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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Já se afastava da roda a menina, quando arrependendo-se ou talvez sentindo o arrojo do estro que também ela cultivava como flor agreste, voltou-se com um riso brejeiro, e ao som da viola tangida pelo carneador, atirou-lhe com a pontinha do beiço esta resposta. 

Sou canoa pequenina  

Do rio do Jaguarão… 

Repetiu duas vezes este começo, dando tempo talvez para acudir-lhe a rima; por fim terminou assim: 

Sou canoa pequenina  

Do rio do Jaguarão, 

 

Não vejo barco à bolina, 

O que vejo é tubarão. 

 

A última palavra foi acompanhada de uma careta, com que a Catita procurou, insuflando as bochechas, arremedar ao carneador. Uma estrondosa gargalhada, que desnorteou o sujeito, aplaudiu por muito tempo o epigrama da menina. 

Corrido, o tocador para não dar o braço a torcer, ainda continuou por alguns instantes a baralhar desengraçadamente na viola, até que descartou-se dela entregando-a ao Félix. 

Por sua vez o rapaz fez seus requebros à Catita, que ria-se, mas não lhe dava corda. Havia no trato da menina para com o oficial da tenda de seu pai um ar de superioridade, que percebiase à primeira vista, e contra o qual Félix não se revoltava; ao contrário o aceitava com humilde submissão. Essa arrogância que ele não sofreria do mestre da tenda, nem de qualquer outro homem, causava-lhe íntimo prazer . via nela um sinal do bem que Catita lhe queria. 

Entretanto o Canho, tendo afrouxado a cincha do Morzelo, enquanto descansava, aproximou-se da roda para ouvir os descantes e assistir ao passatempo, não perdendo de vista a Morena e o poldrinho que excitavam a admiração e os gabos dos entendidos. 

Catita foi uma das que se recostaram ao parapeito do alpendre para festejar o Juca, nesse dia de uma travessura e gentileza sem igual. Ora gambeteava como um cabrito pela rua afora, subindo ao respaldo das casas; ora começava a fazer afagos e negaças à mãe, pronta sempre a brincar com ele.  

Vendo a menina debruçada no parapeito e desejoso de chegar-se, Félix ofereceu a viola a quem desejasse. 

— Então, gente, não há quem queira? 

Ao que parecia, já estavam todos satisfeitos da brincadeira, pois nenhum dos peões tomou o instrumento, pouco havia tão disputado. 

— Já que ninguém quer!… disse o Canho estendendo a mão. 

Depois de afinar a viola, e acertar um acompanhamento simples e fácil, porém vivo como o trinado do sabiá, o Canho, encostando-se na ombreira da porta e erguendo os olhos ao céu, como quem procurava ali no azul diáfano o raio da inspiração, começou a descantar. 

Sua voz era cheia e sonora. Apesar de um tanto áspera, não deixava de haver doçura nas notas vibrantes que se desprendiam de seus lábios; mas era a harmonia agreste dos lufos do vento no descampado, ou do canto da seriema na macega do banhado. 

Começou ele atirando o mote de seu descante, neste rápido estribilho: 

Livre, ao relento,  

Pobre, sem luxo, N’asa do vento  Vive o gaúcho. 

A atenção geral foi vivamente excitada. As pessoas presentes fizeram roda e ficaram suspensas dos lábios do Canho, cuja fisionomia torva de ordinário, brilhava nesse momento iluminada por lampejos de inspiração. 

 

O TURBANTE 

 

Depois de uma pausa, o Canho feriu de novo as cordas da viola. A roda se apoderara do estribilho, que repetiu em coro, respondendo Manuel alternadamente ao mote com uma das coplas da cantiga. 

Livre, ao relento,  

Pobre, sem luxo,

N’asa do vento

Vive o gaúcho. 

 

Quanto possui, traz consigo, 

Dorme no chão sobre a grama,

Serve-lhe o poncho de abrigo, 

A xerga da sela é cama. 

 

Livre, ao relento, etc. 

 

No banhado, na coxilha,  

Onde pára, chega em casa; 

Dá-lhe o churrasco a novilha,

Dos ossos arranja a brasa. 

 

Livre, ao relento, etc. 

 

Ainda não rompe a aurora, 

Já no rancho o mate chupa; 

Por estes campos afora, 

Sempre a correr. Upa!… Upa!… 

Livre, ao relento, etc. 

No rio é barco, navega, 

Montado no seu cavalo;

No campo faísca e cega 

Saltando por sanga e valo. 

 

Livre, ao relento, etc. 

 

Ponteiro como o tufão,  

Rompendo os montes d’areia,

Pincha a manopla da mão 

Que o touro feroz boleia. 

 

Livre, ao relento, etc. 

 

Vence o ginete ligeiro

Na caça o veado arisco.

Tem as asas do pampeiro,

Tem o fogo do corisco. 

 

Livre, ao relento, etc. 

 

A ema veloz alcança, 

Como um gigante, seu braço,

Que rijo meneia a trança 

E longe arremessa o laço. 

 

Livre, ao relento, etc. 

 

Arreda! Arreda!… No campo 

Lá vem roncando a borrasca.

Não é trovão, nem relampo, 

Mas sim a fúria dum guasca. 

 

Livre, ao relento, etc. 

 

Senhor de todo este pampa

Que tem o céu por dócil; 

Rei do deserto, ele campa

No trono do seu corcel. 

 

Livre, ao relento, etc. 

 

S’está na vila ao domingo,

Na toada da viola

As saudades de seu pingo 

Cantando, o peito consola. 

Os aplausos que por diversas vezes tinham interrompido o trovador, prorromperam afinal. Onde aprendera o gaúcho letra tão bonita? Era tirada de sua cabeça, ou tomada de alguma cantiga que ouvira nas cidades? 

(continua...)

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