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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

O coronel suspendeu a perna no estribo, e descansando sobre o quadril, dispôs-se a ouvir a narração do Canho. 

O gaúcho referiu tudo o que passara entre Barreda e ele; mas simplesmente, sem encarecer a sua intrepidez e destreza nem desfazer no adversário. O gaúcho tinha consciência, mas não orgulho de seu valor. Para um rio-grandense, e especialmente para o filho de João Canho, ser bravo, tanto como o mais bravo, era obrigação. Não havia mérito nisso. 

— Muito bem, Manuel. 

— Então, meu padrinho, acha que não me saí mal? 

— Caramba! Desafiaste sozinho teu inimigo e o mataste em combate leal, escapando à traição! Melhor do que isso não há!  Até serviste de médico e enfermeiro ao sujeito; e o puseste são para a viagem do outro mundo. 

Acompanhou o coronel estas palavras com uma grande risada. Nesse momento excitoulhe a atenção um salto da égua. O lindo animal, vendo a comitiva do comandante, parara em distância; mas a pouco e pouco se fora aproximando. Como tentasse um camarada pôr-lhe a mão na espádua, ela relanceou dum pulo, saltando uma touceira de cardos. 

— Oh! Que lindo animal trazes tu, Manuel! exclamou Bento Gonçalves com satisfação de picador. É para negócio? Abre preço, rapaz! 

— Não, senhor, esta não se vende. 

O gaúcho hesitou balbuciando: 

— Mas se meu padrinho… 

— Nada, Manuel; sei o amor que a gente toma a estes brutos. Aposto que lhe queres tanto bem como à tua namorada. 

Na despedida, quando o gaúcho lhe beijava a mão, o coronel deixou-lhe na palma uma onça de ouro. 

— Em Jaguarão comprarás uma mantilha de ponto real, e um turbante de plumas: a mantilha é para minha comadre, o turbante para tua namorada. 

E dando de rédeas ao ginete, sumiu-se em uma nuvem de pó. 

Era dia de Nossa Senhora da Conceição. 

A vila tinha ares domingueiros; acabara a missa havia pouco tempo; ainda as ruas estavam cheias de grupos de mulheres com mantilha e homens em trajo de cidade. 

Apeou-se Manuel Canho a uma loja, onde se vendiam fazendas, chá, rapé e quinquilharias. Escolheu a mantilha para sua mãe, e um turbante de plumas escarlates para Jacintinha. Naquela época esse toucado era uma das últimas novidades da moda; consistia em uma faixa de cetim bordada a ouro, cingindo a cabeça em forma de coifa, e ornada com duas ou três plumas que se anelavam pelos cabelos. 

Acomodados os dois objetos na boceta de folha de pinho, que ele ocultou debaixo do poncho, Manuel encaminhou-se à venda, onde da vez passada tinha pousado. 

Junto do balcão estava uma grande roda de peões e gente do povo a beber genebra e a parolar. No alpendre, que seguia em continuação à queda da taberna, via-se também outra roda de peões; estes já haviam molhado a garganta e se entretinham em descantes ao som da viola, a qual ia correndo de mão em mão, à medida que passava ou acudia a inspiração. 

Eram mais ou menos os mesmos sujeitos que aí estavam reunidos no dia do desarmamento de Lavalleja. Na primeira roda destacava o Lucas Fernandes, antigo miliciano que exercia agora o ofício de seleiro. Na segunda se distinguiam o Félix, rapaz sacudido de seus vinte anos, que ainda era aparentado com o seleiro e trabalhava na sua tenda; finalmente o ferrador, o tropeiro, o carneador e o peão, que tinham, havia dois meses, se apresentado como noivos à Catita e por ela foram recusados. 

Também aí estava o Chico Baeta fazendo roda a uma formosa rapariga de cabeção de cacondê e saia de cassa branca com ramagens azuis. Era a Missé, que trazia o peão de canto chorado. 

No momento em que entrou o Canho, cabia a mão ao carneador, sujeito largo de ombros e corpulento bastante. Tendo aparecido a Catita começou o tocador a requebrar-se para ela, ruminando consigo um mote para cantar-lhe. 

Nesse dia estava a Catita toda faceira e cheia de si, com uma saia curta de cetim azul, um corpinho de belbutina escarlate franjada de prata, e sapatinho raso de duraque com meia de renda que mostrava o moreno rosado da perna roliça. 

Tinha chegado naquele instante da missa; e ouvindo tanger a viola na venda que ficava contígua à sua casa, correu para lá com a petulância e liberdade próprias da cidade e educação da gente de sua classe. 

O carneador, que também era barqueiro, pois remava nas lanchas da charqueada, para trazer a carne à vila onde se baldeava para os iates, lembrou-se de tirar o tema do verso da segunda profissão, mais poética sem dúvida que a de matar reses. 

Saiu-se por isso com esta quadrinha: 

Lá vem um barco à bolina,

Carregadinho de flor;

É meu coração, menina,

Atopetado de amor. 

À cantiga do barqueiro respondeu Catita com um momo de enfado, levantando os ombros desdenhosamente e voltando-lhe as costas. A menina tinha birra antiga do sujeito, não só pelas enormes bochechas e imenso corpanzil, como pelas denguices com que ele a perseguia desde certo tempo. 

(continua...)

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