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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

Eram uns caboclos entroncados, de tez morena e baça, e musculatura seca e poderosa. Não eram caucheiros. A palavra remorada não lhes vibrava na fanfarrice ruidosa. Ao invés de um tambo, improvisaram um tejupar mal arranjado. Não se armaram do cuchillo, misto de punhal e de navalha. Pendiam-lhes à cintura as facas de arrasto, longas como as espadas.

Aperceberam-se sem ruídos para a empresa e penetraram, vagarosamente, na floresta...

Não se conhecem as peripécias da entrada temerária, que foram sem dúvida excepcionalmente dramáticas. Os caxibos têm no próprio nome a legenda da sua ferocidade. Caxi, morcego; bo, semelhante. Figuradamente: sugadores de sangue. Ainda nos seus raros momentos de jovialidade aqueles bárbaros assustam, quando o riso lhes descobre os dentes retintos do sumo negro da palmeira chonta; ou estiram-se de bruços, acaroados com o chão, as bôcas junto à terra, ululando longamente as notas demoradas de uma melopéia selvagem.

Atravessaram, indenes na bruteza, trezentos anos de catequese; e são ainda a tribo mais bravia do vale do Ucaiáli.

Mas ao que se figura não pulsearam com vantagem o vigor nos novos pioneiros.

É que o bárbaro sanguinário tinha pela frente, enterreirando-o, um adversário mais temeroso, o jagunço.

Os recém-vindos eram brasileiros do Norte; e o seu patrão, Pedro C. de Oliveira, mais um modelo de lidador obscuro aparecendo em lances de fecundas iniciativas entre os acontecimentos de uma história estranha. Para aquilatar-se-lhe a valia, observemos de relance que em janeiro de 1900 foi nomeado, apesar da sua nacionalidade, governador de toda a zona que o seu barracão centralizava.

O Coronel Portillo, que ali deparou agasalho sincero sem o pregão de rasgados oferecimentos, tão característico da nossa gens obscura, trai em todos os conceitos que emitiu no seu relatório — desde o primeiro dia até desperdir-se da "muy estimable familia del señor Olivera", o encanto que lhe causou a estância animadíssima no centro de suas culturas fartas, e inteligentemente locada com as numerosas vivendas circulantes no alto da barranca, a prumo sobre a margem esquerda do rio, que se alcançava subindo uma longa escadaria resistente e tosca. Cativaram-no, sobretudo, os valentes tranqüilos que se lhe mostraram modestíssimos em pleno triunfo sobre a barbaria e a terra. Por fim, à sua visão esclarecida não escapou que aquele forasteiro, sem um decreto e sem uma subvenção, resolvera o problema colimado pelo governo de seu país, fundando no lugar mais conveniente a estação garantidora da "via central" demandando a Amazônia. Disse-o nuamente: Pôrto Vitória era o lugar mais apropriado para a guarnição militar e alfândega que protegessem a importação e exportação da colônia de Chanchamayo, norte de Pajonal, Tarma e montañas do Palcazu, Matro e Pozuzo.

Concluiu: "La casa de Olivera debe ser tomada por el Supremo Gobierno como la más aparente para las oficinas de la capitania, aduana e comandancia militar."

Foi aceito o alvitre. Um decreto do Presidente Pierola ordenou a demarcação de Puerto Victoria para estabelecer-se comissária destinada a proteger os colonizadores daquelas terras; e num grande ciúme da situação vantajosa adquirida revelou o intento de uma posse exclusiva "no consentiendo, alli, en el radio de un quilómetro, poblador alguno".

O Peru conseguira realmente uma estação fluvial admirável. E os brasileiros retiraram-se.

Passaram cinco anos.

Em 1905 um touriste parisiense, J. Delebecque, desceu o Pachitéa, em viagem para o Amazonas, e não notaria a estância outrora florescente se não o acompanhassem alguns índios mansos conhecedores dos lugares.

No alto da barranca, que os enxurros solapavam, viam-se apenas alguns tetos abatidos e restos de culturas afogadas num carrascal bravio.

O Pôrto era uma ruína.

O viajante ali permaneceu por algumas horas a fim de secar as suas roupas encharcadas ao calor de uma fogueira feita com as portas desquiciadas e ombreiras vacilantes das vivendas, consoante praticam todos os que por ali passam na travessia de Iquitos; e considerou, melancolicamente, que daquele jeito Puerto Victoria seria em breve apenas uma recordação.

Depois abalou rio abaixo, a toda a voga, fugindo da paragem que se ermana no mais completo abandono...

Transacreana

A carta da Amazônia, no trato que demora ao ocidente do Madeira, é o diagrama de seu povoamento inicial. A história da paragem nova, antes de escreverse, desenha-se. Não se lê, vê-se. Resume-se nos longos e torturosos riscos do Purus, do Juruá e do Javari.

(continua...)

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