Por Inglês de Sousa (1891)
A orquestra tocava a quadrilha da Bela Helena. O calor ia aumentando. Um odor forte de querosene queimado misturava-se no ar às emanações do suor, dos restos de cerveja, dos cigarros de tabaco negro, acesos, desfazendo-se numa fumaça acre, ou apagados, juncando o chão de pontas enegrecidas pelo sarro, nadando em lagos de saliva e catarro. O perfume vago de patchuli e manjerona, que vinha da sala de visitas, chocando-se ao vivo com o cheiro das bebidas deixadas nos copos ou atiradas ao chão, enjoava.
Depois do incidente do Valadão reinava um tumulto, a festa parecia mais animada. Os jogadores haviam abandonado as cartas, as velhas tinham deixado os cantos, formavam-se grupos de pé nos vãos das portas, ao meio dos aposentos, conversando mais animados, com mais liberdade. As caras tinham um brilho expansivo de suor e de licores. As próprias senhoras haviam perdido muito do acanhamento do princípio, trocavam-se caçoadas, pregavam-se peças para fazer rir, o baile perdia as cerimônias duma solenidade para se transformar em festa íntima, em que todos se conheciam, ninguém precisava guardar reservas e conveniências incômodas. Brincava-se, ria-se, diziam-se tolices. Era encantador! Mas a noite ia adiantada. Onze horas vira Macário no relógio de parede da sala de jantar. Onze horas, e ele que se deitava sempre às oito, e em ocasiões graves às nove e meia! Sentia a cabeça pesada, os olhos ardentes, a garganta seca, tanto fumara aquela noite! O fumo era o seu consolo, e sempre que estava separado do padre fumava os seus compridos e excelentes cigarros de tauari que ele mesmo arranjava. Estava com vontade de se ir embora. Não dançava, não jogava, não encontrava parceiro para a prosa, sentia-se constrangido e secretamente humilhado. Mas já agora esperaria pelo chá. Enquanto não vinha foi rondar o botequim na esperança de que lhe oferecessem um cálice de licor, que ele não se atrevia a pedir. Junto à mesa das bebidas o professor Aníbal Americano conversava com o Mapa-Múndi:
— É o que lhe digo, Guimarães, depois daquele desaforo da Aurora cristã, jurei não mais ouvir missa dita por padre Antônio. Ele hoje pilhou-me na igreja, mas foi de surpresa, e por causa do casamento do Cazuza Bernardino.
E, cuspindo longe, concertando os óculos de tartaruga, acrescentou:
— E tive de gramar quase todo o sermão.
— Eu gramei-o inteiro, queixou-se o Mapa-Múndi, pegando num copo cheio de cerveja, mas também garanto-lhe que tão cedo não me pilha. Isto aqui está muito quente. Vou com o Costa para os castanhais...
— Para os castanhais?
— P-a-pá, Santa Justa. Partimos depois de amanhã.
— Pois olhem, eu estou com vontade de os acompanhar. Que diz da idéia?
— E os meninos?
— Férias com eles, dou parte de doente. O delegado literário é o Dr. Natividade, somos íntimos.
Também estes iam para os castanhais, pensou Macário, apreensivo. E o Mapa-Múndi levaria a irmã? Então de que servira o belo sermão de padre Antônio?
Nisto o Pedrinho Sousa veio da sala do baile, e bateu no ombro do MapaMúndi:
— Aquilo já está escandaloso, Guimarães.
— Que é que está escandaloso?
—O Totônio com a Milu. Não se largam. Ferve o azeite, que é uma desgraça.
— A sala até já escorrega. Apre, assim também é demais, não acham?
Ouvia-se tocar uma valsa. Macário olhou para a sala. No espaço enquadrado no vão da porta o Totônio Bernardino e a Milu passavam, abraçados, rodopiando. Ele sério, ofegante, cheirava-lhe os cabelos. Ela, derretida, olhos fechados, recostava a bonita cabeça no peito do rapaz, e deixava-se levar por ele. Sobre os seus fortes quadris de mulher feita, o vestido de popelina azul ondulava em pregas cambiantes.
— Já está ficando indecente, murmurou D. Dinildes passando pelo braço do Felício para a sala de jantar.
Macário teve vontade de perguntar-lhe se ela não achava indecente ir para os castanhais, mas o terrível Manduquinha Barata aproximou-se, trazendo uma filha do Costa e Silva para tomar licor. O sacristão retirou-se discretamente para a sala de jantar.
Justamente, principiavam a servir o chá. Os criados traziam da cozinha as bandejas com as xícaras de chá e com os doces, os sequilhos, os pães-de-ló e as fatias-de-parida, douradas e recendendo a canela e a ovos fritos. Bernardino não se gabara. Era um baile de arromba!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.