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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Ora, pelo amor de Deus! Estava eu bem servido se contasse com esses bicos para viver!... E é dessa forma que o senhor quer que lhe arranje eu a Berta! Ora, seu comendador! tire o cavalo da chuva!

— Mas é que...

— Ora, o senhor sabe perfeitamente que, para estar em contato com ela, é preciso ter algum dinheiro no bolso; é já uma garrafita de champanha, é já meio quilo de marrons glacês, já um camarote no Alcasar! E estas cousas, meu amigo, não se fazem com palavras! Quem quer a moça, puxa pela bolsa!...

— Se eu tivesse a certeza de que você conseguia o que eu desejo!... é uma asneira, bem sei, mas gostei da tipa!...

— E quem lhe diz que não consiga?...

— Repito: "casa, comida, roupa lavada e engomada, luxo e dinheiro pros alfinetes..." Se ela quiser, é pegar! contanto que não receberá mais ninguém! Ah! lá isso... De portas pra dentro, há de ser só cá o menino!...

E o comendador afagava o próprio queixo, sonhando­se já na felicidade futura.

— Pois é!... confirmou o Rosa; mas estas cousas custam seu bocado! A gaja é artista... porém eu lhe darei umas voltas, que ela o remédio que terá é cair!

— Posso vê­la hoje?

— Pode, no Alcasar. Se quiser, previno­a de que se não comprometa, e iremos depois cear os três ao Príncipes...

E o Melo, batendo no outro com o braço, piscou maliciosamente um olho:

— Descanse que não ficarei até ao fim da ceia! Maganão!

— O diabo é que aquele gerente Ramos tem umas unhas tão compridas!... é um roubo o que cobram no Hotel dos Príncipes!

— Bem! mas vai, não é?

— Sim, mas veja se obtém da Berta o que lhe disse... Eu não tenho jeito para falar nessas cousas...

E o comendador fez um ar de acanhamento.

— Deixe correr o marfim por minha conta! respondeu o Melo com um movimento persuasivo. A questão é o.... E fez com os dedos sinal de dinheiro.

— Pois bem! tome lá os cinqüenta... Mas veja se economiza, homem! Eu também não tenho em casa nenhuma máquina de dinheiro!...

— Ora, não ofenda a Deus, comendador! E vamo­nos. E foram­se os dois a passo frouxo pela alameda.

O sol da manhã tirava­lhes cintilações das cartolas novas.

Alfredo levantou a cabeça e esteve a olhá­los, vagamente, por muito tempo. Iam ali dois homens considerados em público e diversamente felizes! Depois, levantou­se impelido por uma resolução, e tocou para a casa do coronel. Mas em caminho, um companheiro de miséria convidou­o a tomar um trago. Alfredo estava em jejum e já tinha bebido, bebeu ainda mais e ficou afinal como o vimos surgir na sala do sogro.

Este desejava muito tornar a recebê­lo, mas ao dar com ele naquele estado, escondeu o rosto nas mãos.

— O que mais me faltará ver, meu Deus? dizia entre lágrimas o pobre veterano.

Gabriel deixou de tocar, e Gaspar correu a conter o cunhado; mas Alfredo, possuído de uma alegria frenética, continuava a cancanear, a seco, agitando as abas esverdinhadas da sua hedionda sobrecasaca.

— Quebra! gritava ele, com a voz estrangulada de cansaço e trêmula de embriaguez. Quebra, meu bem! Quebra o caroço!

E pulava, revirando os olhos e sacudindo os braços.

—Viva a folia! Viva a pândega!

Gaspar procurava detê­lo:

— Alfredo! que é isso? Então!...

— Solta­me, Gaspar! Eu estou contente! Trago­lhe uma notícia importante! Venham as alvíssaras! Devemos todos tomar hoje uma boa carraspana! Tenho cá o segredo!

E o Marmelada fechou a mão no ar e cambaleou:

— Sei tudo!

E cuspia­se.

— Solta­me, ou então não digo! Se quiseres saber, vai buscar vinho!

— Disso podes estar bem descansado, interveio Gabriel.

— Pois se não me derem vinho, não digo quem escreve as mofinas contra o tal coronel das dúzias!

O velho saltou da cama.

— Hein? o quê?! Sabes tu quem é? Dêem­lhe de beber! Dêem­lhe tudo! Pancada, se preciso for! Mas não o deixem sair, sem fazer a declaração! Ó meu Deus! ele saberá?! Será crível que eu não morrerei sem...

— E o velho caiu de braços na cama, a exclamar numa doida vertigem:

— Fechem as portas! Não o deixem sair! acudam­me!

— Está o que você veio fazer! disse Gabriel a Alfredo.

— Está danado! respondeu este com a voz mole e com um sobressalto de medo. Tu pensas, velho rabugento, que eu voltaria cá, se não fosse ter pena de ti. Vim para dizer quem é o autor das mofinas, mas vocês não querem obsequiar... não digo!

E voltando­se para Gabriel:

— Menino! vai para o piano, que eu gosto de música!

Mas vendo que ninguém o atendia, resmungou zangado, ganhando a porta:

— Querem saber que mais? Vão vocês todos para o diabo que os carregue!

E deitou a correr para a rua.

Segurem­no! rugiu da cama o coronel. Segurem­no! E tentando erguer­se, desabou nos braços do filho.

Gabriel precipitou­se no encalço de Marmelada. Só conseguiu alcançá­lo já no fim da esquina.

Espere com um milhão de raios! disse o rapaz, segurando­lhe o braço.

— Largue­me! exclamou o outro. Largue­me! ou vou­lhe ao frontispício!

— Cale­se! Aqui tem dinheiro. Tome! pode beber à vontade, mas diga primeiro quem é o autor das mofinas! Alfredo guardou o dinheiro e segredou:

(continua...)

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