Por Adolfo Caminha (1896)
E emendou logo:
— Vamos fazer umas compras
— Ah!... Está muito bem, está muito bem.
— O Sr. Visconde já veio de Petrópolis.
— Sim, excelentíssima; Petrópolis está deserto... Desde que a família imperial mudou-se para a Tijuca que Petrópolis está deserto. O imperador embarca definitivamente na próxima semana.
— Para a Europa? — Exatamente.
E, com um ar compungido, o visconde acrescentou:
— Pobre velho! Vossa excelência não o conhece...
— Por que, Sr. Visconde?
— Porque... porque reputo gravíssimo o seu estado...
Adelaide prestava atenção à conversa, olhando o banqueiro, medindo-o de alto a baixo, examinando-o.
— Que está dizendo?
— Gravíssimo... E comigo pensam os doutores da ciência.
— Pobre velho! — repetiu D. Branca sensibilizada. — Eu imagino a imperatriz...
— A imperatriz não o abandona; segue também.
— Coitada! E os príncipes?
—Os príncipes ficam em companhia da princesa. Pelo menos é o que se diz...
— Um homem tão forte, um hércules! - exclamou a esposa do secretário.
— As aparências iludem, minha senhora, e a morte é traiçoeira. Andam, então, fazendo compras?...
— Fazendo umas comprinhas...
— Bem, não as quero importunar.
E o Santa Quitéria descobriu-se, apertando, com uma delícia enorme, a mão enluvada e fina de D. Branca.
— Recomende-me ao nosso Furtado... — Agradecida.
Oh, como ela desejaria prolongar aquele tête-à-tête, aquele doce encontro!...
Mas o movimento era grande na Rua Direita, e não menos grande a língua do povo. O banqueiro afastou-se, num gracioso ademane, e elas, depois de ligeira hesitação, voltaram pela Rua do Ouvidor.
Novos ditos, novas exclamações.
De um grupo, à porta de uma confeitaria, saíam estas palavras:
— As mesmas! as mesmas!
E uma chusma de olhares cobiçosos assaltou-as.
Entraram numa grande loja de fazendas, trocaram algumas palavras com o caixeiro, moço amável que trazia sempre a ponta do lenço fora do bolso do paletó, e — obrigada, heim, muito obrigada!... - saíram.
Foi então que o bacharel bispou-as, quando ele e o secretário voltavam do Largo de São Francisco, e os dois casais resolveram-se a tomar qualquer coisa no
Pascoal.
A presença de Adelaide àquela hora na Rua do Ouvidor significava, para Evaristo, uma desconsideração, aos seus hábitos e às suas normas — um desvio da esposa, uma quebra de respeitos ... Sempre a conhecera tímida, obediente às suas prescrições e inimiga de se apresentar onde ele não estivesse, e agora via-a na rua mais pública do Rio de Janeiro, em grande toilette, como uma senhora habituada ao luxo e à publicidade, que não receia o eco das más-línguas, nem a audácia dos ociosos! É certo que ia pelo braço de D. Branca, mas a esposa de Furtado... a esposa de Furtado... a Sra. D. Branca... E enquanto caminhava para o Pascoal, Evaristo, silencioso ao lado da mulher, como que se empenhava na resolução de problema difícil. Adelaide merecia-lhe toda a confiança, mas, positivamente, já não era a mesma Adelaide. Vir à cidade sem lhe dizer, sem o prevenir?... Não, já não era a mesma...
E enquanto durou o lanche, enquanto estiveram na confeitaria debicando empadas e sanduíches — o bacharel manteve-se casmurro a torcer o bigode, a olhar os que entravam e os que saíam, mais filósofo que nunca, a alma vibrando numa indignação muda e tenebrosa.
Adelaide compreendeu que o havia desgostado e cruzou o talher.
D. Branca e Furtado entreolharam-se com admiração. Era a primeira vez que os viam amuados.
CAPÍTULO VI
Ia enfim realizar-se a misteriosa e pranteada viagem do imperador. Na eterna alegria do sol, que amanhecera esplendidamente luminoso, flutuavam preces ao bom Deus pelo pronto regresso do monarca. Suspiros de saudade, louvores à boca pequena, exclamações de inconsolável tristeza erguiam-se nas ruas da cidade, formando uma atmosfera de vagas melancolias, um como ambiente glacial de apreensões sinistras que a luz triunfal do sol não espancava. Ia ficar deserta a Quinta de São Cristóvão e o Brasil sem o imperador, o Brasil sem o Sr. D. Pedro II era como Um país abandonado à aventura dos selvagens... Oh, o homem extraordinário que antes de ser homem era rei! que tristeza para o povo, que desolação para a Corte! Ninguém queria acreditar naquela viagem lúgubre como a própria morte...
No entanto, chegava a hora do embarque. Apresentavam-se as carruagens; não havia tempo a perder.
Às seis horas da manhã o desembargador Lousada e a mulher, em berlinda especial, abalaram para a Tijuca. A ilustre dama de Sua Majestade, a imperatriz, ia chorosa, com o lenço nos olhos, quase muda na sua toilette de seda marrom. O visconde de Santa Quitéria, amigo particular do imperador, não quis deixar de cumprir o religioso dever que lhe impunham a amizade e a gratidão: lá foi também corretamente encasacado, de luvas pretas. E outros e outros personagens de etiqueta levaram a sua homenagem aos augustos viajantes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.