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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Se eu tivesse sido mais prudente, e ainda mesmo dissimulado, por certo que não me teriam faltado meios de iludir quantos me cercavam e cercam, e de conservar a preciosa luneta.

Agora é tarde, e o meu pungente arrependimento não me aproveita, e só duplica a aflição que me acabrunha.

A cada momento vinham-me à lembrança o Reis e o armênio, o Reis tão bom e amável, tão complacente e obsequiador; o armênio tão hábil e tão sábio; tão poderoso em magia, e tão leal em seus conselhos.

Lembrança inútil!

Eu havia sido tão descortês, tão ingrato em meu proceder em relação ao Reis, que me não era licito pensar em ir de novo bater à sua porta, que ele tinha o direito de me fechar no rosto.

E o armênio? Como poderia eu aparecer, mostrar-me diante dele depois da minha desobediência aos seus preceitos?...

E todavia eu teimava sempre em lembrar-me do Reis e do armênio. . .

E de instante a instante perguntava a mim mesmo, se o armênio ainda se conservava trabalhando nas oficinas do Reis...

A idéia de voltar ao famoso armazém de instrumentos óticos da Rua do Hospício, começava a perseguir-me, a dominar-me, como a paixão mais violenta escraviza, e move, impele e arrebata a sua vitima.

Dois únicos sentimentos ainda me tolhiam os passos: eram o vexame e o medo.

IV

E claro que eu estava em caminho adiantado para vencer o vexame, que me fazia hesitar em apresentar-me na casa do Reis.

Todo o homem é mais ou menos egoísta e em proveito do seu egoísmo raro é aquele que em circunstâncias imponentes, em casos extraordinários não sacrifica simples consideração de delicadeza.

Quantos homens ricos e maus que nunca deram esmola ao pobre, tornados mendigos pelo vaivém da fortuna, deixariam de estender a mão pedinte a algum recente herdeiro de inesperada riqueza, ao qual dantes tivesse por vezes respondido: Deus o favoreça?!...

Eu não fiz tanto como isso: hei de pois dominar o meu vexame e ir à casa do Reis.

Pedirei perdão com humildade, e luz para meus olhos, como um condenado à morte que pede a vida ao poder que e capaz de dá-la.

O medo que eu tenho, é de sair à rua, de expor-me às zombarias, as vaias, à perseguição dessa gente que me detestou, que talvez me detesta ainda por causa da visão do mal.

Em seu ódio, em seu empenho de vingança muitos conspiraram para que eu fosse reputado maníaco ou doido, e em todo caso perigoso e nocivo à sociedade.

Horrível ameaça pesou sobre mim, e mais de uma voz, mais de um conselho sinistro apontava a conveniência de me recolherem ao hospício dos alienados.

Eu tenho medo de aparecer a essa gente que maldizia de mim, e que pedia a minha prescrição, o encarceramento do doido.

Tenho medo de sair à rua.

V

Refletindo bem, me parece que este medo chega a ser pueril. Tenho duas presunções a favor da minha segurança, duas observações que destroem todos os fundamentos do medo.

Não se provou, conforme as exigências da lei que eu estivesse ou fosse doido; o pronunciamento de muitos homens irrefletidos apenas poderia indicar que eu era um excêntrico ou enfim possuído de esquisita mania, o que nem por isso prejudicava o meu juízo em relação a todas as circunstâncias e condições da vida particular e social.

Ora, na cidade do Rio de Janeiro não só não se recolhem ao hospício dos alienados os excêntricos e maníacos da ordem em que fui contemplado, como é certo que os excêntricos, e adoidados não reconhecidos legalmente doidos gozam privilégios de tolerância, e de indulgência, e quando algum deles ofende a sociedade, com o escândalo publico, em que compromete o decoro da família ou ataca de frente as mais veneráveis e santas considerações sociais, encontra impunidade certa, e desculpa segura na vos do povo que diz: "não se faça caso: aquilo tudo é excentricidade o homem tem suas manias mas no fundo é boa coisa".

Eu creio pois que não há lugar nem cidade como o Rio de Janeiro, em que se possa ser impunentemente e sem inconveniência pessoal não somente excêntrico e maníaco mas até doido, completamente doido, contanto que se traje de paletó escovado e se tenham meses ou dias de lucidez.

Afora esta importante consideração que deve utilizar-me, conto por mim o tempo, que ainda mais foi ajudado pela notícia da destruição ou despedaçamento da minha luneta mágica.

Perdida, quebrada a luneta, cessou o motivo da perseguição que moviam contra mim.

E lá vão oito dias!

Oito dias valem oito anos para memória e para as impressões mais fortes do povo da nossa capital.

Em oito dias regenera-se o político que a opinião pública irritada condenou.

Em oito dias do réu se faz o juiz do pleito em que fora réu.

Em oito dias as vezes a rocha Tarpéia se transforma em Capitólio.

Em oito dias corre o Letes por onde estava bramindo a memória de um escândalo.

Em oito dias a sociedade ligeira, inconstante, mudável, seria capaz de santificar o diabo.

Não há atividade de opinião que resista à extensão, à eternidade de oito dias na nossa capital.

O nosso povo é a certos respeitos povo um pouco francês.

Eu tenho por mim oito dias: refletindo assim, perdi o medo e vou sair a rua.

(continua...)

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