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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

— Peço-te, continuou ela, depois de algum silêncio, com a voz ainda tremula do choro, que partas; e, se não me podes remediar o mal, que não o agraves... Parte, meu amigo, o evita tornares-me a ver. Para salvar meu pai é preciso sermos mutuamente rigorosos. Sê de todo nobre e generoso; salva a quem te quis perder! perdoa do alto do teu coração a esse pobre velho, que não tem culpa de ter ambicioso e mau. Ele é o culpado de tudo; é verdade, mas também a ele devo a minha existência e todos os cuidados que tenho recebido; devemos-lhe a felicidade que já gozamos, é justo que suportemos agora o sacrifício que ele nos impõe... Perdoa! Sim? perdoa, Miguel!...

E Rosalina, meiga, encarava com chorosa ternura o olhar sombrio de Miguel.

O moço ergueu-se com impetuosa feição. Metamorfose assustadora operouse-lhe na fisionomia: os olhos fechavam-se lentamente e lentamente se abriam; um sorriso de amargurada desconfiança encrespava-lhe os lábios. Debruçou-se brandamente sobre Rosalina e, recolhendo-lhe as mãos frias, disse-lhe com delicadeza:

— É então teu pai o único obstáculo de nossa felicidade?

— É, disse ela.

— Então, adeus! E beijou-lhe a fronte.

— Que vai fazer?

— Obedecer-te.

— Como?

— Partindo.

— Para onde?

— Não sei.

— Quando? — Já.

E Miguel saiu tão rápido como houvera entrado.

Rosalina levantou-se, foi até a janela e percebeu ainda o vulto do artista desaparecer por entre a rede de galhos e folhas sombreadas pela noite; encostou-se no balcão de mármore, olhou para o tempo e disse, fechando a janela e abrindo preguiçosamente a boca:

— Até que enfim!

Depois entrou para a sua alcova, correu o cortinado, mirou-se num espelhinho de mão, desprendeu os cabelos e tocou a campainha, chamando a criada para a despir.

Daí a meia hora, Rosalina, mais encantadora que nunca, adormecia sorrindo para o imenso cristal de Veneza, que com arte refletia o seu corpo esculturalmente formoso, atufando-se nas amplas e alvíssimas cambraias do leito, semelhante a Vênus transformando-se das espumas do oceano.

CAPÍTULO IX

Depois dessa noite, Miguel vivia para uma idéia: fosse qual fosse ela deveria de ser negra e amarga, por amargo era o seu sorrir e negras as sombras do seu olhar.

Já por várias vezes lhe perguntara o guia se era tempo de regressarem para a ilha; Miguel, porém, desviava a cabeça, como se alguma coisa o prendesse ainda em Nápoles e deixava-se ir ficando. Alguma coisa o prendia de feito: era essa idéia.

Todas as tardes, quando para o ocidente, o crepúsculo vespertino esfogueava as nuvens mais baixas do horizonte, ele, espantadiço e calado, tomava para as bandas da casa de Maffei e, como um espírito perseguidor e maligno, rondavam-lhe o jardim e o quintal, procurando sempre confundir-se com a escuridade movediça das folhagens.

E, mais tarde, quando de todo a noite carbonizava a natureza e com as suas sombras o favorecia, então, mais seguro e confiado, atravessava o foragido as ruas relvosas do jardim e, pisando cauteloso, apalpando sorrateiro as trevas, comprimindo a respiração e procurando minguar o seu vulto, ora desaparecia nas moitas de roseiras, ora nos jasmineiros e caramanchões em flor, para reaparecer aqui e além, como o veado doméstico, que passeia nos quintais do amo, procurando a solidão e o silêncio.

Aí deixava-se passar ignorando as noites. E quando porventura via iluminada a janela de Rosalina, quedava-se horas esquecidas a contemplá-lo, extático e embevecido.

Assim sucedeu até o sábado, dia de recepção em casa de Maffei.

Nessa noite o palácio escancarava as suas largas bocas a novos convidados, como insaciável monstro, que não se farta de tragar reputações alheias; devia ser duplamente rica essa festa, porque, sobre ser sábado, era também aniversário do nascimento de Rosalina; circunstância esta de que não se esquecera o deslembrado amante e o fazia aguardar, com impaciência e desassossego, esse faustoso dia.

Efetivamente, preparava-se a festa ameaçadora e esplêndida; dobrou-se a orquestra e multiplicou-se o número de garrafas; eminente s artífices incumbiram-se de magnífica iluminação e fogos de artifício, que ocupassem a varanda e a parte principal do jardim; um quiosque, levantado defronte da janela do quarto da festejada, dar-lhe-ia, ao romper da alva, um harmonioso bom dia.

Chegada a hora, as salas, as varandas, os quartos, o andar inferior, tudo se encheu de gente. Era tudo confusão e bulício; por todos os lados fosforesciam luzinhas de variadíssimas cores; por toda a parte, música e perfumes, flores em profusão, gelados e vinhos, cantos e versos, mimos e ramilhetes, danças e jogos, florões e murtas; enfim, por toda parte e de todas as coisas rebentavam e efervesciam alvoroçadamente o prazer, o riso, a loucura e o amor.

(continua...)

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