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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— Havera de ser, replicou a velha. Os homens bem se importam com os xerimbabos das mulheres!

A mulher do Costa e Silva entrou na conversa.

— Nós também vamos depois de amanhã, mas é para os castanhais.

— Oh, os castanhais são outra coisa, disse D. Eulália, aquilo é um regalo em comparação com o sítio. Ao menos, lá vai muita gente.

— Eu acho que este ano ninguém fica, tornou a mulher do Costa e Silva, satisfeita da inveja que inspirava. Há de haver muita festa! — Gran-chaine! gritou o Pedrinho Sousa.

D. Basilisa aproveitou a ausência da mulher do Costa e Silva, para consolar a amiga que não ia aos castanhais.

— Esses castanhais, disse, são a perdição de muita gente. Ainda hoje o senhor padre Antônio falou tanto deles! Queira Deus não aconteça alguma coisa aos que vão para lá.

E quando a mulher do Costa e Silva voltava, a velha abaixou a voz, sacudindo a cabeça:

— Queira Deus, queira Deus!

Macário era da opinião daquela velha. Pela manhã, padre Antônio de Morais havia provado que os castanhais eram uma perdição. Pobre da mulher do Costa e Silva, não sabia o que lhe aconteceria, se fosse aos castanhais!

A quadrilha terminava, os pares separavam-se, o Manduquinha Barata parecia procurar alguém para objeto de troça. Macário retirou-se e voltou para a alcova. O Manduquinha ali o veio encontrar, trazendo a filha do Valadão pelo braço, procurando um licor para oferecer-lhe. Macário fugiu para o corredor. O Valadão agarrara o Bernardino Santana, e, tossindo, tomava-lhe uma satisfação. Por que diabo havia convidado para o baile aquele patife do Chico Fidêncio? Numa casa séria não devia entrar um homem como aquele, que, além de tudo, vivia amasiado. Ele, Valadão, não podia perdoar ao Chico Fidêncio os desaforos que lhe dissera pelo Democrata, e ainda ultimamente aquela pouca-vergonha no desembarque ó senhor vigário. Era um homem que não respeitava coisa alguma, e descompunha a religião e até ao senhor bispo. Homens daquele teor não se convidavam para bailes. O Bernardino, com uma bandeja cheia de copos na mão, desculpava-se:

— Foi o rapazinho que o convidou. Dá-se com ele lá da loja do Costa e Silva, e quer que ele dê a noticia no Democrata.

— É um patife, tornou o Valadão o tossindo, colérico. Fui obrigado a deixar de jogar por causa dele. Estava bem por trás de mim, rindo-se cada vez que os outros me atribuíam uma pexotada!

E cerrando os punhos, num furor:

— Olhe, seu Bernardino, eu sou incapaz de matar um carapanã, mas aquele patife... recrutava-o, se me deixassem.... E aquilo convida-se para bailes!

— Mas, Valadão...

— Não tem mas nem mês, nem peça de entremez! berrou o homem, de olhos vermelhos e boca espumante.

E gritava para ser ouvido de toda a gente:

— Um sujeito que vive amasiado com uma mulata! Quem tem filhas não mete em casa um tipo assim!

— Mas eu não tenho filhas, balbuciava o Bernardino Santana, desorientado, sem saber o que fizesse da bandeja, e implorando desculpas às pessoas que chegavam, curiosas.

Súbito, o Valadão adiantou-se para a filha, numa indignação solene:

— Minha filha, vamos embora. Isto aqui não é casa!

Dum grupo surgiu a cabeça trigueira do juiz municipal, cuja luneta faiscava. Ouviu-se a sua voz seca, irritante:

— A mim fizeram-me uma desfeita, mas graças a Deus, tive educação, não estou acostumado a receber desfeitas!

Que seria, por que estava tão zangado o tenente Valadão? A filha chorava, o Quinquim da Manuela, pobrezinho! estava muito comovido. As senhoras, achando que aquele escândalo punha remate à festa, procuravam os chales, assustadas. Havia, pelos cantos, buscas ansiosas de chapéus e guarda-chuvas. Da cozinha as mulatas, as negras e os moleques afluíam, curiosos. Toda a gente estava interessada no incidente. só o Totônio e a Milu não davam fé do que se estava passando, e, a um ângulo da sala, cochichavam quase abraçados, como na polca. O dono da casa procurava acalmar o irascível amigo. Outros homens intervinham. O Valadão, duro, insistente, tossindo a arrebentar, pedia que lhe abrissem passagem, porque queria sair daquela casa.

O Cazuza Bernardino teve uma inspiração. Foi pedir aos músicos que dessem um sinal de quadrilha. A orquestra obedeceu. O Cazuza veio para o meio da sala, e, batendo palmas, gritou:

— Quadrilha, meus senhores!

O círculo que fechava o Valadão, abriu-se. Os rapazes correram para a sala. O Valadão e a filha saíram sem se despedirem. Bernardino ficou algum tempo calado, olhando para o capitão Fonseca, o Costa e Silva e para o Neves Barriga, estudando a impressão causada pelo incidente. Depois, num gesto de desenfado, explicou com franqueza:

— Ora, aquilo é o diabo da cerveja!

— É uma desgraça, lamentou o Mendes da Fonseca. Basta o primeiro copo.

— O Valadão é boa pessoa, formulou o Costa e Silva, mas não pode beber.

— E mata-se, prognosticou o Regalado.

— Lá se avenha, filosofou o Bernardino, sacudindo os ombros.

E foi dar providencias sobre o chá, fazendo voltar para a cozinha a criadagem que se apinhara à porta da sala de jantar.

(continua...)

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