Por Lima Barreto (1922)
O Governo, como atualmente procede com as bandas de música militares, poderá alugar fracções da 'Guarda', ou mesmo ela completa, a particulares que pretendam realizar manifestações honestas e republicanas; e, com isto, obterá uma segura fonte de renda para o erário nacional.
Tudo indica que nela haja algumas centenas de praças e uma ou duas dúzias de oficiais conhecedores do entusiasmo inglês, francês, china e abexim para as manifestações a grandes personagens abexins, chineses, franceses e ingleses.
Toda a corporação congênere deve ser proibida pelo governo, e na Guarda' é bom que o comandante admita algumas dezenas de homens robustos capazes de puxar carros de heróis ambulantes ou atrizes fascinadoras. Às vezes, temos visto o entusiasmo exigir esse glorioso serviço...
Se no mercado comum de homens robustos não se encontrarem músculos capazes para tão nobre atividade, é bom que sejam contratados alguns lutadores de luta romana, mesmo porque, procurando dar às manifestações um cunho de novidade, pode haver quem proponha levantar-se a carruagem dos 'manifestados' de sobre o vulgar chão de asfalto".
Estas palavras vinham eivadas de tanta lógica que logo convenceram os governantes da Bruzundanga da verdade e da necessidade que encerravam; e não demorou um mês que a "Guarda" fosse organizada, apesar de se terem apresentado como candidatos a lugares dela quase todos os habitantes de Bosomsy.
CAPÍTULO XVII
ENSINO PRÁTICO
Notando os grandes estadistas da Bruzundanga que o comércio do país estava nas mãos de estrangeiros, resolveram com todo o patriotismo retirar o monopólio da mercancia, quer por atacado quer a varejo, das mãos de estranhos ao país.
Os economistas tinham mesmo verificado que a exportação de dinheiro que os grandes e pequenos negociantes faziam para os seus países de origem, sobrepujava à do café; e, longe do comércio da nação enriquecê-la, empobrecia-a mais até do que a da venda aos estrangeiros da famosa rubiácea que constituía a sua riqueza.
Foi então que para sanar tão lastimável estado de cousas, para nacionalizar o comércio, alguns homens de boa vontade tomaram a iniciativa de fundar, em Bosomsy, um alto estabelecimento de instrução comercial, nos moldes alemães e americanos, isto é, inteiramente prático. Vou em rápidas palavras dizer-lhes como eles o projetaram e para tal, nada mais farei do que transcrever para aqui as partes essenciais do programa que estavam distribuindo quando saí da grande República e as conversas que com eles tive.
Era intuito dos fundadores da Academia Comercial banir do seu ensino todo o pedantismo, todo o luxo teórico; fazê-lo prático, moderno, à yankee.
De tal modo o queriam assim que ao fim de um curso de pequena duração, o aluno pudesse, sem dificuldades e hesitações, colocar-se à testa de uma loja e geri-la com o desembaraço e a segurança de velho negociante com vinte anos de prática.
Além de negociantes propriamente, a Academia visava sobretudo formar magníficos caixeiros, magnéticos, com virtudes de ímã, capazes de solicitar, de empolgar, de atrair a freguesia.
Para a boa Compreensão dos leitores que mal conhecem certamente os usos daquele país e os aspectos da sua capital, os exemplos locais de hábitos de comércio, que me foram fornecidos pelos fundadores da Academia, serão por mim dados aqui com similares cariocas. Continuemos.
Os cursos da Academia Comercial da Bruzundanga não ficarão instalados em um enorme edifício, grandioso e inútil para os fins a que se destina, e sobremodo favorável à criação de um espírito de escola, de camaradagem, indigno da luta comercial. As aulas funcionarão em pequenas casas, situadas nas regiões da capital em que atualmente mais florescem os gêneros de comércio que os alunos pretenderem aprender.
Conversando com um dos iniciadores, tive ocasião de receber a confidência da metodologia própria ao estabelecimento. Lembro ainda que os exemplos são transferidos das coisas de lá para as daqui.
Assim, em uma espécie de Rua da Alfândega de Bosomsy, entre as equivalentes de lá às nossas do Núncio e São Jorge, será estabelecido o curso de venda ambulante de fósforos.
A aula ficará a cargo de um velho "turco" afeito ao negócio, cujas calças curtas, denticuladas nas extremidades, beijam a fugir os canos das botinas muito grandes e deixam ver, de quando em quando, dous bons pedaços de suas canelas felpudas.
Possuidor de voz roufenha e lenta mas penetrante e persuasiva, toda a manhã, o venerável catedrático, no centro de jovens discípulos, marcando o ritmo com uma varinha auxiliar, fá-los-á repetir uma, duas, mil vezes:
— "Fofo barato! fofo barato! duas caixa um tostão!"
Este curso durará seis meses, dando direito a um atestado de freqüência.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.