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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

A música deu começo a um tango repinicado, saltitante e carnavalesco, espécie de Chorado Baiano, com rufos de tambor, em que sobressaía o clarinete cujas notas, muito prolongadas e queixosas, morriam languidamente.

De quando em quando os instrumentos faziam uma pausa e rompia um coro de vozes grossas. — Quem comeu do boi?... que a molecagem, lá fora, repetia numa desafinação irritante de vozes finas.

— Vamos tomar alguma coisa, insistiu José Pereira oferecendo o braço a Lídia cortesmente. Ó Zuza, você dá o braço a D. Maria do Carmo.

E, dois a dois, dirigiram-se para o botequim, José Pereira à frente com a Campelinho.

A ocasião era oportuna.

Maria a princípio desanimou completamente, mas, num ímpeto decisivo e franco, fazendo um esforço supremo sobre si mesma, nervosa, mais tímida que nunca, sacou a carta, passou-a ao estudante, com a mão trêmula, sem proferir palavra, e imediatamente veio-lhe um arrependimento profundo de se ter comprometido daquele modo, como se houvesse cometido um grande crime, como se naquela carta fosse toda a sua honra, todo o seu pudor de rapariga honesta. Estava perdida! Pensou, e já lhe parecia que toda a gente, — o Passeio Público em peso — seguia-lhe as pegadas observando-lhe todos os movimentos.

— Ah! fez o Zuza satisfeito. Pensei que não respondesse...

E sentindo-se dono daquela prenda, com um frêmito de pálpebras através dos óculos de ouro, aconchegou a si o braço roliço da normalista meio descoberto.

Maria conservou-se calada, sentindo cada vez mais forte o poder misterioso do estudante sobre seu coração extremamente sensível e bom. Deixou-se ir automaticamente, como uma sonâmbula.

Sentaram-se. José Pereira quis saber o que desejavam tomar. Havia sorvete, cidra, cerveja, vinho do Porto, chocolate...

— Cerveja, acudiu a Lídia.

Todos assentaram, depois de alguns minutos de indecisão, em tomar cerveja, e o redator da Província, sempre alegre e cortês, enfiando a cabeça para dentro do botequim, pediu três garrafas de Carls Berg, gelo e quatro copos.

O serviço do botequim era feito por um menino que entrava e saía sem descanso, numa azáfama dos diabos, suado, com os cabelos empastados na testa, sem paletó, uma toalha nauseabunda e úmida no ombro, acudindo, ele só, a todos os chamados.

Rapazes impacientes, de chapéu caído para a nuca, tresandando ixora, muito arrebitados, batiam com as bengalas sobre as mesinhas.

— Uma garrafa de cerveja, menino!

— Ó pequeno, aqui! Olha dois cafés!

O pobre caixeirinho não tinha trégua com a cara enfarruscada, resmungando. De vez em quando, esfregava a toalha nas mesas com força, salpicando restos de bebidas nos janotas.

— Ó burro, estás cego?

O menino zangava-se e corria a outra mesa.

Vinha de dentro do quiosque um cheiro ativo de café requentado. Saíam bandejinhas com chocolate e pão-de-ló.

— Muito mal servido isto, objetou Zuza com o seu ar afetado de fidalgo, limpando os bigodes. Tenho notado mesmo que aqui, no Ceará, não se usa guardanapo...

— É objeto de luxo, disse José Pereira, atirando também o seu dichote.

E pouco a pouco a conversação foi-se animando, pouco a pouco foi-se estabelecendo uma como intimidade entre todos, ao passo que os copos se esvaziavam.

Pediram mais uma garrafa de cerveja.

A própria Maria do Carmo tinha o rosto em fogo. Foi perdendo o acanhamento e ria também com os outros quando o redator dizia uma pilhéria.

A Lídia, essa lambia os beiços a cada copo que virava de dois tragos. Era a sua bebida predileta — a cerveja. Bebera pela primeira vez ali mesmo, no passeio, por sinal o alferes Coutinho, do batalhão, é que tinha pago. Estava em meio do terceiro copo. — “Aquilo é que era bebida agradável e higiênica”, dizia ela. Não gostava de licores e bebidas adocicadas. A champanha mesmo enjoava-lhe.

— E que tal acha o peru? perguntou maliciosamente José Pereira.

Isso era outra coisa: O peru era uma excelente bebida; bastava ter sido inventada pelo presidente da Província, um moço de educação muito fina, viajado.

Diziam até que tinha ido à Rússia...

Então falou-se do presidente, que José Pereira não perdia ocasião de elogiar exageradamente.

Um homem superior, gabava ele, um gentleman, um fidalgo de raça, uma dessas criaturas que a gente ficava querendo bem por toda a vida. Pois não! Excelente amigo, dedicado até, jogador de florete, sabendo montar a cavalo “divinamente” e atirando ao alvo com uma perfeição ultra! E que educação, que finíssima educação social! O homem falava francês como um parisiense, entendia inglês e tinha um modo excepcional de se portar em qualquer ocasião, solene. Com tudo isto, acrescentava pigarreando, era muito bom democrata, sim senhores. Passeava sem ordenança, a pé; ia ao mercado pela manhã “ver aquilo” como qualquer plebeu, e jogava bilhar na Maison Moderne... Que queriam mais? De um homem assim é que o Ceará precisava. Ele ali estava na pessoa do Castro.

Tratava o presidente familiarmente, como a um amigo de muita intimidade.

(continua...)

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