Por Aluísio Azevedo (1897)
É o Melo Rosa e o comendador Moscoso. O Moscoso é aquela peste que se queria casar com a minha defunta mulher... Ai, minha rica Aninha!
E desatou a soluçar.
— Era uma santa, menino! Uma santa!
— Bem! consolese, porque agora as cousas lhe vão correr melhor; eu preciso falarlhe. Venha daí!
— O que é?!
— É negócio muito sério! Venha comigo!
— É negócio! Pronto! Ah! Eu cá sou como Reguinho!... Queremos dinheiro, sebo!
— Se você quiser sujeitarse, não lhe faltará o necessário e também algum dinheiro... Ande daí!
— Queremos dinheiro, sebo!
— Pois terá dinheiro! Espere um instante por mim.
E Gabriel subiu novamente à casa do coronel; disse a Gaspar de quem eram as mofinas, pediulhe que ficasse durante a sua ausência fazendo companhia ao velho, e depois foi ter de novo com o Bessa.
— Vamos cá... disse este.
Alfredo acompanhouo.
— Você almoçou hoje?... perguntoulhe Gabriel.
— Não me lembra.
— Bem! mas de ora em diante é preciso mudar de vida! Cá está um hotel. Entramos!
O Marmelada hesitou.
— Entre, homem!
E Gabriel procurou o dono da casa para encarregálo de Alfredo.
— É um amigo meu, disselhe, que por desgostos, caiu neste estado... O senhor tratará dele o melhor possível. Obrigueo a recolherse, façao comer alguma cousa, lavarse, vestirse de roupa nova; enfim, quero que ele não saia daqui, sem ter voltado ao seu primitivo estado de asseio e decência... — Mas, Dr., é que...
— Não me diga que não! Aqui lhe deixo cem milréis para as primeiras despesas. Não tenho mais dinheiro comigo, porém, amanhã voltarei e desejo encontrar o seu hóspede em melhores condições... O principal é não deixálo sair sem estar restaurado.
O hoteleiro afinal aceitou, e fez recolher Alfredo.
Este não queria deixarse prender.
— Querem roubarme! berrava ele, debatendose. Querem roubarme, porque tenho dinheiro comigo! É meu! deramme! Há testemunhas!...
Gabriel recomendou ainda uma vez o seu protegido e retirouse, gozando a caridade que acabava de praticar.
Ao chegar à casa, disselhe a criada que Gaspar havia saído.
— E deixou o velho sozinho... Que imprudência!
E foi fazer companhia ao coronel.
Às dez da noite voltava Gaspar. Vinha radiante.
— Meu pai, exclamou ele logo ao entrar; alegre o seu coração! Está descoberto o autor das mofinas! Alfredo dizia a verdade. Soube agora que chegara este a tal resultado, fingindo que dormia em um banco do Passeio Público, perto do qual conversavam o comendador Moscoso e o Melo Rosa. Procurei este último, que eu já conhecia, e consegui dele a confissão de tudo. O verdadeiro autor das mofinas é o comendador Moscoso!
— Ah! agora compreendo, gritou o coronel, depois de um esforço de memória. O comendador Moscoso... Já sei! é um sujeito que desejou casar com Anita! Eu não consenti... Infame! E porque lhe neguei... Ah! mas caro o pagarás, miserável!
— Nada de precipitações, observou Gaspar. É necessário fazer tudo com calma para obtermos bom resultado. Eu me encarrego do comendador! O senhor há de recebêlo aqui neste quarto, sem se incomodar. Ele há de vir cá, há de ajoelharse a seus pés, e o senhor dirlheá o que quiser! Fique descansado! Durma hoje sem preocupação, porque o essencial está feito!
— Obrigado, meu filho, muito obrigado! disse o coronel, abraçando o filho. Até já me sinto são e forte depois de tuas palavras, meu Gaspar!
— Bem, mas é preciso descansar... Por enquanto, não convém falar muito sobre isto. Veja se consegue dormir. Se precisar de mim, toque a campainha.
E, voltandose para Gabriel:
— Vem comigo cá ao escritório. Tenho que te falar.
E quando se acharam a sós, acrescentou:
— É uma incumbência sagrada! — Vais falarme de minha mãe?
— Sim, de tua mãe e de ti, meu amigo.
E encerraramse no escritório.
Entretanto, o coronel, logo que sentiu a casa em silêncio, envergou o seu capote militar, pôs o boné, tomou um revólver e, apoiandose a uma grossa bengala de cana da Índia, ganhou cautelosamente a porta da rua, e saiu.
Dirigiase para o palacete do comendador Moscoso.
XV
EM CASA DO COMENDADOR
Gaspar fechouse no gabinete com o enteado.
— Sentate, disse ele, dando volta a uma charuteira e tirando de sobre a estante uma garrafa de cristal. Fuma um charuto e toma um cálice de Málaga:
Gabriel instalouse em uma poltrona.
Estava realmente um belo moço; e ali, contra o marroquim vermelho da cadeira, a luz do gás, caindo do alto, lhe fazia destacar bem o puro contorno da cabeça, deixandolhe o rosto embebido em meia sombra, na qual cintilavam com um olhar ansioso as duas negras jóias, que Gabriel herdara da mãe.
Havia nele toda a graça dos vinte e um anos.
Gaspar acendeu um charuto, e assentouse defronte do enteado.
— Chegou a época da tua emancipação, disse, e amanhã mesmo iremos tratar dela. Estás, por conseguinte, um homem, e eu tenho de substituir, junto a ti, o meu papel de tutor pelo de teu mais dedicado amigo. Vais entrar na posse de teus bens, que aliás são bastante avultados; antes disso porém, quero contarte a história de tua mãe e desempenhar uma comissão que ela me confiou nos seus últimos momentos...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.