Por Franklin Távora (1878)
A estas palavras, que saíram fracamente dos lábios de Matias Vidal, como dentre duas pedras caem gotas de água nativa, seguiu-se um momento de silencio. Nelas vinha um cunho de madura prudência que abatia e resfriava os ímpetos e os éstos dos precedentes oradores. Aqui estava o pai de família, o agricultor, o matuto, sem exclusão do patriota. A inspiração sensata, a lúcida intuição que adivinhava os perigos próximos, ao mesmo tempo que via os remotos já descobertos, tomaram o lugar aos assomos da soberba de João da Cunha, da valentia de Lacerda, da ardência de Bezerra, e apresentaram a solução natural do grave problema que os trazia ali reunidos.
- Ela é verdade – disse primeiro o ex-alcaide-mór, como quem caia em se e via agora de todo clara a situação há pouco envolvida em densas trevas. Junto, em torno de nós, mandatários disfarçados espreitam os nossos passos para os denunciarem aos mandantes, nossos inimigos.
- Que diz você a isto, irmão André? Perguntou Luiz Vidal a André Cavalcanti, que atento ouvira os vários conceitos dos conferentes.
- Digo que o nosso primeiro empenho deve consistir em tratarmos da nossa própria defesa. Estou por isso inteiramente de acordo com o parecer de Matias Vidal. Quem sabe se dentro de poucas horas não teremos de haver-nos com revolta idêntica á do Recife?
- Nem devemos esperar coisa diferente – disse Jorge Cavalcanti.
- A que fim, senão a este, mandaram para cá os mascates o seu ouro? Observou José de Barros.
Ontem corria nas lojas e tabernas de Goiana – disse Manoel de Lacerda, que um motim se preparava contra a nobreza. Antonio Coelho, cuja audácia todos nós sabemos, nunca se mostrou tão derramado em arrogancias e insultos. De noite houve ajuntamento em sua loja, ajuntamento que só se desfez quando já era noite alta e depois de muitos urras, que ressoaram nas vizinhanças. Certo está Antonio Coelho incumbido de dirigir o movimento.
- Bom será que o não percamos de vista, disse João da Cunha.
Hoje de manhã, passando eu pela frente de sua casa, vi-o fazendo gestos no balcão. Estava, ao parecer, ébrio; não tinha curtido de todo o vinho que bebera na véspera, porque lhe ouvi palavras insultuosas que me iam lançando fora do caminho da prudência.
- Que disse ele, Cosme Bezerra? Interrogou o sargento-mór.
Suas insolências tinham por objeto a vossa própria pessoa. <Hei de ensinar o João da Cunha; é tempo dele pagar o novo e o velho. Hei de ir com minha gente revirar a bagaceira de seu engenho, para pôr á mostra a ossada do mascate que ele mandou seus negros matar, só porque...>
- Porque?porque? perguntou o sargento-mór, tomado de súbita comoção, e fazendo-se lívido. Que historia contou o vilão?
- Contou que o mascate tinha sido assassinado por se queixar de lhe não terem pago certa quantia.
João da Cunha, sem o querer, tinha-se levantado.
- Querem saber como foi o caso? A mulher de um morador chamou o labrego para lhe comprar não sei que bugigangas, de que ele saiu pago. Mas como vinha tonto, depressa esqueceu-lhe que tinha recebido a respectiva importância. Hei-lo que volta e começa de exigir novo pagamento; e porque ninguém saiu a dar-lhe mais dinheiro, a todos chamou ladrões, sem exceção do senhor do engenho. Dois negros foram-lhe ao encontro e castigaram, sem que de ninguém tivessem recebido ordem para isso, a ousadia do mascate. Este caiu e não se levantou mais. No outro dia vieram dizer-me que amanhecera um homem morto na estrada. Foi então que soube do ocorrido. Castiguei os escravos, e mandei sepultar o morto, não na bagaceira, mas na capela. Se o não sepultaram onde eu disse, não lhe fizeram injustiça; os animais do campo enterram-se nos monturos. Mas deixemos a um lado esse vil mascate, e tratemos do que nos deve merecer mais atenção. Que se deve fazer, meus amigos? Devemos ir ao encontro dos rebeldes, ou esperar que eles nos venham buscar a nossas casas?
Após um momento, respondeu o ex-alcaide-mór:
- O que entendo que se deve fazer é cuidar, sem perda de tempo, de pôr em armas cada um de nós a sua gente para o que possa acontecer.
- Sairemos ou ficaremos?
- Esperaremos prestes para dar-lhes lição tremenda.
Para andarmos seguros, parece-me conveniente que se mande um próprio, sem perda de tempo, a Olinda, a fim de sabermos dos amigos se são precisos os nossos serviços. A sua resposta nos servirá de guia.
- Acho muito acertado este ultimo alvitre, indicado por Felipe – disse Cosme Bezerra.
- Pois bem, disse João da Cunha. Seja este o nosso primeiro passo.
A sala em que se achavam conferenciando sobre o grave assunto os principais vultos da nobreza de Goiana, tinha janelas que caiam sobre o pomar. Distante deste algumas braças passava o rio, aquela noite aumentado pelas chuvas dos dias anteriores. De seu natural escasso, volvia agora barrentas e volumosas águas que estavam lavando as estivas das toscas pontes que o atravessavam.
Mal acabara de falar Cosme Bezerra, quando chegou á sala o ruído que produziam as águas cortadas por um cavaleiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.