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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Magotes de crianças nuas, de hedionda magreza de esqueleto, de grandes ventres, obesos e lustrosos como grandes cabaças, lançavarn olhares, terríveis de avidez, sobre pilhas de rapaduras, grandes medidas de quarta, desbordantes de farinha e feijão, pencas de bananas, rimas de beijus, alvíssimas tapiocas, montes de laranjas pequeninas e vermelhas, colhidas na véspera, nos pomares murchos da Meruoca.

Os míseros pequenos, estatelados ao tantálico suplício da contemplação dessas gulodices, atiravam-se às cascas de frutas lançadas ao chão, e se enovelavam, na disputa desses resíduos misturados com terra, em ferozes pugilatos. Era indispensável ativa vigilância para não serem assaltadas e devoradas as provisões à venda, pela horda de meninos, que não falavam; não sabiam mais chorar, nem sorrir, e cujos rostos, polvilhados de descamações cinzentas, sem músculos, tinham a imobilidade de coiro curtido. Quando contrariados ou afastados pelos mercadores aos empuxões e pontapés, rugiam e mostravam os dentes roídos de escorbuto. Eram órfãos quase todos, ou abandonados pelos pais; não sabiam os próprios nomes, nem donde vinham. Privados de memória, bestificados pela carência de carinhos, anestesiados pelo contínuo sofrer, eram esses pequeninos mendigos gravetos de uma floresta morta, despedaçados pelos vendavais, destroços de famílias, dispersadas pela ruptura de todos os laços de interesses e afetos.

Às vezes, a morte os surpreendia durante o sono, junto de um tronco ou na soleira de uma porta. Trespassavam como pássaros, sem contorções, sem estertor, sem um gemido, silenciosos, tranqüilos, num sossego de morte, num sossego de liberdade.

Luzia atravessou, rapidamente, o largo da feira, evitando o contacto e desviando os olhos dos grupos de mendigos nauseabundos, pois se ainda não habituara ao pungente espetáculo da miséria ínfima, degradada e feroz. Empolgada pela comoção da entrevista com Alexandre, pelas palavras de conforto da sua adorável protetora, rememorando o que esta lhe dissera sobre o amor e o ciúme, quase esbarrou em Crapiúna, que a saudou cortês; e, bamboleando em ademanes amáveis, arriscou:

— Adeus, feitiço...

A moça estremeceu de susto, fez um gesto de cólera, e seguiu mais depressa.

— Você não tirou ainda o juízo da Luzia-Homem? - perguntou a Crapiúna o Cabecinha, que fazia com ele, o serviço de policiar a feira.

— Qual o quê!... – respondeu o soldado, carregando a caraça, muito despeitado – Aquilo é uma fera, braba como cascavel; mas hei de amansá-la por bem ou por mal...

— Aquela mesma não cai com duas razões...

— Há de ser como as outras: muita soberba, muito luxo... tudo bobagens. A demora é a gente teimar e esperar com paciência. Já lhe teria dado uma ensinada se o estupor do Delegado não estivesse atravessado comigo...

— Eu acho que você faz mal em se meter com a vida daquela mulher...

— Já agora é impossível recuar. Por causa daquela não-sei-que-diga tenho perdido noites de sono, imaginando na raiva que ela tem de mim, só porque me engracei dela...

— Só faltava dar o Crapiúna, em namorado sem ventura.

— Não caçoe, Cabecinha. Há mulheres mandingueiras, que põem na gente um veneno que só elas podem tirar. Fica-se tomado por dentro de uma dor que não dói, mas sofre-se sem saber porquê; não se tem onde botar o corpo; não há cama nem rede, que caiba a gente; finge-se não fazer caso; procura-se distrair com outras mulheres, como quem se embebeda para ficar valente, ou para esquecer... Tudo peta... O veneno vai queimando o sangue, faz febre, dor de cabeça e fastio. E o coração vai inchando, crescendo, até que estoira...

— Você, então, cabra velho, está mesmo ervado?... Tibes! Que cobra te mordeu!...

— Não tenho a vida para negócio; nem conheço a cor do medo; nunca fiz caso da morte, e queria ter de anjos para acompanharem a minha alma, as vezes que tenho visto boca de bacamarte e faca de ponta em cima de mim ... mas, fico mesmo mole diante dessa mulher encantada; fico sem ação e aluado, quando ela passa por mim, e me repuna...

— O melhor, já lhe disse, seu Crapiúna, é pensar noutra coisa.

— Isso é bom de dizer... Nem que queira não posso. É urna desgraça. A você, que é amigo, posso falar a verdade. Tenho feito tudo para reduzi-la. Lembreime até de botar dormideira na jarra d'água...

— E se ficar doente; se morrer?!

— Não há perigo. A Joana Cangati sabe fazer a mandinga. Mas o diabo da velha Zefinha não dorme; passa a noite tossindo e gemendo; e, agora, havia a Teresinha de se meter de gorra com elas para me atrapalhar. Tem-me dado vontade de torcer o pescoço daquela galinha...

— Você está se metendo numa rascada...

— Saberei manobrar para me desapertar, quando for preciso. Agora, estou esperando que ela se desengane do ladrão do Alexandre...

— Qual! Mulher, quando principia a querer bem, fica viciada: larga um, arranja outro.

— Aquela não é dessas. Luza é séria...

— Ora, adeus, seu Crapiúna. Quando dorme...

— E honrada...

— Só se for na testa.

— Já lhe disse.

(continua...)

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