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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

— Se vier, é a mesma cousa. Ninguém morre de careta. Diz-se-lhe que os engenheiros proibiram morar no sótão; que o teto ameaça desabar.... Inventa-se...

E os objetos de Aleixo, somente os dele, foram colocados na alcova da portuguesa, embaixo, no primeiro andar. De então em diante passaram a dormir juntos, como um casal, na mesma cama larga. E ninguém pisou mais no sotãozinho, agora transformado em depósito de móveis inúteis, coberto de pó, abrigo de insetos, ninho de ratos.

Há quase um mês que isso durava, e, longe de se aborrecer, Aleixo sentia, pelo contrário, uma inabalável e profunda afeição por D. Carolina, exigindo até que ela não recebesse mais o barbaças do açougue. Queria-a para si, unicamente para si, ou estava tudo acabado!

Ela procurou convencê-lo que o sujeito, o Man’el, era um tipão “necessário”, porque lhe dava mesada, pagava o aluguel do sobrado: uma pechincha! Quanto a ser homem, ora! o “bonitinho” ficasse descansado: não havia perigo.... Man’el era um pobre coitado, uma criatura sem forças, um porcalhão...

Mas Aleixo indignou-se: — Não senhora, não admitia outro homem!... Ela bem podia trabalhar honestamente e ganhar dinheiro para o aluguel. Não senhora, ou ele, Aleixo, ou o barbaças.

D. Carolina riu e protestou não receber mais o Man’el. Haviam de viver “honradamente”!

Aleixo ficou muito satisfeito, muito orgulhoso, muito convencido.

Mas a verdade é que, se o açougueiro não continuasse a fornecer carne e a pagar o aluguel do sobradinho, tanto ele como a portuguesa teriam renunciado àquele amor.

— Nem o Man’el sabe do bonitinho, nem o bonitinho sabe do Man’el, pensava D. Carolina.

E tudo ia marchando sem atropelos — dourada embarcação em mar de rosas...

... Vai senão quando chega o bilhete do negro: — Meu querido Aleixo...

D. Carolina passou os olhos com sofreguidão, correndo logo à assinatura, e, ao deparar com o nome do Bom-Crioulo meneou a cabeça desdenhosamente. Depois releu aquelas palavras tocadas de amor e de saudade, e ficou um ror de tempo no meio da sala, em pé, como se houvesse enlouquecido.

Seriam onze horas; — uma manhã quente de dezembro, cheia de luz e de poeira.

Tinha acabado de almoçar, como de costume, o seu bife e o seu café com leite, quando bateram:

Era o bilhete do negro, do “maldito”!

Aleixo tinha ido para bordo naquela manhã e só devia regressar no outro dia. — Felizmente, meu Deus, felizmente o “bonitinho” não estava em casa, porque, então, podia se impressionar...

Passou um último olhar no papel, como se quisesse decorar o recado, e fê-lo em miuçalhas atirando os bocadinhos no caixão do cisco. — Ora, adeus! aquilo não servia para nada!

Mas ficou pensativa, cheia de um vago e misterioso pressentimento que lhe fazia bater o coração. Assaltaram-lhe idéias horrorosas de crimes, de homicídios de sangue; relembrava casos que tinham alvoroçado o Rio de Janeiro, casos de ciúmes, de traições... Na Rua do Senhor dos Passos um sargento esfaqueara uma pobre “mulher da vida”; encontrara-a com outro... A polícia correu ao lugar do sinistro, mas o assassino. como era noite, evadira-se, deixando o cadáver da rapariga crivado de golpes, rubro de sangue. Lembrava-se também de outro caso medonho; fora na Rua dos Arcos: o assassino cortara a mulher em bocados como se esquarteja uma rês. O povo correra em massa para ver o espetáculo; dizia-se até que a vítima era uma espanhola de alto bordo chamada Lola.

Tudo isso vinha-lhe à imaginação desordenadamente, esfriando o seu amor, enchendo-a de receios, de um medo pueril, que era como um aviso de desgraça próxima.

Passou o dia sem fazer nada, inquieta, ora na alcova, deitada, a pensar, calculando o futuro, rememorando uma cousa ou outra, suspirando pelos bons tempos da sua mocidade, ora nos fundos da casa, indo e vindo como tonta: — “que não se podia com o calor de dezembro, uf!...”

Ficou muito admirada quando ouviu bater duas horas: — Ainda! Jesus, que dia longo! E nem roupa havia para lavar, nem um servicinho, nem uma distração... Era contra seus hábitos aquilo: não podia estar em pé sem fazer cousa alguma, Que ferro!

Não lhe saía da cabeça o bilhetinho do negro que ela espedaçara. — E não é que o tal Bom-Crioulo ainda se lembrava do Aleixo! Grandessíssimo pederasta! Nunca supusera que uma paixão amorosa de homem a homem, fosse tão duradoura, tão persistente! E logo um negro, Senhor Bom-Jesus, logo um crioulo imoral e repugnante daquele!

Entrou pela noite com a mesma inquietação, com o mesmo receio vago e indefinido, quase arrependida de se ter metido com o Aleixo. Bem que estava sossegada no seu cantinho da Rua da Misericórdia, vivendo como Deus queria, sem se incomodar. Afinal de contas, o grumete era uma criança e ela uma senhora de idade...

E logo, refletindo: — Ah! mas ninguém está livre: homem e mulher são como fogo e pólvora ... Assim mesmo quarentona, ela era mulher, tinha sangue nas veias e um coração para sentir...

(continua...)

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