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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Ah, então não é supersticiosa?...

— Não, felizmente. Além disso - e abaixou a voz, rindo-se mais - ainda que acreditasse, não corria risco... dizem que o quebranto só ataca em geral as pessoas bonitas...

E sorriu para Raimundo.

— Nesse caso, é prudente acautelar-se... volveu ele galanteando.

E, como se Ana Rosa lhe chamara a atenção para a própria beleza passou a considerá-la melhor; enquanto a velha taramelava:

— Meu caro senhor Mundico, hoje em dia já não se acredita em coisa alguma!... por isso é que os tempos estão como estão — cheios de febres, de bexigas, de tísicas e de paralisias, que nem mesmo os doutores de carta sabem o que aquilo é! Diz que é “beribéri” ou não sei quê; o caso é que nunca vi em dias de minha vida semelhante diabo de moléstia, e que o tal como-chama está matando de repente que nem obra do sujo, credo! Até parece castigo! Deus me perdoe! Isto vai, mas é tudo caminhando para uma república há de dar-lhes uma. que os faça ficar ai de dente arreganhado! Pois o que, senhor! se já não há tementes de Deus! já poucos são os que rezam!.. Hoje, com perdão da Virgem Santíssima — e bateu uma palmada na boca - até podres! até há padres que não prestam!

Raimundo continuava a rir.

— Quanto mais, observou ele de bom humor para a fazer falar quanto mais se V. Ex.a conhecesse certos povos da Europa meridional.

Então e que ficaria pasma deveras!

— Credo, minha Nossa Senhora! que inferno não irá: ir esse mundão de esconjurados! Por isso e que agora está se vendo li sue se vê, benza-me Deus!

E, benzendo-se ela própria com ambas as mãos, pediu que a deixassem ir dar uma vista de olhos pela cozinha.

— É eu não estar lá e o serviço fica logo pra trás!. Caem no remancho, diabo das pestes!

Afastou-se gritando, desde a varanda pela Brígida: Aí estavam a pingar as nove, e nem sinal de almoço!...”

Raimundo e Ana Rosa ficaram a sós defronte um , outro, ela de olhos baixos, confusa, na aparência quase aborrecida; e ele. de cara alegre, a observá-la com interesse, gozando em contemplar, assim de perto, aquela provinciana simples e bem disposta, que se lhe afigurava agora uma irmã, de quem ele estivera ausente desde a infância “Deve ser, com certeza, uma excelente moca... calculou de si para si Pelo seu todo esta a dizer que é boa de coração e honesta por natureza Além do que, bonita...”

Sim, que até ai Raimundo ainda não tinha reparado que sua prima era bonita. Notou-lhe então a frescura da pele, a pureza da boca, a abundância cabelos. Achou-a bem tratada; as mãos claras, os dentes asseados, a tez muito limpa, fina e lustrosa, na sua palidez simpática de flor do Norte.

Principiaram a conversar, depois de algum silêncio, com muita cerimônia. Ele continuava a dar-lhe excelência, o que a constrangia um tanto, perguntou lhe pelo pai.

Que tinha ido para o armazém, como de costume, e só subiria para almoçar e para jantar. Daí, queixou-se da solidão em que vivia no aborrecimento daquela casa “Um cemitério de triste!...” Lamentou não ter um irmão e, em resposta a uma pergunta que lhe fez o rapaz, disse que lia para se distrair, mas que a leitura muitas vezes a fatigava também. O primo, se tinha um romance bom, que lho emprestasse. Raimundo prometeu ver entre os seus livros, logo que abrisse um caixão que ainda estava pregado.

A propósito do romance, entrou a conversa pelas viagens. Ana Rosa lamentou não ter saído nunca do Maranhão. Tinha vontade de conhecer outros climas, outros costumes; entusiasmava-se com a descrição de certos lugares; falou, suspirando, da Itália. “Ah, Nápoles!...””

— Não, não! objetou o rapaz. Não é o que V. Exª supõe! Os poetas exageram muito! É bom não acreditar em tudo o que eles dizem, os mentirosos!

E, depois de uma ligeira súmula das impressões recebidas na Itália, perguntou à prima se queria ver os seus desenhos. A menina disse que sim e Raimundo, muito solicito, correu a buscar o seu álbum.

Logo que ele se levantou, Ana Rosa sentiu um grande alívio: respirou como se lhe houvessem tirado um peso das costas. Mas já não estava tão nervosa e até parecia disposta a rir e gracejar; é que Raimundo, no meio da conversa, dissera despretensiosamente que simpatizava muito com ela; que a achava interessante e bonita, e isto sem precisar de mais nada, tornou-a logo bem disposta e restituiu-lhe ao semblante a sua natural expressão de bom humor.

Ele voltou com o álbum e abriu-o de par em par defronte da rapariga.

(continua...)

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