Por José de Alencar (1875)
Já a alegria e animação que sempre traz a manhã nessa estação ardente, ia-se dissipando; e começava a calma da soalheira, que infunde no sertão indefinível melancolia.
XV – A cavalhada
O camarim ricamente alcatifado à moda do tempo era esclarecido por uma janela que abria para o terreiro, e da qual se descortinava ao longe a mata a cingir as faldas da serra.
As duas moças, reunindo as fôrças e galhofando da própria fraqueza, tinham conseguido, depois de muitas risadas, arrastar para o meio da casa um baú da Índia, coberto de marroquim amarelo e cravejado de tachas de prata.
Aberto o cadeado e virada a tampa, D. Flor sentou-se à frente em um estradinho baixo forrado de veludo, e Alina ajoelhou-se ao lado com os olhos cheios de prazer e curiosidade.
DA mesma idade que a filha do capitão-mór, e também formosa, tinha essa moça o tipo inteiramente diverso. Era loura, de olhos azues, e corada como uma filha das névoas boreais.
Foi ela talvez um dos primeiros frutos dessa anomalia climatológica do sertão de Quixeramobim onde, sob as mesmas condições atmosféricas, se observa com frequência e especialmente nas moças, aquela notável aberração do tipo cearense, em tudo mais conforme à influência tropical.
Alina era filha de um parente remoto de D. Genoveva. Ficando órfã em tenra idade, o capitão-mór, a pedido da mulher, a tinha recolhido com a mãe viúva, prometendo educá-la e arranjá-la.
A primeira parte dessa promessa o fazendeiro já a tinha cumprido, repartindo com a órfã a mesma educação que dera à sua filha querida. Quanto ao resto havia quem afirmasse que êle destinava Alina para o Arnaldo, e só esperava que a moça comletasse os dezoito anos.
D. Flor tirou de dentro do baú galantarias de toda a sorte, das mais finas e custosas que então se vendiam nas lojas e tendas do Recife, onde ainda se mantinham os hábitos de luxo oriental com que as colônias do Brasil ofuscavam a metrópole.
Alina soltando gritozinhos de prazer, não achava expressões para manifestar sua admiração; com os olhos e a alma cativos do objeto que D. Flor lhe havia passado, deixava-se ficar em êxtase, até que outra louçainha a vinha disputar por sua vez.
Já a tampa do baú estava cheia de estofos que Alina aí fôra arrumando, depois de os admirar, quando D. Flor, encontrando uma comprida caixa coberta de primavera e que procurava, ergueu-se com ela.
— E êste vestido, Alina? Quero saber o seu gôsto.
D. Flor tirara de dentro da caixa uma peça de escarlatim, e desdobrando o lindo estôfo de sêda arrugou-o com a mãozinha faceira, e deixou-o cair da cintura como o fôlho de uma saia.
— Que maravilha, Flor! exclamou a órfã cruzando as mãos.
— Quanto mais quando estiver no corpinho gentil de certa pessoa que eu conheço!
— Não é seu? perguntou Alina pesarosa.
— Em mim não ficaria tão bem como na dona. Quer vewr?
D. Flor levou Alina surpresa diante do tremó e aí envolveu-a nas dobras do estôfo carmesim.
— É para mim, Flor?
— E para quem mais podia ser, menina? Cuidou então que todo êste tempo, no meio de tantas festas, não me tinha lembrado de si, ingrata?
— O bem que você me quer, Flor, eu sei; mas eu é que não mereço estas lindezas.
— Merece meu coração que é maior preciosidade do que todas as galas do mundo, respondeu D. Flor sorrindo-se.
As duas amigas e companheiras de infância abraçaram-se com efusão e encheram-se mutuamente de carícias. Quando acabaram de desafogar sua ternura, a filha do fazendeiro tornou ao baú, deixando a outra ainda em contemplação diante do estôfo de sêda desdobrado sôbre o tremó.
Não era admiração unicamente o que sentia Alina: era quase adoração, inspirada pela linda tela, em cujo brilhante matiz revia porventura naquele instante o resplendor dos sonhos de sua imaginação.
— Está vendo êste listão, Alina? disse D. Flor, voltando-se para mostrar o objeto.
— Como é bonito!
— Fica-me bem?
— Fica uma jóia. Com ela você parece uma princesa encantada, Flor.
Alina tinha razão. A faixa de chamalote azul que a moça acabava de passar a tiracolo, prendendo-a ao ombro direito com o broche de ouro, dava ao seu talhe airoso um porte regíneo.
— Já leu? perguntou D. Flor mostrando com a ponta do dedo as letras bordadas na fita.
— À MAIS FORMOSA, disse Alina soletrando.
Êsse era efetivamente o dístico lavrado a fio de ouro em uma e outra banda da faixa de chamalote.
— Foi uma sorte da cavalhada, disse a moça.
— Conte, Flor.
As duas meninas acomodaram-se nos poiais da janela.
— De todas as festas que vi no Recife, as mais luzidas foram as que se deram em regozijo pela chegada do novo governador D. Antônio de Menezes, com de de Vila Flor.
— Você viu o conde, Flor? Que homem é? perguntou a linda sertaneja, para quem ver um conde era quase ver o rei.
— Um fidalgo de nobre parecer, como meu pai. Fizeram-se muitos folguedos e aparatos
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.