Por Bernardo Guimarães (1872)
– Mas eu não lhe jurei nada, senhor meu sobrinho!... nosso contrato está rasgado, porque vejo que o senhor é um homem desalmado e indigno da mão de minha filha. Nem viva nem morta ela nunca lhe pertencerá. Não é mais o senhor, quem estorva esse casamento, senhor Eduardo; sou eu que não o quero. O senhor está desobrigado de seu juramento.
Roberto ficou fulminado com aquela terrível apóstrofe de seu tio; pálido e trêmulo não atinava com o que devia responder, e ali ficaria assim por longo tempo, se Eduardo, tomando a palavra, não viesse em seu auxílio:
– Não, senhor! disse Eduardo com voz firme; – não me considero desobrigado, enquanto ele mesmo não desistir; ela e o senhor deram-lhe um direito que sem quebra de lealdade não lhe podem mais negar...
– Que louca teima, senhor Eduardo!... e assim Paulina morrerá...
– Não posso, senhor, não posso ser falso às cinzas de meu pai...
– Roberto, – disse o velho com voz suplicante, voltando-se para seu sobrinho, – Roberto, meu sobrinho, olha o que fazes. Tua prima está em risco de vida. Ela não te quer, e só te aceitava por marido por comprazer comigo; só o senhor Eduardo pode fazer a sua felicidade, só ele pode salvar-lhe a vida, que está por um fio. Roberto, tem piedade dela...
– Ai! que isto já me enjoa, e até me cheira a desaforo! – bradou Roberto; – o senhor Eduardo pode quebrar o juramento, e o senhor meu tio pode faltar à sua palavra quantas vezes quiserem. E adeus! passem muito bem, e façam o que entenderem.
E sem querer ouvir mais nada, montou em seu animal que ali estava ainda arreado, e picou a galope caminho de sua casa.
Os dois ficaram imóveis, pasmos e silenciosos por largo tempo olhando o cavaleiro, até que este se encobriu pela avenida de um capão vizinho.
– Que desalmado e brutal sobrinho tem o senhor Ribeiro, – disse Eduardo; – e era a um tal homem que o senhor ia entregar sua filha?...
– E não menos desalmado e cruel, – retrucou-lhe Ribeiro, – é o senhor, que por um vão escrúpulo deixa sucumbir minha infeliz filha.
– Jurei, senhor Ribeiro, e não sou homem que falte ao meu juramento por motivo nenhum deste mundo.
– E diz que quer muito... que adora a minha Paulina... oh!... perdoe-me; não posso acreditá-lo.
– Senhor Ribeiro, por compaixão, não agrave com suas queixas a dor
de meu coração, que, – esteja certo, – sofre tanto ou mais do que o seu. Adoro a sua filha, e sei que sem ela serei o mais desgraçado dos homens. Mas, meu amigo, que hei de eu fazer?... acima de tudo está Deus, a religião, a honra, a consciência.
– Não me diga tal; nem Deus nem a religião querem o suplicio inútil e a morte de uma inocente criatura.
– Deus abomina o perjúrio, senhor Ribeiro...
– Deus não aceita um juramento louco... Entretanto são os senhores dois os algozes de minha filha! Pobre Paulina!... o destino fez-te escapar das garras de uma onça para te colocar entre duas feras ainda piores...
Dizendo isto o infeliz velho lastimava-se e chorava como uma criança, arrancando as cãs e praguejando da sua sorte.
– Ânimo, meu amigo!... disse-lhe Eduardo, chegando-se mansamente para ele. Não se entregue assim ao seu pesar. O estado de sua filha não é ainda para desesperar. Com a minha ausência seu espírito acalmará; não há sofrimento algum, a que o tempo não traga algum alívio. Quanto a mim não devo parar mais nem um instante nesta casa, onde a minha presença parece que é e será sempre um desastre. Adeus, senhor Ribeiro!... perdoe-me, se sou a causa involuntária de tantos sofrimentos... por piedade, não se queixe de mim... sou digno de lástima, mais do que ninguém... eu também sofro... sofro tanto como ela... e vou ser para sempre infeliz.
Falando assim o moço abaixava o rosto e tapava os olhos com a mão para ocultar suas lágrimas.
– Acredito e lastimo-o de todo o coração, senhor Eduardo,– respondeu-lhe o fazendeiro; – mas espero que me fará o favor de não ir ainda hoje; espere ainda até amanhã ou depois, tenha paciência. Quem sabe se aquele estouvado cairá ainda em si?... ele estava atordoado com o golpe que recebeu; não sabia o que dizia, nem o que fazia... o caso não era para menos. Mas talvez que refletindo pense melhor... Esperemos; sou eu que lhe peço em nome de Paulina.
Não havia resistir. Eduardo deixou-se ficar e com o coração atravessado das mais raladoras angústias encaminhou-se para a gameleira, a cuja sombra foi se sentar. Era ali o horto, em que há tempos fizera tragar à mísera Paulina o cálix da amargura; era ali também, que agora ia sorver as fezes do fel das desventuras, que ele por uma cruel fatalidade tinha preparado com suas próprias mãos para si e para ela.
Que de amargas reflexões, que de pungentes recordações não o assaltaram ali naqueles curtos momentos, que resumiam uma vida inteira de decepções, de mágoas e de angústias!
Capítulo XIII
Desengano tardio
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.