Por Aluísio Azevedo (1884)
— Vê!... disse-lhe entusiasmado apontando para a mulher, que atravessava a sala próxima. Olha! Vê como vai formosa! Contempla aquela garganta de mármore, aquele porte de rainha egípcia, aqueles olhos mais formosos que as estrelas! Contempla-a toda, e dir-me-ás depois, desgraçado! se há no mundo coisa alguma que valha a posse de todo aquele tesouro vivo e palpitante!... se há coisa alguma, seja ela a doçura do lar, as glórias do talento, a consolação do trabalho, as honrarias sociais, o respeito, o acatamento de seus semelhantes, o amor de uma geração inteira — se há alguma coisa que possa corresponder à suprema ventura de ser seu escravo!...
— Tu bebeste demais! exclamou o Barroso, conseguindo afinal arrancar-lhe dos braços.
— Ainda não bebi demais! respondeu o barão, fazendo um gesto dramático.
— Mas lembraste a propósito: Champanhe! exclamou para um criado. Champanhe! Depressa!
E depois, erguendo a taça, que se lhe entornava sobre os dedos: — Ao amor, Barroso! Ao sempre belo! ao sempre novo! ao nunca vencido! ao amor!
— Estás insuportável! resmungou o amigo, pensando já em escamugir-se na primeira ocasião.
E mal pilhou uma escapula, foi-se.
Em casa, a mulher, que ainda estava de pé, admirou-se de o ver entrar tão cedo.
— Pois eu estou lá disposto a aturar bebedeiras de quem quer que seja?!...
exclamou ele, desabridamente, a desenfiar a sobrecasaca. O Borges está insuportável! Está um libertino! A mulher faz dele o que quer. Eu, se adivinhasse semelhante coisa, até nem lhe tinha falado quando o vi! Um pancada!
— Mas que fez ele?... perguntou D. Sabina, emperrando com as palavras do marido.
— Ora! Faz todas as loucuras que vem à cabeça da mulher! Não Imaginas! — É bastante que ela mostre desejo de uma coisa, seja qual for, a mais extravagante, a mais irrealizável, aí está o homem tratando de pô-la em prática!
Deus te livre!
— Então, faz-lhe todas as vontades? ...
— Pois se ele está apaixonado loucamente pela mulher! se está mesmo pelo beiço!
E o Barroso passou a contar tudo o que presenciara a respeito do Borges.
— Sim senhor! disse D. Sabina, quando ele terminou. Sim senhor! É um marido ás direitas! Assim é que eu os entendo — ou bem que um casal se ama ou bem que se não ama!
— Que é lá isso?... perguntou Barroso espantado. — Pois achas que aquele idiota procede bem, fazendo todas as vontades à mulher?!...
— De certo! acudiu Sabina — de certo. E há de ser muito amado e muito respeitado pela esposa... Eu, no caso dele, faria o mesmo! Pois se a mulher é todo o seu encanto, todo o seu feitiço... nada mais natural que o homem lhe faça as vontades para vê-la feliz e satisfeita! Não tem que saber — gosto do Borges! É um marido que me enche as medidas!
— Ora! ora! ora! fez o Barroso, sacudindo a cabeça — ora esta!...
Sabina prosseguiu:
— De uma mulherzinha como a dele é que você precisava para o ensinar, seu unha de fome! Não devia ser uma toleirona, como eu, que levo aqui a matar-me, às vezes até fazendo o despejo! e, quando quero ir a qualquer divertimento, quando apeteço um teatro, um passeio, uma visita, ou quando preciso de um vestidinho mais assim ou de um chapéu mais assado, você nunca está pela coisa!
— Porque não sou doido! respondeu o Barroso com mau modo. — Estaria bem servido se fosse a fazer-te todas as vontades! — a estas horas não teria onde cair morto!
— Ora, não me venha contar histórias, seu Barroso! Não haviam de ser essas misérias que o poriam mais pobre! Hoje, por exemplo... por que não me levou à casa de seu amigo?... Eu tinha tanta vontade de lá ir!... Dizem que estava tudo preparado com tanto luxo, tão bonito!... E você, só para não me fazer a vontade, deixou-me ficar em casa!
— Pergunta antes se tinha dinheiro para te levar!
— Lá vem a tal história do "Pergunta se eu tenho dinheiro!" O mesmo não diz você aos procuradores dessas sociedades, que não lhe largam a porta! Principalmente a tal Maçonaria! Meu Deus, é um cesto roto para comer dinheiro! Entretanto, o mais insignificante objeto de que eu precise...
— Olha! queres saber de uma coisa?! exclamou o Barroso, interrompendo-a. — Não estou disposto a ouvir essa lengalenga! Por hoje já basta de maluquices! Se te não levei à casa do Borges foi porque não quis, entendes tu! Porque não quis! e não tenho que te dar satisfações! Ora, vamos a ver se temos aqui a Filomena Borges!...
— Ah! fale assim! retrucou a mulher enraivecendo-se. — Fale desse modo e não venha para cá com fingimentos! Você não me levou à casa do barão, porque teve pena de comprar um vestido! porque não teve coragem para alugar um carro! Somítico!
— O' mulher! berrou o marido. — Já te disse que não estou disposto a essa seringação!
— Pois que não esteja! Eu também não estou disposta a muita coisa e vou agüentando! Só não pilho o que desejo! há mais de uma semana pedi-lhe que comprasse um tapete, ali para o pé da cama, que, sempre que me levanto, é uma constipação certa... e, que é dele?!
— Aí temos outra!
— Pois se é assim mesmo! Eu nada lhe peço que você faça!
— Não tenho onde cavar dinheiro! Arre!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.