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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Meu pai, — disse ela resolutamente apenas Álvaro transpôs o portão do pequeno jardim, — declaro-lhe que não vou a esse baile; não quero, nem devo por forma nenhuma lá me apresentar.

— Não vais?! - exclamou Miguel atônito. — E por que não disseste isto há mais tempo, quando o senhor Álvaro ainda aqui se achava? agora que já demos nossa palavra...

— Para tudo há remédio, meu pai, — atalhou a filha com febril vivacidade – e para este caso ele é bem simples. Vá meu pai depressa à casa desse moço, e diga-lhe o que eu não tive ânimo de dizer-lhe; declare-lhe quem eu sou, e está tudo acabado.

Dizendo isto, Isaura estava pálida, falava com precipitação, os lábios descarados lhe tremiam, e as palavras, proferidas com voz convulsa e estridente, parecia que lhe eram arrancadas a custo do coração. Era o resultado do extremo esforço que fazia, para levar a efeito tão penível resolução. O pai olhava para ela com assombro e consternação.

— Que estás a dizer, minha filha! — replicou-lhe ele — estás tão pálida e alterada!.. parece-me que tens febre... sofres alguma coisa?

— Nada sofro, meu pai; não se inquiete pela minha saúde. O que eu estou lhe dizendo é que é absolutamente necessário que meu pai vá procurar esse moço e confessar-lhe tudo...

— Isso nunca!... estás louca, menina?... queres que eu te veja encerrada em uma cadeia, conduzida em ferros para a tua província, entregue a teu senhor, e por fim ver-te morrer entre tormentos nas garras daquele monstro! oh! Isaura, por quem és, não me fales mais nisso. Enquanto o sangue me girar nestas veias, enquanto me restar o mais pequenino recurso, hei de lançar mão dele para te salvar...

— Salvar-me por meio de uma indignidade, de uma infâmia, meu pai!... retorquiu a moça com exaltação. — Como posso eu, sem cometer a mais vil deslealdade, aparecer apresentada por ele como uma senhora livre em uma sala de baile?... Quando esse senhor e tantas outras ilustres pessoas souberem que ombreou com elas, e a par delas dançou uma miserável escrava fugida...

— Cala-te, menina! — interrompeu o velho, incomodado com a exaltação da filha. — Não fales assim tão alto... tranqüiliza-te; eles nunca saberão de nada. O mais breve que puder ser deixaremos esta terra; amanhã mesmo, se for possível. Embarcaremos em qualquer paquete, e iremos para bem longe, para os Estados Unidos, por exemplo. Lá, segundo me consta, poderemos ficar fora do alcance de qualquer perseguição. Eu com o meu trabalho, e tu com as tuas prendas e habilitações, podemos viver sem sofrer necessidades em qualquer canto do mundo.

— Ah! meu pai! essa idéia de irmos para tão longe, sem esperança de um dia podermos voltar, me oprime o coração.

— Que remédio, minha filha!.., já agora, ainda que tenhamos de ir parar ao fim do mundo, nos é forçoso fugir às garras do monstro.

— Mas esse moço, que tanto se interessa por nós, o senhor Álvaro, nobre e generoso como é, sabendo da minha verdadeira condição, e das terríveis circunstâncias que nos obrigam a andar assim fugitivos e disfarçados pelo mundo, talvez queira e possa nos amparar e valer contra as perseguições...

— E quem nos afiança isso?... o mais certo é ele entregar-te ao desprezo, logo que saiba que não passas de uma escrava fugida, se, despeitado com o logro que levou, não for o primeiro a denunciar-te à polícia. No transe em que nos achamos, é de absoluta necessidade enganar a ele e a todos; se revelarmos a quem quer que seja o segredo de nossa posição, estamos perdidos. Toma coragem, e vamos ao baile, minha filha; é um sacrifício cruel, mas passageiro, a que devemos nos sujeitar a bem de nossa segurança. Em breve estaremos longe, e se algum dia souberem quem tu eras, que nos importa? nunca mais nos verão o rosto, nem ouvirão nossos nomes. Tens a consciência escrupulosa em demasia. Se ignoram quem tu és, a tua companhia em nada os pode infamar. Com isso não fazes mal a ninguém; é uma medida de salvação, que todos te perdoariam.

— Meu pai parece que tem razão; mas não sei por que, repugna-me absolutamente ao coração dar esse passo.

— Mas é preciso dá-lo, minha filha, se não queres para nós ambos a desgraça e a morte. Se não formos a esse baile, e desaparecermos de um dia para outro, como nos é forçoso, então as suspeitas que começamos a despertar tomarão muito maior vulto, e a policia pôr-se-á à nossa pista, e nos perseguirá por toda parte. É um sacrifício na verdade, mas não será ele muito mais suave do que as perseguições da polícia, a prisão, as torturas e a morte, que é o que podes esperar em casa de teu senhor?...

Isaura não respondeu; seu espírito agitava-se entre as mais pungentes e amargas reflexões.

As palavras de seu pai a tinham abismado em glacial e profundo desalento. Aturdida por tantos golpes, sua alma debatia-se em um mar de dúvidas e perplexidades, como frágil barca em meio de um oceano irritado, sacudida aos boléus por vagalhões desencontrados.

(continua...)

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