Por José de Alencar (1873)
Não podia o Dr. Mustre cogitar melhor desforra contra o prelado do que essa que lhe acabava de sugerir o Garatuja.
Vendo-se apoiado pela efervescência popular, e podendo em todo o tempo escusar-se a pretexto de coato, decidiu-se o magistrado a responder à mitrada com uma chibatada de sua vara branca de ouvidor.
— Despachar os leitos com a maior presteza, é da obrigação do juiz: como é da minha satisfação prover as urgências dos povos de minha jurisdição, e deferir as suas súplicas, sendo elas fundadas em boa razão. Esperai enquanto torno!
Já se dissipara o atordoamento em que havia caído o Sebastião Ferreira; mas ao passo que fora saindo desse embotamento moral, o começara a invadir uma sorte de embriaguez; era a carraspana dessa jerebita, que chamam popularidade, e à qual não resistiam os pacíficos tabeliães de outrora, como também não lhe escapam hoje os nédios ç maciços barões.
Vendo-se à testa daquele ajuntamento de gente, que requeria dos ministros d’El-Rei em tom de mando, e não de súplica, o nosso tabelião revestiu-se da sua importância de cabeça dos povos de São Sebastião, e enchendo-se de entusiasmo, exclamou:
— A sentença, senhor ouvidor, pois se recusais a estes povos a justiça real, não estranheis que apelem eles para a justiça de Deus!
— Sim, apelaremos!
— Apelemos já!
— À toca do padre!
— Deite-se fogo à casa!
— Devagar, camaradas, clamou Ivo; é preciso fazer as cousas em regra. Se os bichos têm de ir lá parar, que vão com todas as cerimônias.
— Assim é!
— Esperemos a sentença.
Esta não se demorou. Breve assomou de novo à porta o Dr. Mustre, que deu leitura do decreto judicial pelo qual declarando procedente a devassa, sujeitava a prisão e livramento aos minorenses, fâmulos do prelado, ordenando se incluísse seus nomes no rol dos culpados, e se expedisse mandado de captura.
Com uma salva de aplausos foi acolhida a sentença, da qual o escrivão ad hoc lavrou logo o termo de publicação, passando incontinenti o mandado de captura, que foi entregue aos beleguins da Ouvidoria para o cumprirem com assistência dos povos.
Poucos momentos depois atopetava-se a multidão na Rua da Quitanda em frente da morada do prelado, cuja cerca foi invadida, e posta em sítio a casa. Esta conservava-se fechada como estava, e em silêncio, apesar do vozerio e burburinho do povo. Adiantou-se o beleguim, e batendo na porta com a vara, proferiu a seguinte intimação:
— Em nome d’El-Rei, e por ordem do senhor ouvidor-geral, intimo os moradores da casa, ou quem nela estiver, a que abram a porta a fim de cumprir a diligência que me foi ordenada, e não o fazendo à 3ª notificação, procederei a arrombamento e penetrarei à viva torça e de mão armada, se for preciso.
Mal acabava o beleguim, que de supetão abriu-se a porta e assomou nela o vulto do prelado.
— Retirem-se, desavergonhados, que não se pisa a soleira desta casa, sem nossa vênia!
— Vênia? Nós do povo lha escusamos.
— Avie com isso, meirinho!
Impelido pelo arrojo do popular, o meirinho desenrolou o mandado:
— Com o presente mandado de captura, requeiro a Vossa Reverendíssima, Sr. Dr. Manuel de Sousa Almada, que entregue à prisão os seus fâmulos, Cláudio de Sousa...
— Insolente, bradou o padre, cuja cólera fez explosão. Desafio-te e a essa canalha, que transponham o batente desta porta. Aquele que o fizer será maldito; em nome de Deus o excomungo, e o teto desta casa se abata sobre os ímpios que a profanarem.
Ante essa execração, feita com gesto solene e voz retumbante, a multidão recuou pávida; mas ali estavam os estudantes para meterem o padre a ridículo, desarmando-o assim do prestígio que devia exercer no espírito daquela gente.
Rapazes, em lhes dando para rir, não respeitam as cousas mais sagradas: assim que soltaram os garotos um chorrilho de impropérios:
— Como grunhe o cevado! gritou um brejeiro, aludindo ao painel.
— Anda lá, acudiu outro farsola; deite os bacorinhos para fora!
Romperam as gargalhadas e chacotas com que a multidão, de novo excitada, assaltou a casa do prelado.
Terríveis deviam ser as conseqüências desse embate da onda popular, e não era dado prever os excessos que praticaria essa plebe, irritada com a resistência, e dirigida por meia dúzia de rapazes estouvados.
— Entregue os réus!
— Queremos os minorenses!
— Havemos de trancafiá-los na cadeia.
O prelado esmagou-os sob o olhar altivo e recolheu-se com a dignidade de um ministro da Igreja.
XXVI
AINDA UMA VEZ SE PROVA QUE O POVO É EM TODOS OS
TEMPOS A MESMA CRIANÇA TRAVESSA, A QUEM SE
ENGAMBELA COM UM DOCE OU UM BONECO
Felizmente nesse momento da ‘maior exacerbação, apareceram ali os camaristas, acompanhados de outros moradores que andavam na governança da terra e tinham preponderância sobre o povo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.