Por Euclides da Cunha (1909)
A sua passagem foi nefasta. Ao cabo de 30 anos de povoamento, as margens do Ucaiáli, tão nobilitadas outrora pela abnegação dos missionários de Sarayaco, patenteiam, hoje, nos seus vilarejos diminutos, uma decadência moral indescritível.
O Coronel Pedro Portillo, atual Prefeito de Loreto, que as visitou em 1899, denunciou-a, indignado: Alli no hay leyes... El más fuerte que tiene más rifles, es el dueño de la justicia". Verberou depois o tráfico escandaloso de escravos. E, afinados pelo mesmo tom, um sem-número de outros excursionistas, que fôra longo citar, delatam, em narrativas expressivas, o regime de tropelias que se normalizou naquelas terras — e se amplia seguindo os rastros do homem que passa pelo deserto com o só efeito de barbarizar a própria barbaria.
Ora, na presciência dos inconvenientes desta exploração, que, entretanto, determinou o pleno desdobramento de seu domínio no Oriente, o governo peruano nunca renunciou ao seu primitivo propósito de uma colonização intensiva. E para ao mesmo tempo garantir o tráfego do melhor caminho para o Amazonas, pelo Ucaiáli, que vai da estação terminus de Oroya aos tributários principais do Pachitéa, estabeleceu em 1857, à margem de um deles, o Rio Pozuzo, a colônia alemã, que sobre todas lhe monopolizou os cuidados e uma solicitude nunca interrompida.
Realmente, a situação era admirável. À média distância de Iquitos, próxima aos afluentes navegáveis do Ucaiáli e num solo exuberante, o núcleo estabelecido era, militar e administrativamente, o mais firme ponto estratégico daquele combate com o deserto, justificando-se os esforços e extraordinárias despesas que se fizeram para um rápido desenvolvimento, que as melhores condições naturais favoreciam.
Mas não lhe vingou o plano. A exemplo do que acontecera em Loreto, os novos povoadores, embora mais persistentes, anulavam-se, estéreis. A colônia paralisara-se, tolhiça, entre os esplendores da floresta. Reduziu-se a culturas rudimentares que mal lhe satisfaziam o consumo. E o progresso demográfico, quase insensível, retratava-se numa prole linfática, em que o rijo arcabouço prussiano se engelhava na envergadura esmirrada do quíchua. Ao visitá-la, em 1870, o Prefeito de Huanuco, Coronel Vizcarra, quedou atônito e comovido: os colonos apresentaram-se-lhe andrajosos e famintos, pedindo-lhe pão e vestes para velarem a nudez. O romântico D. Manoel Pinzás, que descreveu a viagem, pinta-nos em longos períodos soluçantes os lances daquele cuadro desgarrador!, suspendendo-o em dois rijos pontos de admiração.
Viu-o ainda, passado um lustro, com as mesmas cores sombrias, o Dr.
Santiago Tavara, ao descrever a primeira viagem do Almirante Tucker.
Por fim, transcorridos trinta anos, o Coronel P. Portillo na sua rota do Ucaiáli teve notícias certas do núcleo povoador: era uma Tebaida aterradora. Lá dentro os primitivos colonos e os seus rebentos degenerados agitavam-se vítimas de um fanatismo irremediável, na mandria dolorosa das penitências, a rezarem, a desfiarem rosários e a entoarem umas ladainhas intermináveis numa concorrência escandalosa com os guaribas da floresta.
Ora, o excursionista, que é hoje um dos mais lúcidos políticos peruanos, para agravar-se-lhe o desapontamento ante este malogro completo da colônia predileta da sua terra, tivera dias antes, ao passar em Puerto Victoria, na confluência do Pichis e do Palcazu, formadores do Pachitéa, um espetáculo completamente diverso. De fato, Puerto Victoria surgira e desenvolvera-se, tornando-se a estância mais animada e opulenta daquela redondeza, sem que o governo peruano soubesse ao menos do seu aparecimento.
Jamais cogitara em povoar aquele trecho.
A paragem era malsinada. Rodeavam-na os mais bravios entre os selvagens sul-americanos: os campas do Pajonal, ao sul, e ao norte os caxibos indomáveis, que em 1866 haviam trucidado em Chonta-Isla, que lhe demora a jusante, os oficiais de marinha Tavara e West. O Prefeito Benito Arana, que ali andara naquele mesmo ano, fôra, em som de guerra, com dois vapores e uma lancha artilhada, em revide àquela afronta sanguinolenta. Saltou em terra; meteu-se pela mata; travou pequeninos recontros em formidáveis tiroteios; volveu num triunfo singularíssimo, encalçado de perto pelos selvagens, que o frechavam; embarcou no tumulto da sua gente vitoriosa, e fugindo; canhoneou furiosamente as barrancas; volveu, precípite, águas abaixo, deixando na Playa del Castigo um traço romanesco da sua empresa tormentosa...
E durante três decênios a região sinistra permaneceu no isolamento que lhe criavam as gente apavoradas...
Até que, provindos do ocidente e vencendo à voga arrancada, nas ubás esguias, as correntezas fortes do Pachitéa, atravessaram-na de extremo a extremo e foram abordar na confluência do Pichis alguns aventureiros destemerosos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.