Por Adolfo Caminha (1895)
Somente isto. — Queria ver agora como se portava o “senhor Aleixo”, se ainda o estimava, se era o mesmo da corveta, o mesmo da Rua da Misericórdia, meigo e dócil, carinhosos e reconhecido.
No dia seguinte, pela manhã cedo, o primeiro escaler que largou da ilha para a terra conduzia o bilhetinho cautelosamente fechado, escrito numa garatuja desigual, tortuosa, indecifrável, que o empregado traçara ao crepúsculo, defronte do mar e à pressa.
O negro ficou ansioso pela resposta, numa inquietação de namorado que espera o desejado momento de abraçar a sua ela, contando as horas minuto por minuto, frenético às vezes; quando, por uma ilusão do ouvido, julgava perceber a voz do outro, animado agora e depois completamente desanimado, à proporção que as horas iam passando, fazendo cálculos ideais, balbuciando monólogos imperceptíveis, indo e vindo pelos corredores, pelas dependências do hospital como um idiota, como uma pessoa inconsciente. — E se ele não viesse? Ah! decididamente é porque já não o estimava: é porque o desprezava. Mas, ao menos, havia de responder fosse o que fosse.
Não podia acreditar que ele, sempre tão amável, tão bom e solícito, rasgasse o bilhete sem dar uma respostazinha, um sim ou um não. Qual...
Tinha penteado o cabelo, mudado de roupa, e de instante a instante fazia uma chegada ao espelhinho, ao seu miserável caco de espelho, um traste que possuía no fundo da maca.
Passou a hora do almoço, chegou a hora do jantar, entraram e saíram marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! — Era mesmo para uma pessoa danar! Se não quisesse ir, dissesse!
Começava a perder a esperança. — Amigos! fie-se a gente em amigos!...
Crescia-lhe a inquietação moral, crescia-lhe o desespero como uma onda que vai pouco a pouco intumescendo, empolando-se, até se desfazer em espuma, quebrar-se de encontro à rocha... — Não almoçara, não jantara, e o resultado era aquele: o senhor Aleixo divertia-se!
E quando as corvetas da esquadra fizeram sinal de “arriar a bandeira”, quando o portão do hospital fechou-se às visitas, uma tempestade de ódio levantouse no interior daquele homem capaz de todas as dedicações e de todos os horrores.
Bom-Crioulo rugiu interiormente; alguma cousa despedaçou-se dentro dele, tamanho foi o abalo do seu corpo. Entrara-lhe no espírito a convicção, a certeza absoluta de que o pequeno estava com “outro”, abandonara-o. Recolheu-se à enfermaria taciturno, cheio de cólera, num delírio de raiva surda, numa febre de vingança que até lhe incendiava o rosto por fora, queimando a pele...
Veio a noite e ele não pode dormir, nem fechar os olhos.
Espojava-se na cama, de um lado para o outro, abafado, sem ar que lhe enchesse os pulmões, numa terrível crise de nervos, como se estivesse a lutar com fantasmas, ora repuxando os lençóis, ora descobrindo-se todo na agonia de uma formidável dispnéia. — Abandonado, ele! abandonado por aquele que o devia estimar como a um pai! Abandonado por Aleixo, por seu querido Aleixo!...
Parecia-lhe incrível! desespero igual nunca ele experimentara. Só lhe vinham à imaginação cousas tristes, idéias lúgubres. E, para maior infelicidade, para maior desgraça, ouviu toda a noite alguém gemer na enfermaria vizinha — uma voz de homem, grossa, abafada, inimitável, chamando pelo nome de Jesus e que a ele, Bom-Crioulo, parecia a sua própria voz de amante infeliz apelando para a suprema bondade de Deus... O desgraçado, quem quer que fosse, gemia, gemia sem trégua, cortado de dores horríveis.
Pairava na atmosfera calma do hospital um cheiro muito vivo de alfazema queimada, assim como um vago odor de câmara mortuária. Bom-Crioulo que nunca em sua vida, tivera medo, e que sempre desafiara a morte corajosamente, não pode evitar, essa noite, um calefriozinho de pavor. Houve um momento em que se revoltou contra o pobre doente que gemia. — Diabo! Não se podia dormir com aquele agouro!... Se tinha de morrer, morresse logo...
Mas, arrependeu-se: — Coitado! era algum desgraçado como ele, algum pobre marinheiro sem amigo na terra...
Os gemidos foram pouco a pouco cessando, pouco a pouco diminuindo — triste monodia que se cala no silêncio da noite. Pela madrugada sentia-se ainda o cheiro de alfazema, enjoativo e penetrante, mas o doente cessara de gemer. Quem sabe se teria morrido? Foi embalado por essa idéia desoladora que o Bom-Crioulo caiu no sono...
Davam três horas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.