Por Bernardo Guimarães (1872)
— Não o há sobre a terra, mas há no céu. Implore com fervor a graça divina, e ela não lhe faltará; e o seu triunfo, que considera impossível, será facílimo, e completo. A oração, a penitência, os exercícios piedosos, são armas poderosas para combater a tentação, filho; e Vm. mesmo já fez delas a mais brilhante prova, quando sendo muito mais criança conseguiu debelar completamente o inimigo que o tinha em contínua obsessão. Se não fosse a imprudência, de deixar o seminário, e ir colar-se de novo entre as goelas da serpente que o seduzia, teria evitado esta nova luta, talvez mais renhida e encarniçada que a primeira. Hoje, porém, que já com vinte anos deve ter outra energia e força de vontade, e sabe melhor ponderar as coisas, é que assim desanima como um covarde, e recua espavorido diante do inimigo?
— Mas, senhor padre, eu jurei a Margarida... Perjurar, esquece-la, abandoná-la a seu cruel destino não é uma traição, uma infâmia?
— O juramento inspirado pelas sugestões do demônio não é juramento, filho. Deus não o aceita, nem o confirma no céu. Jurou o nome de Deus em vão; fez mais, profanou como um ímpio o seu santo nome envolvendo-o em atos desregrados de libertinagem. Cometeu um grande pecado, de que cumpre lavar-se com lágrimas sinceras de compunção e arrependimento; mas não é um juramento, nem o constitui em obrigação alguma.
— Não sei, senhor padre, não sei o que lhe possa objetar... mas o coração se revolta, e diz-me a consciência que eu cometeria uma indignidade, um crime mesmo, arrojando em um abismo de infortúnio e desespero a uma criatura de quem sou mais do que o amparo, de quem sou a única esperança.
— Filho, olhe que toma por vozes da consciência o que não é senão murmúrio da paixão, embuste do demônio que porfia em obumbrar-lhe o espírito e amolecer o coração. Ânimo, filho!... nada o embaraça para esse nobre e santo cometimento, senão a sua própria vontade. Essa paixão que o atormenta é um cálix de provação que Deus lhe preparou para acrisolá-lo na luta e no sofrimento, e tornálo mais digno do sagrado ministério a que o chama o céu. O inimigo com quem tem de travar-se, foi-lhe enviado por Deus, como o anjo de Jacó. Faça como aquele santo patriarca que combateu com o anjo a noite inteira; não se recuse a essa luta agradável aos olhos de Deus; combata noite e dia, que vencerá como Jacó.
Eugênio saiu de junto do padre com o espírito um tanto abalado; pelo menos achava-se resolvido a implorar o auxílio do céu para extinguir aquela paixão, que era ao mesmo tempo o encanto e o tormento de sua existência. Ainda que sem fé a princípio, e sem esperança alguma de resultado — e talvez por isso mesmo — entregou-se como outrora às práticas do mais austero ascetismo, e na solidão de sua cela deu-se à vida de penitência e contemplação com uma exaltação e fervor dignos dos antigos anacoretas dos desertos da Calcida, da Nitria e da Tebaida.
À força de orações e jejuns, vigílias e macerações, de novo conseguiu reduzir o seu corpo a múmia ambulante, e o espírito a um foco de visões beatificas e fanáticas alucinações. Desta vez porém o áspero e pesado manto do ascetismo não logrou abafar a chama teimosa que abrasava o peito do mancebo. A fibra do seu coração tinha-se fortalecido com os anos. O vaso frágil das afeições infantis se convertera em urna diamantina, que conservava inteiro e inalterável o filtro fatal que os lábios de Margarida nele haviam vazado entre os beijos de mel e lágrimas de fogo.
Embora, procurava o anjo de devoção, com a sombra mística, de suas asas, acalmar os tumultuosos transportes daquela alma apaixonada. Na maior exaltação de seus êxtases beatíficos, no rigor de suas austeras mortificações, lá mesmo lhe aparecia a imagem de Margarida, formosa como visão celeste, e com um sorriso melancólico dizia-lhe com acento de triste e amarga exprobração:
— Louco, que pretendes esquecer-me e pedes ao céu forças para ser perjuro e desapiedado! Lutas em vão; eu sou o anjo que leva ao céu teus pensamentos e tuas orações, e jamais consentirei que cheguem ao trono de Deus tuas mentirosas preces. Esquece-me se puderes, mas não peças auxílio ao céu para caíres no inferno!
Então Eugênio, alucinado e quase em delírio, batia com a fronte na terra, estorcendo-se e bradando com voz sufocada entre soluços:
— Perdão, Margarida, perdão!
Assim continuou por longo tempo a luta travada no espírito do mancebo entre o amor e a religião, entre duas paixões que com ele nasceram e com ele poderiam viver e fazer a sua felicidade, se as instituições humanas não houvessem erguido entre elas uma barreira insuperável.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.