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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Não se havia partido só a cilha, mas também a armação da cangalha.

— Sabes que mais, Teodósio ? Acho melhor que não vás ao povoado.

— Por que não ?

— A cilha partida, a cangalha arrebentada, tudo me parece aviso para que não faças a viagem — disse o Cabeleira.

— Estou já em outro acordo. Deixo te o cavalo e vou a pé. Este cavalo é que me está encaiporando.

Enquanto o Teodósio seguia pela beira do rio, o Cabeleira, que havia tomado a direção da engenhoca, dava a volta do caminho, e descobria a casa envolta em chamas cujo clarão sinistro iluminava a estendida solidão. Em breves instantes achava se entre os companheiros, e cortava, como vimos" a porfia do Trovão e do Mulatinho sobre a posse de Luísa.

— Luisinha ! — exclamou o bandido. — Tu me pertences.

— Que dizes, Zé Gomes ? — interrogou Joaquim sem poder bem compreender o que ouvirá ao filho, que lhe pareceu alucinado.

— Digo o que é. Houve tempo em que juramos, eu e ela, pertencer nos na mocidade. Chegou a ocasião.

— Atreves te a falar me em juramento ! Não sabes o que estás dizendo. Esta mulher é minha, e quem for homem que se meta a vir tomar ma.

Ainda bem não havia proferido estas palavras quando o Cabeleira puxava da faca dando mostras de querer ferir com ela o seu interlocutor.

— Zé Gomes, olha bem o que dizes ! — redargüiu Joaquim. — Teu pai ?

— Não tenho pai; só tenho mãe que me ensinou o caminho do bem; pai nunca tive nem tenho. Não é meu pai aquele que só me ensinou a roubar e a matar.

— Zé Gomes, olha bem o que dizes! — redargüiu Joaquim, medindo o filho com olhar ameaçador e terrível.

— Já lhe disse — retorquiu o mancebo sobreexcitado pela oposição do velho, ao qual se atirou com fúria brutal para lhe arrancar das mãos os pulsos de Luísa. afogada em prantos e soluços.

Joaquim resistiu. Outros malfeitores reuniram se em torno daquelas duas hienas que ameaçavam despedaçar se mutuamente. Mas não houve um só dentre tantos que tentasse compor os discordes.

Cabeleira brandiu enfim a faca contra o velho.

Neste momento voz chorosa e soluçada ressoou na solidão. Foi a voz de Luísa.

— Cabeleira — disse ela —, terás animo para ferir teu pai ?!

O braço do bandido descaiu incontinente como se aquela voz lhe tivesse cortado os músculos atléticos.

— Meu pai! — exclamou o desgraçado. — Um pai não toma a mulher de seu filho. Mas já que o queres, fica te com ela — acrescentou voltando se para Joaquim. — Cabeleira vai desaparecer para sempre, e sem o seu auxílio hão de cair nas mãos da justiça todos os que me cercam. A tropa aí vem.

— A tropa ! — gritaram os malfeitores sobressaltados, olhando uns para os outros, e todos para a solidão que, ao declinar do incêndio, retomava seu aspecto equívoco e medonho.

Tendo assim falado, Cabeleira deu o andar na direção da estrada. Seu espírito estava abatido, seu coração despedaçado pelo golpe cruel que lhe havia vibrado a desgraça.

Então Luísa, vendo assim perdido o último raio de esperança, que ainda a guiava no meio das trevas do seu infortúnio, exclamou:

— Meu Deus, meu Deus, que será de mim ?

Joaquim entretanto tinha se atravessado diante do Cabeleira. Todo assassino é cobarde.

— Por que nos queres deixar ? — perguntou ele ao filho. — No momento em que mais precisamos de ti, é que tu nos desamparas ? Não sejas mau, Zé Gomes. Eu te perdôo a desobediência, e te restituo a mulher. Fujamos todos.

Cabeleira atirou se a Luísa, e tomou a nos braços com frenesi de alucinado.

Volvendo um instante depois os olhos ao redor, não viu um só sequer dos companheiros. Penetrados de pânico terror, todos tinham corrido, sem exceção de Joaquim, a ocultar se na mata.

— Vamos, Luisinha — disse o bandido à moça, com ternura. — Ninguém a ofenderá, ninguém.

— E minha mãe ?! — soluçou Luísa caindo, que a eternidade se ia meter entre ela e Florinda, e que sobre a terra estava tudo acabado para ela.

O bandido conchegou a ao peito e abafou lhe as últimas palavras com um beijo.

CAPÍTULO X

Que valeu a Luísa ter-se libertado das mãos de Joaquim, se o Cabeleira a prendia em seus braços possantes e atléticos ?

— Solte-me, solte-me — disse a moça ao bandido.

— Quer ficar aqui ? Não a deixarei só.

— Não se importe comigo. Siga seu pai, que eu irei para minha casa. Não preciso da companhia de ninguém.

Com esforços sobre humanos Luísa tentou libertar-se das suas prisões. Foram inúteis esses esforços.

— Se não me soltar, há de ver-me cair morta a seus pés.

Ela tinha podido apoderar-se do facão do malfeitor, e o voltava contra si mesma.

O Cabeleira parou, e soltou-a.

— Que pretende você fazer, Luisinha? Não tem pai, não tem mãe, não tem quem por si olhe. Para onde quer ir ?

— Quero matar-me aos pés de minha mãe. — Isso nunca.

Sem esforço nem luta ele a desarmou em um momento. Depois perguntou, com a voz mais branda do mundo:

— Matar-se por que, Luisinha ? Não se lembra que me prometeu ser minha mulher quando um dia nos encontrássemos ?

— Eu fiz esta promessa com uma condição, que você não cumpriu.

— Pois bem. Estou pronto a cumpri-la agora — tornou ele com ternura.

(continua...)

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