qualquer? Quantas? Um defluxo, papéis atrasados, terremotos, pestes, inundações, etc.
Graças a Deus, porém, a gente da Bruzundanga inventou o ofício de secretário de Ministro que é capaz, a tempo, de evitar tantas desgraças...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.