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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— Aquele senhor é então o cunhado, o irmão...

—Qual cunhado, nem qual irmão! Aquele senhor é sócio de uma firma de capitalistas...

O bacharel compreendeu a alusão e exclamou, voltando-se para o objeto do diálogo:

— Que estás dizendo?

— Não achas formosa?

— É realmente uma beleza... Mas então...

— Fecha os olhos, Evaristo, fecha os olhos... e não queiras saber de mais nada.

Furtado, porém, resumiu em poucas palavras a crônica da baronesa, citando nomes com um perfeito conhecimento de cousas. Entre os adoradores da ilustre senhora estava o visconde de Santa Quitéria.

— O Santa Quitéria!

— Ele mesmo, e não te admires, porque outros de maior sisudez fazem a corte à baronesa.

O Camargo e o deputado Ismael tinham-se despedido. Os dois amigos subiram a Rua do Ouvidor, no meio de torvelinho geral, afastando-se a cada instante para deixar passar as senhoras, rompendo a multidão, esgueirando-se com as paredes, esbarrando com os transeuntes, aos encontrões, às apalpadelas quase.

No Largo de São Francisco um golpe de ar bafejou-os de improviso, como se saíssem de um túnel.

— Caramba! — exclamou o secretário. — A Rua do Ouvidor às quintas é um formigueiro! Nunca vi tanta gente!

— Olha daqui... olha daqui! — insistiu o bacharel, voltando-se no meio do largo, para a famosa artéria que regurgitava.

Era um espetáculo curioso. A rua muito estreita, com os seus sobrados de dois a três andares, com os seus arcos de iluminação, com as suas bandeiras, tinha o aspecto movimentado de uma pequena cópia de bulevar em dia de festa. Embaixo a massa negra e compacta, ondulando como uma procissão vista de longe, e um sibilar de vozes indistintas como o vago rumor de uma colmeia alvoroçada.

— Queres que te diga o efeito que isso me produz, oh Furtado?

— ?

— Lembra-me o caos, o misterioso, o incompreensível, a vertigem dos abismos... o grande nada dos heróis que dormem...

— Do vasto pampa no funéreo chão! — concluiu o secretário arguendo o braço numa pose oratória.

E fitando o bacharel:

— Estás apocalíptico, homem! Olha, não vás fazer como no Jardim Botânico, onde assassinaste barbaramente, creio que o Garrett ou o Alexandre Herculano...

— Pois é o que me parece a tal Rua do Ouvidor, e a comparação, se não é original, tem o mérito de exprimir exatamente o que eu quero dizer.

E Evaristo dava às palavras um tom de ironia boêmia sublinhando-as com um risinho cáustico e pérfido.

— Nunca hás de ser coisa alguma, porque vives a criticar a humanidade, e a humanidade o que quer é que a gente não veja os seus ridículos e as suas fraquezas.

— Pior! Achas que eu me devo subordinar aos caprichos da humanidade!...

— Que remédio tens tu!...

— O remédio dos incuráveis: a paciência...

— Bem, o lugar não se presta a discussões. Enfiemos outra vez pela Rua do Ouvidor.

— Outra vez?

— Para tomar o bonde de Botafogo...

Mas uma surpresa estava reservada ao secretário. Justamente na ocasião em que o bacharel passava diante da Notre Dame de Paris, deram de ombros com D. Branca e Adelaide.

— Oh!

— Oh!

A mesma exclamativa saiu da boca de Furtado e da esposa. Evaristo soltou um olá! fino, esganiçado e tão alto que algumas pessoas voltaram-se com um movimento de viva curiosidade.

— As senhoras por aqui! — estranhou o bacharel.

— Por aqui! ... — repetiu Furtado.

— Que grande admiração! E os senhores também não andam passeando? — opôs D. Branca com um olhar interrogativo por trás do véu que lhe cobria o rosto.

Adelaide esperou, sorrindo, a defesa da amiga.

— Nós somos homens...

— Morreu o Neves!

— Íamos ao Banco — disse Adelaide.

— Com escala pelo Largo de São Francisco... — atalhou o bacharel. Nada de escândalo, nada de escândalo! — preveniu Furtado. — Já agora...

— Já agora vamos fazer um lanche ao Pascoal — interrompeu a esposa do secretário.

E os dois casais, bras dessus, bras dessous, foram andando rua abaixo tranqüilamente.

Eram duas horas da tarde. A onda de povo crescia; o movimento era cada vez maior nos cafés; ouviam-se orquestrações de harpa e o pregão monótono de leiloeiros destacando no meio da vozeria dos transeuntes.

Logo depois do almoço D. Branca sem dizer nada ao marido, convidara Adelaide para "uma volta na Rua do Ouvidor". A tímida esposa de Evaristo, guardando os seus escrúpulos e as suas conveniências de mulher bem casada, objetou-lhe o desgosto que isso podia causar ao bacharel.

— Vais comigo, filha, vais com a tua amiga.

— E o Sr. Furtado?

— O Furtado não ralha, porque sabe que é perder tempo. É uso no Rio de Janeiro as mulheres saírem sem os maridos. Uma coisa tão velha! Outro dia fomos, eu e D. Sinhá do desembargador...

— Outro dia?

— Vocês ainda não estavam aqui; foi num sábado... Pensas que o Furtado se incomodou? Qual!

— D. Branca! — fez a outra com um ar medroso.

— Não é nenhuma admiração, mulher. Metemo-nos no bonde, como quem vai fazer compras à cidade, sem mistérios, aos olhos de todo o mundo.

Adelaide não se resolvia. " — Sair sem Evaristo e logo para a Rua do Ouvidor!... Hum!..."

— Qual um, qual dois, rapariga; vista-se e vamos, que é meio-dia.

— D. Branca, D. Branca!

— Pior! ...

(continua...)

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