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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Todavia aquelas importunações a incomodavam, e sobretudo a insultavam; como não cessassem, acabaram por inspirar-lhe uma resolução em que já se revelavam os impulsos de seu caráter. 

Certa noite, em que um dos mais assíduos namorados a impacientou, ergue-se Aurélia mui senhora de si e dirigiu-se à rótula, que abriu, convidado o conquistador a entrar. Este tomado de surpresa e indeciso, não sabia o que fizesse, mas acabou por aceder ao oferecimento da moça. 

- Tenha a bondade de sentar-se, disse Aurélia mostrando-lhe o velho sofá encostado à parede do fundo. 

O leão quis impedi-la, e não o conseguindo, começava a deliberar sobre a conveniência de eclipsar-se, quando voltou Aurélia com a mãe. 

A moça tornou à sua costura, e D. Emília sentando-se no sofá travou conversa com sua visita. 

As palavras singelas e modestas da viúva deixaram no conquistador, apesar da película de cepticismo que forra essa casca de bípedes, a convicção da inutilidade de seus esforços. A beleza de Aurélia só era acessível aos simplórios, que ainda usam do meio trivial e anacrônico do casamento. 

Este incidente foi o sinal de uma deserção, que operou-se em menos de um mês. Toda aquela turba de namorados debandou em roda batida, desde que pressentiu os perigos e escândalos de uma paixão matrimonial. 

Assim recobrou Aurélia sua tranqüilidade, livrando-se do suplício, que lhe infligiam aquelas homenagens insultantes. 

Agora, quando ficava na janela para satisfazer aos desejos de sua mãe, já não lhe custava essa condescendência tão amargo sacrifício. Sua natural esquivança era bastante para afastar as veleidades dos refratários. Esses ainda não se tinham desquitado ao todo da esperança de inspirar alguma paixão irresistível, das que domam a mais austera virtude. 

 

IV 

 

Seixas ouvira falar da menina de Santa Teresa, mas ocupado nesta ocasião com uns  galanteios aristocráticos, não o moveu a curiosidade de conhecer desde logo a nova beldade fluminense. 

Aconteceu porém jantar na vizinhança em casa de um amigo, e em companhia de camaradas. Veio a falar-se de Aurélia, que era ainda o tema das conversas; contaram-se anedotas, fizeram-se comentos de toda a sorte. 

Depois do jantar, no fim da tarde, saíram os amigos a pé, com o pretexto de dar uma volta de passeio; mas efetivamente para mostrar a Seixas a falada menina, e convencê-lo de que era realmente um primor de  formosura. 

Seixas era  uma natureza aristocrática, embora acerca da política tivesse a balda de alardear uns ouropéis de liberalismo. Admitia a beleza rústica e plebéia, como uma convenção artística; mas a verdadeira formosura, a suprema graça feminina, a humanação do amor, essa, ele só a compreendia na mulher a quem cingia a auréola de elegância. 

Em frente da casa de D. Emília, pararam os amigos formando grupo, e Seixas pode contemplar a gosto o busto da moça. A princípio examinou-a friamente como um artista que estuda o seu modelo. Viu-a através da expressão altiva e triste indiferença de que ela vestia-se como de um véu para recatar sua beleza aos olhares insolentes. 

Quando, porém, Aurélia enrubescendo volveu o rosto, e seus grandes olhos nublaram-se de uma névoa diáfana ao encontrar a vista escrutadora que lhe estava cinzelando o perfil, não se pode conter Fernando que não exclamasse: 

- Realmente... 

Atalhando, porém, esse primeiro entusiasmo, corrigiu: 

- Não nego; é bonita. 

Nessa noite, Aurélia, quando trabalhava na tarefa da costura, quis lembrar-se da figura desse moço que a estivera olhando por algum tempo à tarde; não o conseguia. Vira-o apenas um instante; não conservara o menor traço de sua fisionomia. 

Mas coisa singular. Se recolhia-se no íntimo, aí o achava, e via-lhe a imagem, como a tivera diante dos olhos à tarde. Era um vulto, quase uma sombra; mas ela o conhecia; e não o confundira com qualquer outro homem. 

Dois dias depois Seixas tornou a passar pela rua de Santa Teresa, mas só, desta vez. De longe seus olhos encontraram os de Aurélia, que fugiram para voltar tímidos e submissos. Ao passar, o moço cortejou-a; ela respondeu com uma leve inclinação da cabeça. 

Decorreu uma semana. Seixas não passara à tarde como costumava; era noite, 

Aurélia ia recolher-se triste e desolada. Ao fechar a rótula destinguiu um vulto, e esperou. Era Fernando. O moço apertou-lhe a mão; declarou-lhe seu amor. Aurélia ouviu-o palpitante de comoção; e ficou absorta em sua felicidade. 

E a senhora, D. Aurélia? Interrogou Seixas. Ama-me? 

- Eu? 

A moça pronunciou este monossílabo com expressão de profunda surpresa. Pensava ela que Fernando devia ter consciência da posse que tomara de sua alma, com o primeiro olhar. 

- Não sei, respondeu sorrindo. O senhor é quem pode saber. 

Não compreendeu Seixas o sublime destas singelas e modestas da moça. O galanteio dos salões embotara-lhe o coração, cegando-lhe o tato delicado que podia sentir as tímidas vibrações daquela alma virgem. 

(continua...)

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