Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Você não é sincera, Luzia; não confia, talvez, em mim. Ninguém é superior ao próprio infortúnio; e mais humano, mais nobre, é confessá-lo que o sufocar ou esconder. Sofre-se mais no repúdio à consolação e ao lenitivo... É possível que não tenha consciência do estado do seu coração, ou não saiba explicar o que, nele, se passa? Não é crime amar, e Deus abençoa o amor das criaturas honestas, como um sagrado impulso da natureza, tanto mais forte quanto mais contrariado. Você é mulher forte. Os seus afetos devem ser mais intensos e impetuosos que os das outras, frágeis e passivas, entre quem vive deslocada, sempre como estranha, porque não foi feita para nascer e viver entre essa gente. Nisto consiste a sua infelicidade. Você sente que, em volta, entre os seus amigos e conhecidos, ninguém a compreende e a estima como merece. Daí, é fácil imaginar quanto sofreria se viesse a amar algum indigno de você... É um desastre que, vulgarmente, acontece, causando desgraças irremediáveis...

— Por que me diz isto?

— Sabe que, nesse trama, contra Alexandre, aparece uma rapariga que o acusa?

— A Gabrina...

— Como soube?...

— Alexandre, ainda há pouco, contou-me tudo...

— Ah!... Ele lhe falou nisso?!... E você?...

— Que importa... Tanto se me dá que ele queira bem a ela como a outra qualquer...

— Empenha-se ainda em libertá-lo?...

— Por certo. Não penso noutra coisa...

— Admirável!...

— Puno por ele porque me diz o coração que está inocente. Ainda que fosse culpado, confessasse o crime, eu não era capaz de abandoná-lo na desgraça...

— Mesmo tendo cometido o crime por causa de outra mulher?

— Que tem isso?... Ele é senhor do seu coração, pode dá-lo a quem quiser. Demais, querer bem não é obrigação. Eu não poderia exigir que ele me pagasse alguns serviços de amizade, ligando-se a mim, ele um moço branco, eu uma pobre mulher de cor, sem eira nem beira, com à mãe doente às costas, neste tempo de seca e carestia de tudo. Além disso, ninguém gostaria de casar com uma criatura, que tem o apelido de Luzia-Homem, como esse que o meu fado ruim me deu...

— De homem só tem a força; é bem bonita rapariga... Que pretende, então, fazer?...

— Quando Alexandre for solto, pego em minha mãe, que está melhor, e marcho para a praia, como os outros retirantes.

— Você é uma extraordinária criatura, Luzia. Cada vez mais interesse me desperta...

— Reconheço que faz isso por bondade de santa... Só lhe peço que se empenhe com seu doutô para acabar esse tal de inquérito, para libertar Alexandre e a mim, que não devo me arredar daqui, enquanto ele padecer...

— Fique descansada. Farei o possível... Aqui para nós... Meu marido não acredita na história da tal Gabrina; desconfia mesmo que ela foi insinuada...

— Ah! Não acredita, não é?!.. acudiu Luzia, com estranha vivacidade, iluminado rosto, num fulgor de vitória.

— Pobre coração, que te atraiçoas – observou dona Matilde, sorrindo, deliciosamente irônica.

— Gabrina é ingrata e vingativa como uma cobra...

— Meu anelo é que você e meu marido tenham razão, mas desconfiarei até verificar a verdade... Oh! os homens...

— A senhora é ciumenta?...

— Como uma leoa, como toda a mulher apaixonada até à loucura...

Luzia espetara na bela senhora, os olhos espavoridos, onde havia algo de surpresa e prazer, ante a revelação, que estalou vibrante.

—Deve ser assim – murmurou como se monologasse – Raiva de onça contra quem lhe bole na carniça, ou lhe rouba os filhos... Fui má; ofendi Alexandre. Agora é tarde... O que está feito não está mais por fazer...

— Não desespere, Luzia. É bem possível que tudo acabe do melhor modo e você seja recompensada de tantas aflições e cuidados. Tenha coragem. Não se amofine. Não quero que os meus belos cabelos embranqueçam por muito apurar o juízo em coisas tristes...

— A senhora é do céu, dona Matilde.

— Vá sossegada que, hoje mesmo, à tardinha, cuidarei da sua causa. —Faça isso. Será obra de caridade, que não cairá no chão.

Luzia, retendo as lágrimas, rorejantes nos negros olhos anseios, e muito grata, beijou-lhe as mãos brancas, duma maciez fina de camurça, e partiu.

Na rua, atravancada por enormes e pesados carros toscos, arrastados por muitas juntas de bois magros, escapados da devastação do gado, carros de pesadas rodas inteiriças e oblongas para que as excrescências do círculo, os tombadores, diminuíssem o esforço da tração, sobrecarregados de fardos, caixas de víveres e mercadorias, amarradas entre os altos fueiros; por entre eles e os bois, deitados, rendidos de fadiga, e ruminando tranqüilos, sonolentos, e os lábios cinzentos, lubrificados de baba espessa, deslizava a intérmina torrente de retirantes andrajosos, esquálidos, torpemente sórdidos, parando de porta em porta, a mendigarem uma migalha, ossos, membranas intragáveis, os resíduos destinados a repasto de cães.

No largo da feira, a aglomeração asfixiava em redor das vendas ambulantes de mantimentos, expostos em caixões, sacos, sob os tamarineiros, trapiás frondosos, à sombra de toldos de estopa, manchada de largos remendos variegados.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3334353637...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →