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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Quem quiser beber as xaropadas do Felício, lá se avenha, mas por mim, fiquem certos, morria de fome ou ia plantar batatas.

— O Felício é um moço honrado, protestou o Neves, sem tirar os olhos das cartas que baralhava. Conheci o pai dele, era um bom homem, e foi muito meu amigo.

E narrou, interrompendo-se a miúdo para prestar atenção ao jogo.

— Quando a filha casou com o Joaquim Feliciano, eu disse logo:

mau casamento. E acertei, infelizmente... Quando houve a história do padre José, o velho ficou tão apaixonado que nunca mais veio à vila. E também não quis mais saber da filha, mas o Felício, não, é um moço honrado.

E acrescentou:

— Cinco, seu compadre, marco cinco!

— Não digo que não, redarguiu o Regalado, voltando às cartas, mas não há de ser o filho de meu pai que há de beber as xaropadas.

— Nem eu, declarou o Mapa-Múndi, nem xaropes nem homeopatia. Médicos e boticários podem ir para as profundas, não me fazem falta. É como padres. Não, que o sermão de hoje sempre me pregou uma maçada!

— Tinha pouco latim, observou o coletor, olhando de esguelha para o Chico Fidêncio, e mendigando um aplauso.

— Tem V S.a muita razão, acudiu pressuroso o José Antônio Pereira, por entre os dentes podres. Notei também certa falta de ligação nas idéias e algumas alusões diretas a pessoas presentes.

Voltou-se também para o Chico Fidêncio provocando-o a manifestar-se.

O professor endireitou-se, cessou de roer as unhas, tirou o cigarro e disse que, oculto na sacristia, ouvira toda a oração de padre Antônio de Morais, que gostara muito; o padre era inteligente, mas exagerava a mímica e metia medo ao povo ignorante para melhor conseguir os seus uns ocultos.

— Quais serão esses fins do senhor vigário?' perguntou o Neves, largando as cartas, num pasmo.

— Ora, o jesuitismo! respondeu o Chico Fidêncio voltando à primeira posição e riscando um fósforo para acender o cigarro.

Macário, indignado, retrocedeu pelo corredor, e achando a porta da alcova, entrou-a. O Chico Ferreira e o 'Manduca sapateiro tocavam a quadrilha do Orfeu de Offenbach. Na alcova estava a mesa com as bebidas. Era o botequim.

O Dr. Natividade bebia cerveja Bass com o professor Aníbal que viera refrescar-se. O bacharel não dançava mais. Sofrera uma desfeita, estava estomagado. Assestando a luneta para os óculos do Aníbal Brasileiro, o Natividade queixava-se amargamente da sobrinha do Neves Barriga, da Milu, que lhe havia prometido 'aquela quadrilha e, entretanto, a dera ao pelintra do Totônio Bernadino.

— Não é que eu faça empenho em dançar com estas matutinhas, explicava. Graças a Deus, lá no Recife, fartei-me de dançar com os melhores pares.

Freqüentava a casa das primeiras famílias, graças a Deus. Dancei com baronesas e condessas, e graças a Deus, nunca ninguém me fez uma desfeita. Foi preciso vir a esta aldeia, para acontecer uma coisa assim. Mas é preciso que me conheçam. Eu só digo que tenho gênio!

E o Aníbal, conciliador:

— Talvez fosse esquecimento, falta de lembrança.

— Não admito, redarguiu o Dr. Natividade, crescendo para ele, como para lhe tomar satisfações, não admito esquecimentos comigo. Graças a Deus, tive educação, e sei o que são deveres de boa sociedade.

Nisto o Bernardino Santana aproximou-se, amável, sobraçando duas botijas de água de Seltz.

— Então, senhor doutor, não dança?

— Não senhor, não danço, respondeu o juiz municipal, abotoando o fraque.

— Então por quê? Ainda tão moço, já quer ser do rol dos velhos?

— Não é por isso, é porque sofri uma desfeita, e eu, graças a Deus, não preciso sofrer desfeitas.

E o Dr. Natividade assestou a luneta para o chapéu do Bernardino, e cruzou as mãos atrás das costas.

— Desfeita, exclamou o Bernardino Santana, atrapalhado com as botijas, fizeram-lhe uma desfeita? De quem foi essa patifaria, senhor doutor?

— Olhe, pergunte ao Sr. Aníbal, se quer saber, respondeu o juiz, fechando-se na dignidade do silêncio. E voltando as costas ao Bernardino, foi para a sala de jantar.

Macário foi verificar se de fato a Milu dançava aquela quadrilha com o Totônio

Bernardino, mas teve o cuidado de se não expor aos olhos do Manduquinha Barata. Dançava, com requebros, muito corada, recostando a cabeça no peito do cavalheiro. O Manduquinha desta vez pilhara a filha do Valadão, e tinha um trabalho insano em a fazer dançar à sua moda, aos pulos e saltos. Muito digna, a moça resistia, entesando o corpo. O Cazuza Bernardino arrastava a D. Dinildes. O Pedrinho Sousa era par de D. Cirila. O Felício boticário carregava a menina de onze anos. Quinquim da Manuela, coitado, coubera em sorte à mulher do Costa e Silva, e, para completar o quadro, dois velhos, o tenente Pessoa e Bartolomeu de Aguiar haviam sido requisitados e dançavam com filhas do Costa e Silva.

Na ocasião em que Macário chegava, D. Eulália dizia à velha D. Basilisa, sentada ao pé dela, perto da porta:

— Agora é arrumar a trouxa. Depois de amanhã vamos embora. Seu Neves diz que é por causa dos meus xerimbabos... mas é porque ele quer mesmo!

(continua...)

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