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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Como é que se consentia semelhante importunação em uma capital que tinha foros de civilizada?

Oh! em Pernambuco o italiano que se lembrasse de tocar realejo à porta de uma república era imediatamente punido a batatas e a cascas de laranja. Estava muito atrasadinho o Ceará!

Gostava pouco de ir ao Passeio, o que fazia raríssimas vezes a convite de José Pereira, que comparava aquilo a um paraíso.

— O Passeio Público? dizia ele; o Passeio Público é um dos mais belos do Brasil, é a coisa mais bem-feita que o Ceará possui. Que vista, que magnífico panorama se aprecia da Avenida Caio Prado, à tarde! Nem o Passeio Público do Rio de Janeiro!

E justificava o antibairrismo do estudante.

— É que tu tens passado a melhor parte da tua vida na Corte e em Pernambuco, menino, dizia ele. Se vivesses algum tempo nesta terra, havias de gostar extraordinariamente. Mas o que te posso afirmar é que no Brasil não há uma cidade tão bem alinhada como esta, uma iluminação mais rica do que a nossa e um Passeio Público assim como este.

— Não duvidava, não duvidava, mas o Ceará ainda estava muito atrasadinho, lá isso estava.”

Afinal, chegou o momento que Maria do Carmo aguardava com a impaciência febril de um desesperado. O redator da Província e o Zuza tinham deixado o grupo de políticos e aproximavam-se a passos lentos. Ao passarem pelas normalistas a Campelinho levantou-se e, muito desembaraçada, com esse tic indizível das raparigas habituadas à convivência dos homens e à vida elegante, dirigiu-se aos dois amigos, saudando-os rasgadamente com um belo sorriso aristocrata:

— Como passou, Sr. José Pereira?... Sr. Zuza...

— Oh! minha senhora... fizeram os dois ao mesmo tempo.

E a Lídia, depois de perguntar a José Pereira, com quem tinha alguma familiaridade, se vira, por ali, D. Amélia, e com uma ponta de cinismo, dirigiu-se ao Zuza.

— Que tal o passeio, Sr. Zuza?

— Esplêndido, minha senhora! Está de encantar!

— Isto é um inimigo do Ceará, D. Lídia, atalhou José Pereira rindo, com a sua voz muito grossa, os dentes muito brancos e pequeninos. Isto é um vândalo!

— Vândalo, não. Sou apenas um admirador, um amante do progresso. A meu ver, repito, o Ceará tem muito ainda, mas mesmo muito (e deu umas castanholas com o dedo) que andar para ser uma capital de primeira ordem.

— Eu já sabia que o Sr. Zuza não gostava da terra de Iracema, disse a normalista.

Maria tinha se deixado ficar à distância, sentada num banco de madeira encostado a uma árvore, na meia sombra que havia de um lado da avenida, quieta, imóvel, acaçapada, como uma coisa à toa... Sentia-se cada vez mais tola, mais matuta e insociável.

A presença do acadêmico punha-lhe calafrios na espinha, e vinha-lhe logo um desejo vago de isolar-se e não dizer palavra. Não sabia o que aquilo era; o certo é que a presença do Zuza hipnotizava-a, fazia-lhe perder a cabeça, como se estivesse diante de um monstro, de uma criatura misteriosa, cujo poder sobre ela fosse enorme.

Zangava-se consigo mesma nesses momentos. Já estava em idade de perder todo o acanhamento, e, que diabo! atirar-se à vida, à sociedade, sem medo, sem receios infundados, sem pieguismos. Bolas! De si para si tornava a jurar nunca mais ter medo de homem algum, mas no outro dia era a mesma da véspera, fraca, impotente para dominar-se.

— Pois estamos distraindo o espírito, tornou a Lídia. A avenida Caio Prado está muito cheia; vimos apreciar o movimento daqui, da Avenida dos Charutos.

O Zé Povinho denominava Avenida dos Charutos a avenida Carapinin por ser mais freqüentada por gente de cor, e Lídia achava muita graça naquilo, não podia acertar com o verdadeiro nome da sombria aléia, ponto dileto de cozinheiras e raparigas baratas da rua da Misericórdia.

— Ah! fez o Zuza. Então V. Exª não veio só...?

— Não, não. Vim com a minha amiga inseparável.

E voltou-se para Maria, que fingia olhar para o coreto da música.

— Quem, D. Maria do Carmo? perguntou José Pereira voltando-se também.

— Sim, a Maria...

— Oh! exclamou o redator dirigindo-se para a normalista. Está triste hoje, D. Maria? Uma moça bonita não se deixa ficar assim, na sombra. Como vai, como tem passado, boazinha? Sempre acanhada!... Venha, faz favor? quero lhe apresentar a um moço muito chique e que lhe aprecia muito.

Quem, o Sr. Zuza? Ela já conhecia. Estava descansando.

— Ó Zuza!

O acadêmico e a Lídia aproximaram-se. E José Pereira num tom de cortesia:

— Apresento-te aqui a Sra. D. Maria do Carmo, normalista, e uma das moças mais distintas da nossa sociedade, uma flor!

Riram-se todos àquele disparate premeditado, pondo uma nota alegre nesse obscuro recanto do Passeio.

— Oh! Já se conheciam? Não sabia, por Deus! Então já conheces a moça mais bonita do Trilho de Ferro, hein? Uma coisa que não sabes: faz versos também...

Maria cumprimentou o estudante com um modo muito discreto, conservandose sentada, aflita.

(continua...)

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