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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Fernando freqüentou assiduamente a modesta casa de Santa Teresa, onde passava as primeiras horas da noite, que de ordinário ia acabar no baile ou no espetáculo lírico. Quando saía da sala humilde, onde a paixão o retinha preso dos olhos de sua amada, sentia o elegante moço algum acanhamento. Parecia que  derrogava de seus hábitos aristocráticos, e inquietava-o a idéia de macular o primor de sua fina distinção. 

Um mês durante, Aurélia inebriou-se da suprema felicidade de viver amante e amada. As horas que Seixas passava junto de si, eram de enlevo para ela que embebia-se d'alma do amigo. Esta provisão de afeto chegava-lhe para encher de sonhos e devaneios o tempo da ausência. Seria difícil conhecer a quem mais vivia, se ao homem que a visitava todos os dias ao cair da tarde, se o ideal que sua imaginação copiara daquele modelo. 

Como Pigmaleão ela tinha cinzelado uma estátua, e talvez, como o artista mitológico, se apaixonasse por sua criatura, de que o homem não fora senão o grosseiro esboço. E não é esta a eterna legenda do amor, nas almas iluminadas pelo fogo sagrado? 

Entre os apaixonados de Aurélia contava-se Eduardo Abreu, rapaz de vinte e cinco anos, de excelente família, rico e nomeado entre os mais distintos da corte. 

Apesar de sisudo e não propenso a aventuras, Abreu foi tentado pela fascinação do amor fácil e efêmero. Alistou-se à já numerosa legião dos conquistadores de Aurélia, mas andara sempre na retaguarda, entre os mais tímidos. 

Quando os namorados de profissão debandaram, ele perseverou, sem apartar-se todavia de seu modo reservado e esquivo. Um velho sapateiro que tomara a si o registro dessa barreira, continuou a ver todas as tardes o rapaz que passava em seu cavalo do Cabo. 

A impressão que Aurélia deixara no espírito do moço, tornou-se mais profunda, à proporção que se foi manifestando a pureza da menina. Vendo afinal quebrar-se de encontro à sua virtude a audácia dos mais perigosos sedutores do Rio de Janeiro, a afeição de Abreu repassou-se de admiração e respeito. 

É natural que esse moço, em condições de aspirar às melhores alianças na sociedade fluminense, vacilasse muito, antes da resolução que tomou. Mas uma vez decidido, não hesitou em realizar seu intento. Dirigiu-se a D. Emília e pediu-lhe a mão da filha. 

A viúva, ainda abalada do inesperado lance da fortuna, falou a Aurélia. 

- Deus ouviu minha súplica. Agora posso morrer descansada. 

A moça escutara, sem interrompê-la, a exposição que D. Emília lhe fez das vantagens de um casamento com Abreu. Nas palavras de sua boa mãe, não somente sentiu os extremos de uma ternura ardente; reconheceu também o conselho da prudência. 

Não obstante, sua resposta foi uma recusa formal. 

- Tinha resolvido aceitar o primeiro casamento que minha mãe julgasse conveniente, para sossegar seu espírito e desvanecer o susto que tanto a consome. Meus sonhos de moça, que bem mesquinhos eram, sacrificava-os de bom grado para vê-la contente. Agora tudo mudou. Não posso dar o que não me pertence. Amo outro. 

- Sei, o Seixas. E tens certeza de que ele se case contigo? 

- Nunca lhe perguntei, minha mãe. 

- Pois é preciso saber. 

- Eu não lhe falo nisso. 

- Pois falarei eu. 

Efetivamente, essa noite, quando Fernando chegou, D. Emília dirigiu a conversa para o ponto melindroso. No primeiro ensejo interrogou o moço acerca de suas intenções. Fez valer o argumento formidável da sombra que um galanteio ostensivo projeta sobre a reputação de uma menina, quando não o perfumam os botões de laranjeira a abrir em flor. Lembrou também que a preferência exclusiva afugentava os pretendentes, sem garantia de futuro. 

Seixas perturbou-se. Por mais preparado que esteja um homem de sociedade para essa colisão deve comovê-lo a necessidade de escolher entre a afeição e as conveniências. Ainda mais, quando para furtar-se ao dilema, esse homem delineou uma vereda sinuosa, por onde se arraste como réptil, serpenteando entre o amor e o interesse. 

Assevero-lhe, D. Emília, que minha intenções são as mais puras. Se ainda não as tinha manifestado, era por aguardar a ocasião em que possa realizá-las de pronto, como convém em semelhante assunto. Minha carreira depende de acontecimentos que devem efetuar-se neste ano próximo. Então poderei oferecer a Aurélia um futuro digno dela, e que lhe invejem as mais elegantes senhoras da corte. Antes disso não me animarei a associá-la a uma sorte precária, que talvez se torne mesquinha. Amo sinceramente sua filha, minha senhora; e esse amor dá-me forças para resistir ao egoísmo da paixão. Prefiro perdê-la a sacrificá-la. 

- Este procedimento de sua parte é muito nobre, sr. Seixas. Não podia com efeito dar maior prova de estima a Aurélia, do que renunciar a ela para não servir de obstáculo a um enlace, que há de fazê-la feliz. 

Ditas estas palavras, a valetudinária senhora a quem a conversa havia fatigado em extremo recolheu-se ao interior. Fernando ficou na sala aturdido com a conclusão que tivera  a conversa, tão outra da que ele havia esperado. 

(continua...)

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