Por Domingos Olímpio (1903)
— Quem, sou eu?... Quero evitar as más línguas, que não me poupam. Em homem nada pega, mas, em moça, tudo tisna. Eu confio em Deus acabar os meus dias, limpa como nasci do ventre da minha mãe... A pobreza não me afronta, porque tenho forças para trabalhar e ainda não cansei de sofrer. Sabe o que temo? Que façam pouco de mim, que me frechem com dictérios e caçoadas. Às vezes, tenho ímpetos de estraçalhar uma dessas criaturas perversas que me olham pelo rabo do olho, rindo pelo canto da boca, como se eu fora uma ridícula... Quando o senhor for para a sua banda e eu para a minha, tudo acabará ...
—Como acabaria, se nos casássemos.
—É impossível... Nasci, com má sina...
— Bem, Luzia... Vejo que me suspeita, embora não o diga francamente... Paciência... Será como for do seu agrado.
— Luzia amarrou, lentamente, a toalha com os pratos da refeição, que Alexandre mal encetara. Havia nos seus gestos, aparências de calma fria, resoluta. Toda ela, entretanto, vibrava com o abalo estranho, indefinido, que a invadira como um frio pérfido de moléstia.
— Até amanhã - disse ela, secamente.
— Não venha mais, Luzia... – murmurou o preso – Não vale a pena fazer mais sacrifícios por mim... Arranjarei aqui mesmo o de-comer. Basta. Não mereço tamanha dedicação... Deixe-me de mão, já que não quer ser ridícula...
Ela não lhe respondeu. Retirou-se, de manso, com o andar lento e fatigado de quem vai a contragosto. Alexandre acompanhou-a, com os olhos desvairados, até que ela dobrou a esquina do João Padeiro, e desapareceu no beco do Coronel Braga. Pungia-lhe o coração imensa saudade, o pressentimento de nunca mais tornar a vê-lo, remorso de haver provocado a separação com o excesso de brio, ressumante nas palavras cruéis com as quais se desonerara da piedosa tarefa de visitá-lo todos os dias, para levar-lhe, talvez, o melhor quinhão da magra despensa de pobre, o precioso quinhão do pobre, que se priva do apenas suficiente para não morrer à fome. Súbito, ele estremeceu de pasmo, de dolorosa surpresa, ao fitar a parede, onde se fincavam os vergalhões de ferro da dupla grade... Estavam ali, entre migalhas da comida, murchos e ressequidos, os cravos rubros que ele havia dado a Luzia...
CAPÍTULO XV
Tão preocupada regressara Luzia da cadeia, que não reparou em Dona Matilde, debruçada sobre uma das janelas da casa do Promotor. Foi preciso que a formosa senhora a chamasse para arrancá-la da funda meditação absorvente, em que imergira o espírito, como num antro caliginoso.
— Aonde vai tão apressada, Luzia?...
— Desculpe-me, dona – respondeu ela, estacando, confusa e enteada, como se lhe houvessem surpreendido a tortura moral — Estava tão atarantada que não vi vosmecê, quando era minha intenção falar com o seu doutô a respeito do processo.
— Entre. Estou com saudades dos meus bonitos cabelos...
— Aqui estão sempre bem tratados e muito mais cuidados do que quando eram meus – disse Luzia, libertando a opulenta cabeleira do pente que a sustinha.
— Que lindos!... – exclamou Matilde, acariciando, com mimo, as bastas madeixas – Como estão macios... Oh! nunca vi coisa igual...
Luzia agradecia, com um sorriso contrafeito de melancolia.
— Você – continuou a senhora – parece contrariada... Que lhe aconteceu?...
Sua mãezinha vai melhor?...
— Muito melhor...
— E Alexandre?...
— Como preso, quase sem esperança de se ver livre da enxovia...
— Tenho grande dó de você, Luzia, moça capaz, merecedora de melhor sorte. Mas, que significa esse ar sombrio, esses olhos amortecidos?...
Luzia não respondeu.
— Diga-me – continuou a senhora, com meiguice quer muito a Alexandre?...
— Por que me pergunta?
— A sua dedicação ilimitada àquele infeliz só pode ser inspirada por um grande afeto, desses que não esmorecem ante os maiores sacrifícios.
— Não sei se lhe quero muito... Sei que lhe devo muita gratidão por ter sido bom para nós, o protetor e amigo, que nos ajudou...
— E é somente por gratidão, que o defende com tanta dedicação?... — Só por gratidão. Por que, então, havia de ser?...
Luzia respondia com esforço. As palavras irrompiam de seus lábios, ásperas, aos pedaços, com uma falaz aparência de calma e indiferença.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.