Por José de Alencar (1875)
em honra sua; nenhum, porém, como a cavalhada. Foi mesmo no largo do Palácio. Armaram uns palanques muitos vistosos com seus toldos de sêdas amarelas e carmesins, em redor da teia guarnecida de arcos e galhardetes de todas as côres.
— Como havia de estar chibante!
— Muitas donas, já se sabe, e as filhas todas com suas galas mais ricas…
— Mas a formosura era você, Flor, que enfeitiçou com êsses olhos todos os cavalheiros, e até príncipes que lá houvesse.
— Deixe-me contar, menina, observou D. Flor com um gracioso amuo: senão acabou-se a história.
— Estou ouvindo, princesa.
— Já os palanques estavam apinhados de damas e cavalheiros, quando chegou o conde governador, que deu o sinal para começaram os jogos. Então entraram, cada uma de seu lado, duas quadrilhas adereçadas com roupas muito lindas, uma de verde e amarelo, que era a dos pernambucanos, e outra de encarnado e branco, que era a dos lusitanos. Correram primeiro as lanças; depois jogaram as canas e alcanzias, fazendo várias sortres como costumam.
— Assim não vale, Flor; deve contar tudo como foi.
— Não se lembra você, Alina, das cavalhadas que se deram, fazem dois anos, no Icó, por ocasião da festa? Pois foi a mesma coisa, só com a diferença que lá no Recife eram mais ricas, e os cavalheiros tinham outro garbo e gentileza.
— Mas qual das duas quadrilhas ganhou? Você não disse.
— A pernambucana, menina; não tinha que ver. Mas a outra disputou-lhe a palma com muita galhardia, que a todos mereceu grandes louvores. Veio depois o jôgo das argolinhas e então os cavalheiros reunidos em uma só banda correram três vezes. Eu recebí um anel que me ofertou na ponta de sua lança um dos vencedores…
— Gentil cavalheiro? perguntou Alina vivamente.
— Dos mais guapos que lá se apresentaram. Meu pai veio a saber que era o capitão Marcos Fragoso, filho do coronel Fragoso, que foi nosso vizinho.
— O dono da fazenda do Bargado. Mas o filho não mora aí.
— Não; tem outras fazendas para as bandas do Inhamuns; mas parece que vive mais no Recife.
— E a argola que êle ofereceu-lhe foi esta, Flor? perguntou Alina, mostrando um aro de ouro preso ao atacador de listão.
— Esta? respondeu a moça faceiramente. Esta é outra história. Foi um caso que a todos admirou.
— Na cavalhada mesmo?
— Sim; foi a última sorte. Num mastro que estava erguido para êsse fim no meio da praça, suspenderam de um fio de sêda êste argolão de ouro, com as fitas a voar como se fossem galhardetes. Era o prêmio mais invejado por todos os cavalheiros para terem o orgulho de o ofertar à dama de seus pensamentos e porisso também a proeza demandava maior esfôrço e destreza, pois além de ficar o argolão muito alto, com o tremular das fitas sopradas pelo vento estava em constante agitação.
— E eu já sei quem ganhou! disse Alina.
— Sabe você mais do que eu, menina.
— Como então?
— Escute. Os cavalheiros armaram-se de umas lanças finas, muito compridas para poderem chegar ao tope do mastro, e ainda assim era preciso que se erguessem sôbre os estribos para alcançar o alvo. Da primeira investida nenhum tocou na argola, nem da segunda: e de ambas ela, muitos dos campeões no ímpeto de mostrar sua proeza, levantaram-se tanto dos arções, que rolaram em terra.
— Coitados! disse Alina a rir.
— Na terceira investida poucos restavam; e dentre êstes, o mais esforçado e brioso era o capitão Marcos Fragoso…
— Eu já esperava!
— Por que menina?
— Pois não foi êle que primeiro lhe ofereceu a argolinha?
— Que tem isso?
— Tem que o cavalheiro de D. Flor por fôrça que havia de ser o mais brioso e esforçado de quantos lá estavam.
— E se fossem dois os meus cavalheiros?
— Devéras?…
— Foi o que aconteceu. O Marcos Fragoso que ia na frente, com um bote certeiro enfiou o argolão na ponta da lança.
— Bravo!
— Mas ao mesmo tempo outro cavalheiro que vinha contra êle à disparada, também com a lança em riste, enfiava o argolão pelo outro lado, de modo que os dois ferros ficaram atravessados em cruz.
— E êsse cavalheiro, quem era?
— Não se soube. Via-se que não era dos campeões, pois estava com trajo de cidade; e além disso tinha a cara amarrada com um lenço que lha cobria toda, deixando apenas a descoberto os olhos, por baixo da aba do chapéu.
— Que bioco!
— Houve quem visse o embuçado sair do meio do povo, pular na teia, apanhar a lança no chão, saltar na sela de um cavalo desmontado que passava, e correr sôbre o mastro, onde chegou justo no momento em que o Fragoso ia tirar o argolão, e para lho disputar.
— E o que sucedeu?
— Os dois campeões forcejaram cada um de seu lado para arrancar o argolão, mas não o conseguiram. Foi então que o desconhecido correu sôbre o seu contrário e arrebatou-lhe a lança da mão. Todos aplaudiram a façanha, menos o Fragoso que ficou passado no meio da praça, enquanto o vencedor, chegando ao palanque onde eu estava apresentou-me o argolão na ponta das duas lanças, repetindo - «À mais formosa».
— E você, Flor, o que fez?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.