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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Em qualquer engenho nada é mais natural do que semelhantes rumores. Fosse porém porque se achavam sobreexcitados os espíritos pelo objeto da conversação, fosse porque o rumor tinha o quer que era particular e estranho, o certo é que João da Cunha julgou prudente chegar á janela, a fim de saber quem era que o produzia.

Ao clarão das fogueiras, de que a esse tempo já se atiravam aos ares longas línguas de fogo, reconheceu ele quem chegava.

Voltou-se então para os circunstantes, que guardavam silencio, e lhes disse com certo tom de voz, em que não seria difícil adivinhar três impressões diferentes – prazer, incerteza e ansiedade:

- Vamos Ter noticias frescas de Olinda.

Com pouco um matuto penetrou no aposento onde se estava celebrando a conferencia, e entregou a João da Cunha um pacote de papeis.

O matuto era Francisco.

XIII

O S.João, do mesmo modo que o natal, é festa essencialmente popular e campestre. Cada uma destas duas festas, com especialidade porém a primeira, leva vantagem á da páscoa , que, com ser comemorativa da ressurreição do proto-martir, de quem só nos ficaram exemplos de humildade e singeleza, assumiu formas aristocráticas, e pertence hoje mais ao palácio e á cidade do que á choupana e ao povoado.

O engenho Bujari dava em 23 de junho de 1711 testemunho desta verdade. Não havia casa de lavrador ou de morador em que das 6 para as 7 horas da tarde o prazer não tivesse desabrochado entre risos e folgança.

João da Cunha, com ser de seu natural de poucos amigos, tinha em suas terras muitos lavradores e foreiros. Alguns escolhiam, para se fixar, as terras do engenho Bujari, e havia razão para esta preferencia. João da Cunha era ríspido, exigente e até poder-se-há dizer – mau. Mas tinha uma grande qualidade, que em certo modo atenuava os seus grandes defeitos. Bulir com um morador do seu engenho era o mesmo que bulir com ele próprio. Excedia os limites da defesa quando algum deles era ofendido. Tomava parte pelo morador em publico, ia pessoalmente aos juizes, para que ordenassem o castigo do delinqüente, gastava do seu dinheiro com o pobre e sua família, enfim, deixava o papel de tirano e representava ao vivo o de pai ou zeloso protetor. Por esta razão particularmente, e porque das magnificas situações que se apontavam em derredor de Goiana onde os engenhos ainda não eram numerosos, as melhores lhe pertenciam, muitos eram os seus moradores, entre os quais alguns abastados. Ao numero dos que o eram menos, pertencia Victorino.

Na hora em que se discutiam, com a gravidade que vimos, os interesses das famílias goianistas de primeira representação, Lourenço descavalgava á porta de Victorino.

Ai se estava festejando a noite com todo o entusiasmo e calor do estilo. As filhas do dono da casa faziam as honras aos hospedes, de que já havia um bom numero no momento em que Lourenço penetrou na salinha.

Lourenço foi entrando, e foram eles logo oferecendo a ele espigas de milho verde quebradinhas meia hora antes no roçado próximo e assadas na fogueira que iluminava o pátio e a frente da casa.

Joaquina não apareceu senão mais tarde. Estava na cozinha preparando a deliciosa canjica, que é o primeiro prato das mesas grandes e pequenas do norte nessa noite de tão formosas e prazenteiras tradições.

Não o afamado bolo de S. João, que só nas mesas ricas ou ao menos abastadas costuma aparecer, mas uns bolos de mandioca estavam assando no forno, e por terem sido feitos pelas duas filhas de Victorino mereciam a honra de ser visitados por elas enquanto não ficavam no tom de apresentar-se.

Entre os hospedes apontavam-se mais de meia dúzia, que eram afamados tocadores de viola e guitarra. Alguns deles temperavam já os seus instrumentos para dar principio ao samba.

No pátio, junto da fogueira, uns meninos descalços, de camisas compridas, rodeavam Saturnino, que, de quando em quando, cantarolando e pulando de alegria, descarregava um clavinote, em honra do santo folgazão. A estes tiros, soltados no terreiro, respondiam outros, também de armas de fogo, com que habitantes dos vales e da beira dos caminhos davam noticias suas. Trocavam assim os vizinhos, através das distancias, seus cumprimentos e as demonstrações do seu inocente prazer.

(continua...)

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